Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

A Última Nau

Fernando Pessoa · Mensagem (1934), pp. 65-66

Levando a bordo El-Rei D. Sebastião, E erguendo, como um nome, alto o pendão Do Império, Foi-se a última nau, ao sol aziago Erma, e entre choros de ânsia e de presago Mistério. Não voltou mais. A que ilha indescoberta Aportou? Voltará da sorte incerta Que teve? Deus guarda o corpo e a forma do futuro, Mas Sua luz projeta-o, sonho escuro E breve. Ah, quanto mais ao povo a alma falta, Mais a minha alma atlântica se exalta E entorna, E em mim, num mar que não tem tempo ou spaço, Vejo entre a cerração teu vulto baço Que torna. Não sei a hora, mas sei que há a hora. Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora Mistério. Surges ao sol em mim, e a névoa finda: A mesma, e trazes o pendão ainda Do Império.

Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte

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Penúltimo poema da parte do mar da Mensagem, A Última Nau é a dobradiça do livro: a segunda parte despede-se aqui do mar real, e a terceira, O Encoberto, vai viver do mito que este poema põe a navegar. A nau que parte «Levando a bordo El-Rei D. Sebastião» é a da expedição de 1578, que acabou em Alcácer Quibir; o corpo do rei nunca apareceu, e dessa ausência nasceu o sebastianismo, a espera do que há de voltar.

A partida é contada com duas palavras que pesam: o «sol aziago», o sol de mau agoiro, e o «presago / Mistério», o mistério que pressagia. A nau vai «Erma», sozinha, «E erguendo, como um nome, alto o pendão / Do Império»: a bandeira levada como se fosse um nome próprio, a identidade inteira posta a bordo de um barco só.

«Não voltou mais.» é a frase mais seca do poema, e as perguntas que se seguem são as do mito: «A que ilha indescoberta / Aportou?» Depois, o dístico mais denso: «Deus guarda o corpo e a forma do futuro, / Mas Sua luz projeta-o, sonho escuro / E breve»: o futuro existe, guardado; o que nos chega dele é uma sombra projetada, pouco nítida e passageira.

Nas duas estrofes finais o poema muda de voz: já não conta a história, espera-a por dentro («a minha alma atlântica se exalta»), «num mar que não tem tempo ou spaço», e a palavra encurtada é da própria Mensagem, que o arquivo conserva tal e qual. A espera fecha na linha que fez fortuna: «Não sei a hora, mas sei que há a hora.» E o regresso entrevisto «entre a cerração» traz «o pendão ainda / Do Império», o mesmo da partida: o círculo fecha-se onde abriu.

Na mesma parte do livro moram o Mar Português e O Mostrengo, ambos com leitura própria nesta casa. O texto segue a edição de 1934, com a grafia atualizada pela norma do arquivo; o original fica à vista no botão junto ao poema.

Revisão editorial de Rogério Junior · atualizada a 12 de outubro de 2026.

Frases tiradas deste poema

Estes versos andam a circular sozinhos. Aqui ficam com o poema inteiro por trás, e com a fonte à vista.

Deus guarda o corpo e a forma do futuro, Mas Sua luz projeta-o, sonho escuro E breve.

A Última Nau, de Fernando PessoaVerificada

Postal

Não voltou mais. A que ilha indescoberta Aportou?

A Última Nau, de Fernando PessoaVerificada

Postal

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