Ditos

As palavras para cada ocasião.

Lengalengas

As que se dizem em roda, as que servem para escolher quem fica a apanhar, e as que se dizem só pelo gosto de as dizer. A lengalenga é a poesia mais antiga da infância: repete, acumula, enrola e treina a memória sem ninguém dar por isso, verso puxa verso, como quem sobe uma escada a cantar.

Muitas vêm de séculos atrás, ditas de avós para netos no recreio, na cozinha e à lareira, e as recolhas dos etnógrafos guardaram-nas tal e qual o povo as dizia. Aqui estão como se dizem, e onde a brincadeira tem regras, a nota explica como se joga.

83 no total.

Boca de forno! Forno! Tira o bolo! Bolo! Fareis tudo o que o vosso mestre mandar? Faremos todos!

Jogo de grupo: o mestre manda ir buscar uma coisa e o último a voltar paga a prenda.

Postal

Cabra cega, donde vens? Venho do moinho. E o que trazes? Trago pão e vinho. Dá-me um bocadinho. Não te dou, não te dou. Vem cá buscá-lo, se és capaz.

Diz-se em roda a quem está de olhos vendados, e no fim largam-no a apanhar os outros.

Postal

Serra, serra, serrador, quantas tábuas tens serrado? Trinta e quatro. E o dinheiro? Comprei pão. E o pão? Comeu-o o gato. E o gato? Fugiu para o mato.

Diz-se com a criança ao colo, a baloiçar para a frente e para trás como se fosse uma serra.

Postal

Este foi buscar um ovo, este pô-lo a cozer, este deitou-lhe o sal, este provou-o e este gordinho comeu-o todo.

Diz-se a mexer nos dedos dos bebés e acaba sempre em cócegas.

Postal

Joaninha, voa, voa, que o teu pai foi a Lisboa, a tua mãe foi ao Porto trazer-te um vestido novo.

Recita-se com a joaninha pousada na mão, à espera que levante voo.

Postal

Caracol, caracol, põe os teus cornos ao sol. Se não os puseres, dou-te uma pancada com o pau do meu avô.

Diz-se de cócoras ao pé do caracol até ele deitar os cornos de fora.

Postal

Corre, corre, cabacinha. Corre, corre, cabação.

Refrão da história da velhinha que engana os bichos do mato escondida dentro de uma cabaça.

Postal

Hoje é domingo, pede cachimbo. O cachimbo é de ouro, dá no touro. O touro é valente, dá na gente. A gente é fraca, cai no buraco. O buraco é fundo, acabou-se o mundo.

Encadeada: cada verso pega na última palavra do anterior até o mundo acabar. A versão mais comprida, «Amanhã é domingo, pé de cachimbo», vive nesta mesma página: cada casa canta a sua.

Postal

Um, dois, feijões com arroz. Três, quatro, feijão no prato. Cinco, seis, falar inglês. Sete, oito, comer biscoito. Nove, dez, comer pastéis.

Serve para aprender a contar até dez e para saltar à corda.

Postal

Era uma vez um gato maltês que tocava piano e falava francês. A dona da casa mandou-o calar e o gato zangado pôs-se a miar.

História que anda à roda: chega ao fim e pergunta se a queres outra vez, e por aí se fica até alguém se render. Da mesma família da caixinha vermelhinha e das outras histórias sem fim.

Postal

Papagaio loiro, de bico dourado, leva esta carta ao meu namorado. Ele não é padre nem homem casado, é rapaz solteiro, muito bem mandado.

Cantiga de roda, canta-se de mãos dadas a andar à volta.

Postal

Que linda falua que lá vem, lá vem. É uma falua que vem de Belém. Que linda falua, ó marinheiro, que linda falua, vou já para o mar.

Duas crianças fazem uma ponte com os braços e as outras passam por baixo em fila.

Postal

Eu fui à loja do mestre André e comprei um violino. Ai o meu violino, tim tim tim. Ai a loja do mestre André.

