Não voltou mais. A que ilha indescoberta Aportou?
Frases de Fernando Pessoa
Cada uma diz de que obra saiu e em que ponto dela.
Deus guarda o corpo e a forma do futuro, Mas Sua luz projeta-o, sonho escuro E breve.
O céu estrela o azul e tem grandeza.
A madrugada irreal do Quinto Império Doira as margens do Tejo.
A madrugada do novo dia, Do novo dia sem acabar;
Faz mau o sono, triste o sonhar.
Não pensa em vida ou morte,
Três impérios do chão lhe a Sorte apanha. Criou-os como quem desdenha.
Que voz vem no som das ondas Que não é a voz do mar?
São ilhas afortunadas, São terras sem ter logar,
Cala a voz, e há só o mar.
Ilha próxima e remota, Que nos ouvidos persiste, Para a vista não existe.
Dá-nos o exemplo inteiro E a tua inteira força!
A benção como espada, A espada como benção!
Firme em minha tristeza, tal vivi.
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus.
Cumpri contra o Destino o meu dever. Inutilmente? Não, porque o cumpri.
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta.
É a voz da terra ansiando pelo mar.
Volve a nós teu rosto serio, Princesa do Santo Gral, Humano ventre do Império, Madrinha de Portugal!
Deu-me Deus o seu gladio, porque eu faça A sua santa guerra.
D. Fernando Infante de Portugal, de Fernando PessoaVerificada
Cheio de Deus, não temo o que virá, Pois, venha o que vier, nunca será Maior do que a minha alma.
D. Fernando Infante de Portugal, de Fernando PessoaVerificada
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita — O todo, ou o seu nada.
Braços cruzados, fita além do mar.
O limite da terra a dominar O mar que possa haver além da terra.
Seu formidável vulto solitário Enche de estar presente o mar e o céu,
Louco, sim, louco, porque quis grandeza Qual a Sorte a não dá.
Não me podia a Sorte dar guarida Por eu não ser dos seus.
Sem a loucura o que é o homem Mais que a besta sadia, Cadáver adiado que procria?
Fiel à palavra dada e à idéa tida. Tudo mais é com Deus!
O homem e a hora são um só Quando Deus faz e a história é feita.
O mais é carne, cujo pó A terra espreita.
As nações todas são mistérios. Cada uma é todo o mundo a sós.
Dê tua prece outro destino A quem fadou o instinto teu!
Que importa o areal e a morte e a desventura Se com Deus me guardei?
É o que eu me sonhei que eterno dura, É Esse que regressarei.
O mar é o mesmo: já ninguém o tema!
Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.
Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal!
Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu.
Ninguém sabe que coisa quer. Ninguém conhece que alma tem,
Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
No vale clareia uma fogueira. Uma dança sacode a terra inteira.
São os Titans, os filhos da Terra, Que dançam da morte do marinheiro
Ó mar anterior a nós, teus medos Tinham coral e praias e arvoredos.
Abria em flor o Longe, e o Sul siderio Splendia sobre as naus da iniciação.
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores; E, no desembarcar, há aves, flores, Onde era só, de longe a abstrata linha.
Ergue a luz da tua espada Para a estrada se ver!
Todo começo é involuntário. Deus é o agente.
«Que farei eu com esta espada?»
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
Vendem os Deuses o que dão.
Ai dos felizes, porque são Só o que passa!
A vida é breve, a alma é vasta: Ter é tardar.
Na Cruz morta do Mundo A Vida, que é a Rosa.
Na Cruz, que é o Destino, A Rosa, que é o Cristo.
Na Cruz morta e fatal A Rosa do Encoberto.
Sonhava, anónimo e disperso, O Império por Deus mesmo visto, Confuso como o Universo E plebeu como Jesus Cristo
Não foi nem santo nem herói, Mas Deus sagrou com Seu sinal Este, cujo coração foi Não português mas Portugal.
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!
Onde quer que, entre sombras e dizeres, Jazas, remoto, sente-te sonhado, E ergue-te do fundo de não-seres Para teu novo fado!
Vem, Galaaz com patria, erguer de novo, Mas ja no auge da suprema prova, A alma penitente do teu povo À Eucaristia Nova.
Mestre da Paz, ergue teu gladio ungido, Excalibur do Fim, em geito tal Que sua Luz ao mundo dividido Revele o Santo Gral!
Triste de quem é feliz!
Eras sobre eras se somem No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
O mostrengo que está no fim do mar Na noite de breu ergueu-se a voar;
Outros haverão de ter O que houvermos de perder.
É a Magia que evoca O Longe e faz dele história.
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras — O único imperador que tem, deveras, O globo mundo em sua mão.
O esforço é grande e o homem é pequeno.
A alma é divina e a obra é imperfeita.
O mar sem fim é português.
Com duas mãos — o Ato e o Destino — Desvendámos. No mesmo gesto, ao céu Uma ergue o facho trémulo e divino E a outra afasta o véu.
Fosse a hora que haver ou a que havia A mão que ao Ocidente o véu rasgou, Foi alma a Ciência e corpo a Ousadia Da mão que desvendou.
Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal A mão que ergueu o facho que luziu, Foi Deus a alma e o corpo Portugal Da mão que o conduziu.
Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Restam-nos hoje, no silêncio hostil, O mar universal e a saudade.
E outra vez conquistemos a Distância— Do mar ou outra, mas que seja nossa!
Screvo meu livro à beira-mágoa.
Screvo meu livro à beira-magoa..., de Fernando PessoaVerificada
Só tu, Senhor, me dás viver.
Screvo meu livro à beira-magoa..., de Fernando PessoaVerificada
Só te sentir e te pensar Meus dias vácuos enche e doura.
Screvo meu livro à beira-magoa..., de Fernando PessoaVerificada
O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus É um mito brilhante e mudo
Assim a lenda se escorre A entrar na realidade,
Nós, Portugal, o poder ser.
O relâmpago, farol de Deus, um hausto Brilha, e o mar scuro struge.
Se a alma que sente e faz conhece Só porque lembra o que esqueceu, Vivemos, raça, porque houvesse Memória em nós do instinto teu.