Quem és tu, flor de petalas coradas, Como virgem que ardesse n'um desejo?
Flores, em A Esperança Vol. I, de Antero de QuentalVerificada
As palavras para cada ocasião.
Cada uma diz de que obra saiu e em que ponto dela.
Quem és tu, flor de petalas coradas, Como virgem que ardesse n'um desejo?
Flores, em A Esperança Vol. I, de Antero de QuentalVerificada
Eu só sei que sois filhas extremosas, As filhas do Senhor e seus amores!
Flores, em A Esperança Vol. I, de Antero de QuentalVerificada
Vi de que noite é feita a luz do dia!
Um silêncio de morte se engolfava.
D'um morto coração, que nada espera, Nem deseja também... bendita sejas!
Quem ama até em sonhos adivinha...
Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno
A um poeta (Antero de Quental), de Antero de QuentalVerificada
Porque o meu coração é que não dorme...
Um mundo novo espera só um aceno...
A um poeta (Antero de Quental), de Antero de QuentalVerificada
Ergue-te, pois, soldado do Futuro, E dos raios de luz do sonho puro, Sonhador, faze espada de combate!
A um poeta (Antero de Quental), de Antero de QuentalVerificada
Estreita é do prazer na vida a taça: Largo, como o oceano é largo e fundo, E como ele em venturas infecundo, O cálix amargoso da desgraça.
É lei de Deus este aspirar imenso...
Ah! se Deus acendeu um foco intenso De amor e dor em nós, na ardente lida, Porque a miragem cria... ou porque a leva?
Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
Mas se paro um momento, se consigo Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
Juntos no antigo amor, no amor sagrado, Na comunhão ideal do eterno Bem.
Para o céu a minh'alma sobe e canta.
Canta o enlevo das coisas, a alegria Que as penetra de amor e as alevanta...
São sonho só, e sonho o meu amor!
Oh minh'alma, que creste na virtude! O que será velhice e desalento, Se isto se chama aurora e juventude?
É bela a vida e os anos são formosos,
Aspiração (Antero de Quental), de Antero de QuentalVerificada
Minh'alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Aspiração (Antero de Quental), de Antero de QuentalVerificada
Eu sempre bendirei esta tristeza!
Aspiração (Antero de Quental), de Antero de QuentalVerificada
Amar! mas d'um amor que tenha vida...
Amor que vive e brilhe! luz fundida Que penetre o meu ser — e não só beijos
Pois que podem os astros dos espaços Contra débeis amores... se têm vida?
Em vão lutamos. Como névoa baça, A incerteza das coisas nos envolve.
Filhos do Amor, nossa alma é como um hino À luz, à liberdade, ao bem fecundo, Prece e clamor d'um presentir divino;
Mas n'um deserto só, árido e fundo, Ecoam nossas vozes, que o Destino Paira mudo e impassível sobre o mundo.
Interrogo o infinito e às vezes choro... Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro E aspiro unicamente à liberdade.
Evolução (Antero de Quental), de Antero de QuentalVerificada
Vai-te na aza negra da desgraça, Pensamento de amor, sombra d'uma hora, Que abracei com delírio, vai-te, embora, Como nuvem que o vento impele... e passa.
Desesperança (Antero de Quental), de Antero de QuentalVerificada
Que seja sonho apenas a esperança, Enquanto a dor eternamente assiste. E só engano nunca a desventura!
Desesperança (Antero de Quental), de Antero de QuentalVerificada
Envolve-te em ti mesma, ó alma triste, Talvez sem esperança haja ventura!
Desesperança (Antero de Quental), de Antero de QuentalVerificada
Não sei que luz no teu olhar flutua;
O vento e o mar murmuram orações, E a poesia das coisas se insinua Lenta e amorosa em nossos corações.
Que é o mundo ante mim? fumo ondeando, Visões sem ser, fragmentos de existencias... Uma névoa de enganos e impotências Sobre vácuo insondável rastejando...
Contemplação (Antero de Quental), de Antero de QuentalVerificada
Das coisas, que procuram cegamente Na sua noite e dolorosamente Outra luz, outro fim só presentido...
Contemplação (Antero de Quental), de Antero de QuentalVerificada
Reprimirei meu pranto!...
Seguirei meu caminho confiado,
Na humilde fé de obscuras gerações, Na comunhão dos nossos pais antigos.