Em cada volta acrescenta-se um instrumento novo e repetem-se todos os anteriores pela ordem certa.

Postal

Passa, passa, gabriel, todos comem pão e mel. Passa um, passam dois, e o último que ficar é o que vai apanhar.

Duas crianças fazem um arco com os braços e baixam-nos para prender quem passar em último.

Postal

Pim, pam, pum, cada bola mata um. Não sei se é este, se é aquele, se é o número um.

Serve para escolher quem fica a apanhar, apontando a um de cada vez em cada sílaba.

Postal

Vai a formiga à neve e deixa lá o pezinho. Ó neve, tu és forte? Sou forte, mas mais forte é o sol que me derrete. Ó sol, tu és forte? Sou forte, mas mais forte é a nuvem que me tapa.

Encadeada e sem fim: aparece sempre alguém mais forte do que o anterior.

Postal

Trinta dias tem novembro, abril, junho e setembro. De vinte e oito só há um, os outros têm trinta e um.

Decora-se para saber de cor quantos dias tem cada mês.

Postal

Bolinhos e bolinhós, para mim e para vós, para dar aos finados que estão mortos e enterrados. Ai, ui, ai, ui, ai, que cheirinho a pão quente.

Canta-se de porta em porta no dia de Pão por Deus, a 1 de novembro, com o saco na mão.

Postal

Dedo mindinho, seu vizinho, pai de todos, fura bolos, mata piolhos.

Diz-se apontando ou mexendo em cada dedo da mão, para ensinar os nomes populares dos dedos e brincar com a criança.

Postal

Este quer pão, este diz que não há, este diz que o fará, este diz que o cozerá, e este pequenino todo o comerá.

Diz-se tocando nos dedos da mão da criança, como brincadeira de colo.

Postal

Janela, janelinha, porta, campainha: trim!

Diz-se tocando nos olhos, na boca e no nariz da criança, terminando com uma cócega ou toque na ponta do nariz.

Postal

Vai uma formiguinha pela mão acima, pela mão acima, pela mão acima... e esconde-se aqui!

Diz-se fazendo os dedos subir pelo braço da criança até terminar em cócegas no pescoço ou debaixo do braço.

Postal

Serra, serra, serrador, serra o papo do senhor; serra, serra, serradinha, serra o papo da galinha.

Diz-se balançando a criança ou fingindo serrar com a mão, muitas vezes acabando em cócegas.

Postal

Pico, pico, maçarico, quem te deu tamanho bico? Foi a velha da cozinha, que comeu papa sem farinha.

Diz-se picando levemente a palma da mão ou o corpo da criança com um dedo, em brincadeira de cócegas. Também se canta «pico, pico, sarrabico», com a velha chocalheira: as duas versões andam nesta página.

Postal

Pico, pico, sarrabico, quem te deu tamanho bico? Foi a velha chocalheira, que comeu a papa inteira.

Diz-se tocando repetidamente com o dedo na mão da criança, para a fazer rir ou preparar cócegas. Adolfo Coelho recolheu em 1883 uma prima desta pergunta: «Perinico, serinico, quem te deu tamanho bico? Foi a gata borralheira, come torrada com manteiga». É a irmã do «pico, pico, maçarico», que também aqui vive: cada terra pica à sua maneira.

Postal

Lá em cima do piano está um copo com veneno; quem bebeu morreu, o azar foi teu.

Diz-se para escolher ou eliminar uma criança numa contagem antes do jogo.

Postal

Amanhã é domingo, pé de cachimbo; o cachimbo é de barro, dá no jarro; o jarro é fino, dá no sino; o sino é de ouro, dá no touro; o touro é valente, dá na gente; a gente é fraca, cai no buraco; o buraco é fundo, acabou-se o mundo.

Diz-se como lengalenga de sorteio, apontando de criança em criança até sair a escolhida. A versão recolhida por Adolfo Coelho em 1883 segue em cadeia: «galo francês, pica na rês; a rês é miúda, pica na tumba», e por aí fora até roubar o cordão à Senhora da Conceição. Convive aqui com a versão curta, «Hoje é domingo, pede cachimbo»: cada casa canta a sua.

Postal

Vai-te embora, ó papão, De cima desse telhado; Deixa dormir o menino Um soninho descansado.

Diz-se ao embalar a criança, para a sossegar e afastar o medo do papão.

Postal

Ó ó, menino, ó, Ó ó, menino, ó; Que a tua mãe foi à fonte E ainda não voltou.

Diz-se a embalar bebés, repetindo o balanço do «ó ó» para os fazer dormir.

Postal

Dorme, meu menino, Que a mãe logo vem; Foi lavar os paninhos À ribeira de Belém.

Diz-se como cantiga de embalar, especialmente a bebés que custam a adormecer.

Postal

Senhora Sant’Ana, Embala o menino; Que a sua mãe foi à fonte E o seu pai ao moinho.

Diz-se ao deitar ou ao embalar, invocando Sant’Ana para ajudar a adormecer a criança.

Postal

O meu menino é de oiro, É de oiro e é de prata; Hei de mandá-lo à escola Aprender a ler a carta.

Diz-se como cantiga terna de embalar, elogiando a criança enquanto se acalma.

Postal

Um, dois, três, quatro, a galinha mais o pato fugiram da capoeira; foi atrás a cozinheira que lhes deu com um sapato.

Diz-se para brincar com a contagem inicial e para ajudar a criança a fixar a sequência dos primeiros números.

Postal

Um, dois, três, macaquinho do chinês.

Diz-se no jogo infantil do macaquinho do chinês, para marcar a contagem antes de todos ficarem imóveis. Na recolha de Adolfo Coelho (1883) a mesma fórmula fechava com «um, dois, três, vale de inglês», dita à parede no jogo das escondidas.

Postal

Lá vai uma, lá vão duas, três pombinhas a voar; uma é minha, outra é tua, outra é de quem a apanhar.

Diz-se como lengalenga de contagem simples, muitas vezes com crianças pequenas.

Postal

Sete e sete são catorze, com mais sete, vinte e um; tenho sete namorados, não gosto de nenhum.

Diz-se para brincar com a tabuada do sete e com a repetição dos números.

Postal

Estava a velha no seu lugar, Veio a mosca fazer-lhe mal. A mosca na velha, E a velha a fiar. Estava a mosca no seu lugar, Veio a aranha fazer-lhe mal. A aranha na mosca, A mosca na velha, E a velha a fiar. Estava a aranha no seu lugar, Veio o rato fazer-lhe mal. O rato na aranha, A aranha na mosca, A mosca na velha, E a velha a fiar. Estava o rato no seu lugar, Veio o gato fazer-lhe mal. O gato no rato, O rato na aranha, A aranha na mosca, A mosca na velha, E a velha a fiar. Estava o gato no seu lugar, Veio o cão fazer-lhe mal. O cão no gato, O gato no rato, O rato na aranha, A aranha na mosca, A mosca na velha, E a velha a fiar. Estava o cão no seu lugar, Veio o pau fazer-lhe mal. O pau no cão, O cão no gato, O gato no rato, O rato na aranha, A aranha na mosca, A mosca na velha, E a velha a fiar. Estava o pau no seu lugar, Veio o fogo fazer-lhe mal. O fogo no pau, O pau no cão, O cão no gato, O gato no rato, O rato na aranha, A aranha na mosca, A mosca na velha, E a velha a fiar. Estava o fogo no seu lugar, Veio a água fazer-lhe mal. A água no fogo, O fogo no pau, O pau no cão, O cão no gato, O gato no rato, O rato na aranha, A aranha na mosca, A mosca na velha, E a velha a fiar.

Canta-se a crianças, muitas vezes em roda ou em brincadeira, para treinar memória e ritmo acumulando animais e coisas.