Por ti, na arena trágica, as nações buscam a liberdade entre clarões;
Na mão de Deus, na sua mão direita, Descansou afinal meu coração.
Dorme o teu sono, coração liberto, Dorme na mão de Deus eternamente!
E o homem porque vaga desolado E em vão busca a certeza que o conforte?
É tudo, em torno a mim, dúvida e luto;
E, perdido num sonho imenso, escuto O suspiro das coisas tenebrosas...
A glória! pois que há n'ela que adorar? Fumo, que sobre o abismo anda suspenso...
Não me fales de glória: é outro o altar, de Antero de QuentalVerificada
Que vislumbre nos dá do amor imenso? Esse amor que ventura faz gozar?
Não me fales de glória: é outro o altar, de Antero de QuentalVerificada
Tanto estéril lutar, tanta agonia, E inúteis tantos ásperos tormentos...
Noite sem termo, noite do Não-ser!
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Paladino do amor, busco anelante O palácio encantado da Ventura!
Mas dentro encontro só, cheio de dor, Silêncio e escuridão - e nada mais!
A ti confio o sonho em que me leva Um instinto de luz, rompendo a treva, Buscando. entre visões, o eterno Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome, A febre de Ideal, que me consome,
Junto do mar, que erguia gravemente A trágica voz rouca, enquanto o vento Passava como o vôo do pensamento Que busca e hesita, inquieto e intermitente,
Junto do mar sentei-me tristemente, Olhando o céu pesado e nevoento,
O Inconsciente imortal, só me responde Um bramido, um queixume, e nada mais...
Por que se sofre é que se espera... e tanto Que as dores são os nossos diademas.
À História, em Odes modernas (1875), de Antero de QuentalVerificada
Eu creio no destino das nações: Não se faz para dor, para desterros, Esta ânsia que nos ergue os corações!
À História, em Odes modernas (1875), de Antero de QuentalVerificada
Amor d’Irmão! oh! este amor é doce Como ambrosia e como um beijo casto! Orvalho santo, que chovido fosse, E o lírio absorve como etéreo pasto!...
À História, em Odes modernas (1875), de Antero de QuentalVerificada
A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,
A um crucifixo, em Odes modernas (1875), de Antero de QuentalVerificada
Sob o mesmo ermo céo, frio como um sudario…
A um crucifixo, em Odes modernas (1875), de Antero de QuentalVerificada
No espaço constelado passa o vulto Do inominado Alguem, que os sóis aviva:
Justitia mater, em Odes modernas (1875), de Antero de QuentalVerificada
No mar ouve-se a voz grave e aflitiva D'um deus que luta, poderoso e inculto.
Justitia mater, em Odes modernas (1875), de Antero de QuentalVerificada
Há mais alta missão, mais alta glória: O combater, à grande luz da história, Os combates eternos da Justiça!
Justitia mater, em Odes modernas (1875), de Antero de QuentalVerificada
Assim a Morte diz. Verbo velado, Silencioso intérprete sagrado Das coisas invisíveis, muda e fria,
Há mil anos, e mais, que aqui estou morto, Posto sobre um rochedo, à chuva e ao vento:
Palavras d'um certo morto, em Odes modernas (1875), de Antero de QuentalVerificada
«Morto, enterrado em vida!» o meu tormento É isto só… do resto não me importo…
Palavras d'um certo morto, em Odes modernas (1875), de Antero de QuentalVerificada
Só o espirito vive: vela absorto N'um fixo, inexoravel pensamento:
Palavras d'um certo morto, em Odes modernas (1875), de Antero de QuentalVerificada
Ó quimera, que passas embalada Na onda de meus sonhos dolorosos, E róças c’os vestidos vaporosos A minha fronte pálida e cançada!
Das Unnennbare, em Primaveras românticas (1872), de Antero de QuentalVerificada
Deixal-a ir, a ave, a quem roubaram Ninho e filhos e tudo, sem piedade... Que a leve o ar sem fim da soledade Onde as asas partidas a levaram...
Despondency, em Primaveras românticas (1872), de Antero de QuentalVerificada
Deixal-a ir, a vela, que arrojaram Os tufões pelo mar, na escuridade, Quando a noite surgiu da imensidade, Quando os ventos do Sul se levantaram...