Postal

Na loja do mestre André Fui comprar um pianinho. Plim, plim, plim, Um pianinho. Ai olé, ai olé, Foi na loja do mestre André. Na loja do mestre André Fui comprar um tamborzinho. Pum, pum, pum, Um tamborzinho. Plim, plim, plim, Um pianinho. Ai olé, ai olé, Foi na loja do mestre André. Na loja do mestre André Fui comprar uma flautinha. Fiu, fiu, fiu, Uma flautinha. Pum, pum, pum, Um tamborzinho. Plim, plim, plim, Um pianinho. Ai olé, ai olé, Foi na loja do mestre André. Na loja do mestre André Fui comprar uma rabeca. Rim, rim, rim, Uma rabeca. Fiu, fiu, fiu, Uma flautinha. Pum, pum, pum, Um tamborzinho. Plim, plim, plim, Um pianinho. Ai olé, ai olé, Foi na loja do mestre André.

Canta-se com crianças, juntando instrumentos e gestos ou sons a cada volta.

Postal

A árvore da montanha, Olé, ai ó. A árvore da montanha, Olé, ai ó. Esta árvore tinha um ramo, Ai, ai, ai, que lindo ramo. O ramo da árvore, A árvore da montanha, Olé, ai ó. Este ramo tinha uma folha, Ai, ai, ai, que linda folha. A folha do ramo, O ramo da árvore, A árvore da montanha, Olé, ai ó. Esta folha tinha um ninho, Ai, ai, ai, que lindo ninho. O ninho da folha, A folha do ramo, O ramo da árvore, A árvore da montanha, Olé, ai ó. Este ninho tinha um ovo, Ai, ai, ai, que lindo ovo. O ovo do ninho, O ninho da folha, A folha do ramo, O ramo da árvore, A árvore da montanha, Olé, ai ó. Este ovo tinha uma ave, Ai, ai, ai, que linda ave. A ave do ovo, O ovo do ninho, O ninho da folha, A folha do ramo, O ramo da árvore, A árvore da montanha, Olé, ai ó.

Canta-se em grupo, em escolas, escuteiros e brincadeiras, para ir acrescentando elementos à cadeia.

Postal

O lencinho vai na mão, Vai cair ao chão. Quem olhar para trás Leva um bofetão.

Diz-se no jogo do lencinho, em roda, para avisar que alguém vai deixar cair o lenço atrás de uma criança.

Postal

Ó bom barqueiro, Ó bom barqueiro, Deixai-me passar. Tenho filhos pequeninos, Não os posso sustentar. Passará, passará, Mas algum há de ficar. Se não for o da frente, Há de ser o de trás.

Diz-se no jogo do bom barqueiro, em que as crianças passam por baixo dos braços de duas outras e uma acaba presa.

Postal

A machadinha, Ah, ah, ah, A machadinha, Ah, ah, ah, Quem te pôs a mão, Sabendo que és minha? Sabendo que és minha, Também eu sou tua. Salta, machadinha, Para o meio da rua.

Canta-se em roda, com uma criança ao centro, para escolher par ou trocar de lugar.

Postal

Fui ao jardim da Celeste, Giroflé, giroflá, Fui ao jardim da Celeste, Giroflé, flé, flá. O que foste lá fazer, Giroflé, giroflá? O que foste lá fazer, Giroflé, flé, flá? Fui lá buscar uma rosa, Giroflé, giroflá, Fui lá buscar uma rosa, Giroflé, flé, flá.

Canta-se em roda ou em diálogo, muitas vezes para chamar uma criança pelo nome e a trazer para o meio.

Postal

Indo eu, indo eu, A caminho de Viseu, Encontrei o meu amor, Ai Jesus, que lá vou eu. Ora zus, truz, truz, Ora zás, trás, trás, Ora chega, chega, chega, Ora arreda lá para trás.