Despondency, em Primaveras românticas (1872), de Antero de QuentalVerificada
Empunhasse eu a espada dos valentes!
Enquanto outros combatem, em Primaveras românticas (1872), de Antero de QuentalVerificada
Ou caíra radioso, amortalhado Na fulva luz dos gladios reluzentes!
Enquanto outros combatem, em Primaveras românticas (1872), de Antero de QuentalVerificada
És bela — e se te não comparo à rosa, É que a rosa, bem vês, passou de moda...
Intimidade, em Primaveras românticas (1872), de Antero de QuentalVerificada
Nem pode haver, na multidão ruidosa, Coisa mais linda, mais absurda e douda.
Intimidade, em Primaveras românticas (1872), de Antero de QuentalVerificada
Topámos no caminho a liberdade Que nos surriu com gesto indefinivel...
Disputa em família, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada
Já provámos os frutos da verdade...
Disputa em família, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada
Ouve tu, meu cançado coração, O que te diz a voz da Natureza:
Primeiros conselhos do outono, em Primaveras românticas (1872), de Antero de QuentalVerificada
Eu não busco o teu corpo... Era um troféu Glorioso demais... Busco a tua alma — Respondi-lhe: «A minha alma já morreu!»
Anima mea, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada
Um muro de silêncio e treva em torno, E ao longe os passos sepulcrais da Morte.
Elogio da Morte, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada
Ninguém sabe quem sou...
Mixto infeliz de trevas e de brilho,
Sabe tu encarar sereno o abismo!
Estoicismo, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada
Deixa aos timidos, deixa aos sonhadores A esperança van, seus vãos fulgores...
Estoicismo, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada
Valia a pena, acaso, em anciedade Ter nascido? dizei-mo com verdade,
Corre o tempo e só gera, inextinguiveis, Dor, pecado, ilusão, lutas horriveis,
Divina Comedia, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada
Pois não era melhor na paz clemente Do nada e do que ainda não existe, Ter ficado a dormir eternamente?
Divina Comedia, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada
Dizem: — «Homens! porque é que nos creastes?»
Divina Comedia, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada
A Duvida soprou sobre o Universo.
Espiritualismo, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada
Fez-se noite de súbito, imerso O mundo em densa e algida neblina.
Espiritualismo, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada
Só uma flor humilde, misteriosa, Como um vago protesto da existencia, Desabroxa no fundo da consciência.
Espiritualismo, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada
Também me busco a mim... sem me encontrar!
— Não vos queixeis, ó filhos da anciedade, Que eu mesmo, desde toda a eternidade, Também me busco a mim... sem me encontrar!
És um reflexo apenas da minha alma,
Falo-te, calas... calo, e vens atento...
Ter-te a meu lado... és um tirano, e adoro-te!
E o corcél negro diz: «Eu sou a Morte!» Responde o cavaleiro: «Eu sou o Amor!»
Mors - Amor, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada
Firo, mas salvo... Prostro e desbarato, Mas consólo... Subverto, mas resgato... E, sendo a Morte, sou a Liberdade.
Mors liberatrix, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada
Brilha uma espada, feita de comêtas, Que rasga a escuridão, como um luzeiro.
Mors liberatrix, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada
Mas tão longe... que até dizer podia Que enquanto lá andei, andei sonhando...
E eu... leve como a luz... até que um dia Um vento me tomou, e vim rolando...
Senti um monstro em mim nascer nessa hora, E achei-me de improviso feito fera...
Amortalhei na fé o pensamento, E achei a paz na inercia e esquecimento...
O Convertido, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada
Só me falta saber se Deus existe!
O Convertido, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada
Para além do Universo luminoso, Cheio de formas, de rumor, de lida, De forças, de desejos e de vida, Abre-se como um vácuo tenebroso.
À bela luz da vida, ampla, infinita, Só vê com tédio, em tudo quanto fita, A ilusão e o vasio universais.
Chamam-me Deus, há mais de dez mil anos... Mas eu por mim não sei como me chamo...
O Inconsciente, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada
Não se sacode assim tão facilmente O jugo da divina tirania!
Quia æternus, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada
E os que folgam na orgia impia e devassa Ai! quantas vezes, ao erguer a taça, Param, e estremecendo, impalidecem!
Quia æternus, em Sonetos (1880), de Antero de QuentalVerificada