Canta-se em roda ou em pares, acompanhando passos e recuos marcados pela cantiga.

Postal

Ó rama, ó que linda rama, Ó rama da oliveira. O meu par é o mais lindo Que anda aqui na roda inteira. Que anda aqui na roda inteira, Inteira, roda inteira. O meu par é o mais lindo Que anda aqui na roda inteira.

Canta-se em roda, geralmente com pares, para dançar e trocar de par.

Postal

Ó Laurindinha, Vem à janela, Ver o teu amor, Ai, ai, ai, Que ele vai para a guerra. Se ele vai para a guerra, Deixa-o ir. Ele é rapaz novo, Ai, ai, ai, Ele torna a vir.

Canta-se em roda ou em dança simples, muitas vezes com uma criança destacada no centro.

Postal

Ó malhão, malhão, Que vida é a tua? Comer e beber, Ó tirim, tim, tim, Passear na rua.

Canta-se em roda e em danças de crianças, acompanhando palmas e passos simples.

Postal

Cabra-cega, de onde vens? Venho da serra. Que me trazes? Pão e queijo. Dá-me um bocadinho? Não dou.

Diz-se no jogo da cabra-cega, antes de a criança vendada tentar apanhar as outras.

Postal

Una, Duna, Tena, Catena, S. Paulo, S. Maulo, Do bico do pé, São nove, são dez.

Fórmula de contar, dita depressa e com ritmo, a apontar até aos dez. Vem nos jogos numerativos da recolha de Adolfo Coelho (1883).

Postal

Una, Duna, Tena, Catena, Cigarra, Migalha, Cupida, Dos pés, Conto bem, Que são dez.

Irmã da anterior, da mesma família do «una, duna»: conta-se até dez com palavras que não querem dizer nada e sabem todas a alguma coisa.

Postal

Una, una, una, Una, duna, tena, Eram dois irmãos, Mataram duas reses, Depois delas mortas Contaram vinte e três.

Numerativa de riscar: diz-se a traçar riscos num papel, que segundo a regra da recolha devem ser vinte e três nesta fórmula.

Postal

De onde vindes, senhora beata? Venho de S. Francisco, de me confessar. Que lhe deu o padre por penitência? Tudo isto hei de rezar. Faz-me um favor? Nada, nada, que me ralha o meu confessor. Ora dance um bocadinho. Nada, nada. Ora há de dançar um bocadinho. Já que tanto aperta Lá vai em louvor de S. Pedro e S. Paulo E S. João Batista Que nos valha e nos assista Nesta conquista. Venham aqui todos os serafins Com seus chapins, Chi-chri-chri-chi. Ai, que me há de dizer o meu confessor? Pesa-me, Senhor, pesa-me, Senhor.

Lengalenga de dedos: cobrem-se os dedos com um lenço, quatro fazem de beata e o polegar de passante, e o diálogo diz-se a mexê-los até a beata cair em tentação e dançar.

Postal

Ana Bagana, Rebeca Susana, Domingo de Páscoa De ramo na mão.

Rima curta de embalar o nome: das «rimas várias» da recolha, feita de nomes que rimam e de um domingo de festa.

Postal

Ana Badana, Chocalho de cana, Fita vermelha, Rabo de ovelha.

Prima da Ana Bagana, com o mesmo motor: o nome puxa a rima e a rima puxa o disparate.

Postal

Olha o bicho que está lá dentro. Se está lá, deixá-lo estar; Está a dormir, está a descansar. Olha o bicho!

Rima de meter medo a fingir, com o susto guardado para o fim: diz-se devagar e remata-se de repente.

Postal

Domingo de Lázaro apanhei um pássaro, Domingo de Ramos o depenei, Domingo de Páscoa o almocei.

Mnemónica dos domingos que levam à Páscoa: a própria recolha diz que «serve para mnemonizar estas festas». Calendário com pássaro dentro.

Postal

Toque, toque, Vamos a S. Roque Ver as meninas Que trazem capote.

Rima de caminho, curta como um estribilho: o santo entra pela rima e o passeio faz o resto.

Postal

Sermão de São Coelho, Com o seu barrete vermelho, Com uma espada de cortiça Para matar a carriça; A carriça deu um berro, Toda a gente se espantou, Só uma velha ficou Dentro dum sapato. Sape, gato! Sape, gato!

Disparate pregado como sermão, com espada de cortiça e velha dentro do sapato: termina em «sape, gato!», que é como quem diz que a história fugiu.

Postal

Uma velha tinha um gato, Debaixo da cama o tinha; Quanto mais o gato miava, O pinto piava, O porco grunhia E a velha dizia: Mil raivas vos persigam, Que não vos posso aturar!

A bicharada toda a desafinar ao mesmo tempo e a velha ao meio: lengalenga de barulhos, boa para dizer com vozes.

Postal

Quando chove e faz sol, Andam as bruxas em Antanhol Embrulhadas num lençol, A dançar ao caracol.

A rima do sol com chuva: noutras terras casa-se a raposa ou o Diabo; nesta versão, recolhida por Adolfo Coelho, andam as bruxas à dança em Antanhol.

Postal

Andando Fernando Lavrando, Vieram-lhe dizer Seu pai era morto, Sua mãe por nascer. Que havia do moço fazer? Deitou o boi às costas, Pôs o carro a correr. Quis saltar um valado, Saltou um arado. Se não era um cão Mordia-lhe um cajado. Entrou numa horta, Viu um pessegueiro Carregado de maçãs; Saltou-lhe acima, Tirou-lhe avelãs. Veio o dono lá de dentro: Ó ladrão dos meus marmelos! Deitou-lhe as calças abaixo, Encheu-lhas todas de farelos.

Um anfiguri: lengalenga do mundo às avessas, onde o pessegueiro dá maçãs, colhem-se avelãs e o roubo é de marmelos. O disparate é a regra e cumpre-se verso a verso.

Postal

Burra, burraquinha, Varre-me esta casinha; Se ma varreres bem, Dou-te um vintém; Se ma varreres mal, Nem um real. Salta a pulga Na balança, Deu um salto, Foi a França.

Fórmula de escolher: diz-se a apontar em roda, sílaba a sílaba, e a última palavra tira ou salva. A recolha nota que estas fórmulas também se diziam como jogo por si.

Postal

Pimpim, sarramacotim, La pega, la meda, La torta llega; Um bom rei por aqui passou, Todas as aves convidou, Menos uma aqui deixou; Sape daqui, vai-te acostar.

Fórmula de escolher com um miolo em castelhano, sinal de quanto estas rimas viajavam pela raia. O «pimpim» é parente do «pim pim» que ainda hoje se diz.

Postal

Burraca, burraquinha, Leitinho de vaca; Solorico, mendico, Por Nosso Senhor Jesus Cristo Que te vás e que te venhas Lá por trás dessas montanhas. Maria fura-gatos Apanhou um grilo Para a boca de seu filho. Fava redonda, A ti que te esconda.

Fórmula de escolher para as escondidas. Com uma graça documental: o próprio Adolfo Coelho confessa em rodapé que o povo dizia «mijinho de vaca» e ele imprimiu «leitinho», o etnógrafo de pudores.

Postal

Sola, sapato, Rei, rainha, Vai-te à praça Buscar camarinhas. Blico mar, Blico mar, Quantas ondas Há no mar? Há fateixa, Há redonda, Há belisca, Há esconda. Qual de nós Todas três Será vinho, Borracha e pez? Vai-te esconder Atrás do muro De Dona Inês; Vai tu lá Que é tua vez.

O «sola, sapato, rei, rainha» completo de 1883, com o mar, as ondas e o muro de Dona Inês: fórmula de escolher em versão longa, para sortear devagar.

Postal

Rei, rainha, Vai ao mar Pescar sardinha, Para dar Ao pai Luís, Preso à ordem Do juiz. Salta pulga Da balança E vai ter Até França. Cavaleiros A correr; As meninas A prender: «Qual será Mais bonita Que se vá Arrecolher?»

Fórmula de escolher que conta uma história inteira: sardinha, juiz, a pulga outra vez a caminho de França, e a pergunta final que aponta quem sai.

Postal

Pintolo minto, Que venda a vaca A tente cinco, Forolo mouro, Que tu és touro. Viva a faca Da comaca E o rio. Dá-ma vez Que te acama A tua vez.

Fórmula de escolher quase toda em língua inventada: o som manda, o sentido obedece. Diz-se a apontar, e a quem calha a última sílaba, calhou.

Postal

S. Tomé, S. Tomé, Vossa terra está em pé! Manda el-rei de Portugal Que vos mande ajoelhar.

Rima de roda: quem está ao centro comanda os movimentos e a roda obedece ao verso. Adolfo Coelho anota que as crianças diziam «São Tomé», e não «Santo».

Postal

Aqui está a chave Que abre a porta Do castelo De Chuchurumel. Aqui está o cordel Que prende na chave Que abre a porta Do castelo De Chuchurumel. Aqui está o sebo Que unta o cordel Que prende na chave Que abre a porta Do castelo De Chuchurumel. Aqui está o rato Que roeu o sebo, Aqui está o gato Que comeu o rato, Aqui está o cão Que mordeu o gato, Aqui está o pau Que bateu no cão, Aqui está o lume Que queimou o pau, Aqui está a água Que apagou o lume, Aqui está o boi Que bebeu a água, Aqui está o carniceiro Que matou o boi, Aqui está a morte Que levou o carniceiro E que entrega a chave Que abre a porta Do castelo De Chuchurumel.

A grande encadeada portuguesa: em círculo, uma chave passa de mão em mão e cada jogador repete a cadeia inteira desde o princípio, mais um elo; quem se engana paga uma prenda. O livro imprime as primeiras voltas por extenso e abrevia as seguintes, cuja cadeia aqui se segue como a regra manda; e chama-lhe «lenga-lenga» com todas as letras.

Postal

Tão balalão, Morreu o Simão, Ficaram os filhos, Comeram o pão.

Rima de baloiço: duas crianças de mãos dadas balançam ao compasso do sino. A recolha traz mais voltas: «focinho de burro, cara de cão», «na terra dos mouros, senhor capitão» e «cabeça de cão, cabeça de gato, não tem coração».

Postal

Era uma vez Uma caixinha Vermelhinha, Cor de pez: Queres que ta conte Outra vez?

História sem fim, das fórmulas para iludir quem pede «mais uma»: a resposta certa reabre a pergunta, e assim até ao sono.

Postal

Era uma vez Um conde e um bispo, Passaram pela ponte, Não sei mais do que isto.

A história mais curta do mundo, feita de propósito para acabar mal começa: fórmula de iludir a curiosidade infantil, como lhe chama a recolha.

Postal

Era uma vez uma menina Chamada Vitória, Morreu a menina, Acabou-se a história.

A célebre história da Vitória, tal e qual foi recolhida em 1883: quatro versos e pronto, acabou-se a história. Ainda hoje se diz a quem insiste.

Postal

Era uma vez um homem, Morava numa aldeia; Nunca tinha fome Depois da barriga cheia.

História de enganar com verdade dentro: promete conto e entrega uma evidência. Da família da Vitória e da caixinha vermelhinha.

Postal

Era uma vez um rei… Ai! não era o rei, era o barbeiro.

A história que se corrige a si própria e nunca chega a começar: o remate perfeito para fechar o livro dos «era uma vez» ao serão.

Postal

Era uma vez um caçador furunfunfor, triunfunfor, misericuntor; e foi à caça furunfunfaça, triunfunfaça, misericuntaça; e caçou um coelho furunfunfelho, triunfunfelho, misericuntelho; e levou-o a uma velha furunfunfelha, triunfunfelha, misericuntelha; e disse-lhe: Arranja-me este coelho furunfunfelho, triunfunfelho, misericuntelho. A velha furunfunfelha, triunfunfelha, misericuntelha, comeu o coelho furunfunfelho, triunfunfelho, misericuntelho; e veio o caçador furunfunfor, triunfunfor, misericuntor; e disse: Ó velha furunfunfelha, triunfunfelha, misericuntelha! Que é do meu coelho furunfunfelho, triunfunfelho, misericuntelho? O teu coelho furunfunfelho, triunfunfelho, misericuntelho, comeu-o o gato furunfunfato, triunfunfato, misericuntato.

Lengalenga de palavras entaramelas: cada personagem arrasta os seus apelidos impossíveis e a graça é dizê-los todos sem tropeçar. Na recolha vem entre a ginástica de língua e o disparate puro, que é exatamente onde mora.

Postal

Pedrinhas de taixoso, Comer pão com queijo, Soro de ovelha, Leite de cabra. Tem-te, homem, que não caias!

Jogo de destreza que a recolha marca como de Coimbra: as pedrinhas equilibram-se nas costas das mãos enquanto os versos se dizem, e à última linha atiram-se ao ar para as apanhar na palma.

Postal

Viste lá a Maria Guindim? Qual Maria Guindim? Aquela que fazia assim.

Jogo de roda da memória dos gestos: ao «fazia assim» faz-se um jeito com a cabeça ou os braços, e os jeitos somam-se sem largar os anteriores, até os jogadores mexerem tudo ao mesmo tempo e alguém pagar prenda.

Postal

Arranca-te, nabo, Que já estás vingado.

Verso de arrancar: os rapazes sentam-se em fila nos joelhos uns dos outros, agarrados pela cintura, e quem ficou de fora puxa o da frente ao grito do nabo («vingado» é aqui medrado, pronto a colher). Arrancados todos, um a um, o puxador sai campeão.

Postal

Um, dois, três e argolinha, Finca o pé na pimpolhinha. Ó rapaz, que jogo fazes? Faço o jogo licotão. Conta tu, Mané João; Se contares e não errares, Vinte e quatro hás de achar. Diz a velha do bordão Que recolha o seu pezinho, Que recolha o seu pezão.

Fórmula de eliminação dita às pernas: em roda, cada sílaba toca numa perna e a quem calha o fim recolhe o pé. Adolfo Coelho anota que em Espanha o mesmo jogo se dizia «recotan».

Postal

Vassoirinha, vassoirinha, Varre tu esta casinha; Vassoirinha, vassoirão, Varre-me este casarão. Sirolico, tico, tico, Quem te deu tamanho bico? Seja de oiro, ou de prata, Mete-te já na buraca.

Jogo de mãos em roda: as mãos espalmadas no chão fazem de casinha, a cabeça do jogo varre-as por cima a rimar e, à segunda volta, os beliscos mandam cada mão esconder-se no seio. Prima da «burra, burraquinha» das fórmulas de escolher; a recolha regista que também se dizia «bassoirinha».

Postal

Somos fidalgos, Temos dinheiro, Pão e queijo Para dar ao sineiro.

Interpretação popular dos sinos: era isto que o povo de Coimbra ouvia no toque rico do convento de Santa Cruz, «ordem rica e fidalga». Também se lhes ouvia «Santa Cruz tem pão, bacalhau, feijão». Pôr palavras nos sinos era passatempo a sério, e cada terra ouvia o seu.

Postal

Tem lêndeas, tem lêndeas. Mata-as com um pau, mata-as com um pau.

Diálogo de sinos recolhido em Coimbra: assim se ouvia o sino de Torres a queixar-se, e o do lugar vizinho a responder-lhe, badalada contra badalada. As lengalengas dos sinos punham conversa onde havia bronze.

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