Ditos

As palavras para cada ocasião.

Palavras nossas

Há palavras que não se traduzem sem uma frase inteira à volta, e há palavras que existem em toda a parte mas só aqui querem dizer aquilo. Estas são umas e outras, com o significado do dicionário e uma nota a explicar porque é que estão na lista.

80 palavras. Carrega numa letra para ver só as que começam por ela.

Sem equivalente exato

Traduzem-se com uma frase e mesmo assim perde-se qualquer coisa pelo caminho.

Abelhudo
Quem se mete no que não é chamado e quer saber da vida dos outros.Vem de abelha, do zumbido à volta de quem está a falar. É primo do bisbilhoteiro, com mais intromissão e menos curiosidade.
Aconchego
Conforto que vem de estar bem instalado e protegido, e o gesto de dar esse conforto a alguém.O dinamarquês «hygge» ficou famoso a dizer quase isto. A diferença é que o aconchego é sempre dado por alguém ou por um sítio: aconchega-se uma criança, aconchega-se uma manta.
Alfacinha
Natural de Lisboa.Ninguém sabe ao certo se foi das alfaces que os lisboetas comiam ou vendiam, e a dúvida faz parte do encanto. É alcunha que se aceita com um sorriso, o que nem todas as capitais podem dizer da sua.
Alfarrábio
Livro velho, de pouco valor comercial e muito volume.Vem do nome do sábio árabe Al-Farabi, e é das palavras portuguesas com a origem mais improvável. Deu alfarrabista, que é quem os vende.
Antemanhã
O tempo que vai do fim da noite ao nascer do sol, antes de a manhã ser manhã.O inglês precisa de duas palavras («before dawn») e mesmo assim aponta ao momento e não à faixa de tempo. É palavra de poesia e ainda se usa fora dela.
Arraial
Festa popular ao ar livre, com música, comes e bebes e bailarico.Começou por ser o acampamento de um exército e acabou em manjericos e sardinha assada, o que diz alguma coisa sobre as prioridades nacionais. Em junho, dizer «vamos ao arraial» dispensa mapa: segue-se o fumo e a música.
Azulejo
Placa cerâmica vidrada, usada para revestir paredes.A palavra veio do árabe, a técnica veio de fora, e mesmo assim não há coisa que diga Portugal mais depressa do que uma parede azul e branca. Exportámos a palavra com o objeto: azulejo diz-se azulejo em meia dúzia de línguas.
Bacalhau
Peixe salgado e seco, presença central da cozinha portuguesa; também o aperto de mão.Chamamos-lhe fiel amigo e juramos ter mil e uma maneiras de o fazer, para um peixe que não nada nas nossas águas. Só um país muito seguro da sua cozinha faz prato nacional de um hóspede.
Cavaqueira
Conversa longa e sem assunto sério, das que se têm por gosto de conversar.Não é «chat» nem «small talk»: essas são breves e servem para preencher. A cavaqueira demora, é o objetivo e não o intervalo.
Chatice
Coisa aborrecida ou incómoda, e o estado de espírito de quem a apanha.Serve para uma multa, para uma chuvada e para uma conversa que não acaba. É das palavras mais usadas do dia a dia português, e traduzi-la obriga a escolher: em inglês, «annoyance», «hassle» e «nuisance» cobrem cada uma um bocado do que ela diz, e nenhuma cobre o resto.
Chico-esperto
Pessoa que se julga mais esperta do que os outros e tenta levar vantagem em tudo.Tem irmão gémeo numa expressão deste site, armar-se em carapau de corrida, e nenhuma das duas se traduz sem perder o desprezo que trazem.
Choninhas
Pessoa medrosa, sem vontade própria, que se deixa levar.É insulto brando e antigo, do tipo que já quase não se ouve mas que toda a gente percebe. Costuma usar-se na mesma forma para ele e para ela, um choninhas, uma choninhas, e também há quem diga choninha.
Comichão
Sensação que dá vontade de coçar. Também se diz da vontade que não sossega.O inglês tem «itch» para as duas coisas, mas o português usa a segunda com mais liberdade: ter comichão para dizer uma coisa é estar quase a dizê-la.
Convívio
Encontro de pessoas que se conhecem, para comer e estar juntas sem outro fim.Existe em espanhol e em italiano, mas em Portugal ganhou um sentido concreto de acontecimento: marca-se um convívio, com data, comida e lista de quem vai.
Coscuvilhice
Bisbilhotice, conversa sobre a vida dos outros.Anda ao lado de mexerico e de bisbilhotice, e a diferença é de tom: a coscuvilhice é a mais miudinha das três, feita de pormenores sem importância.
Desabafo
Aquilo que se diz para tirar um peso de cima, sem esperar conselho nem solução.A palavra tem a imagem dentro dela: desabafar é tirar o abafo, destapar. Traduzir por «venting» dá o gesto e perde o alívio.
Desassossego
Estado de inquietação sem causa apontável, falta de sossego do corpo ou da cabeça.Existe em espanhol («desasosiego») e passou a ser palavra de exportação por causa do livro do Bernardo Soares. Traduzir por «restlessness» perde a raiz, que é o sossego a faltar, e não a agitação a mais.
Desenrascanço
Capacidade de resolver um problema à última hora, sem os meios próprios e com o que houver à mão.O inglês tem «improvise» e o francês «système D», mas nenhum guarda a ideia de sair de uma enrascada, que é o que a palavra tem lá dentro: quem se desenrasca estava enrascado.
Enfarruscado
Sujo de fuligem ou de carvão. Diz-se também de quem está com cara de poucos amigos.O salto do carvão para a cara zangada é o mesmo de «estar de trombas» e diz muito de como se falava numa casa com lareira.
Estremunhado
Acordado de repente e ainda meio a dormir, sem saber bem onde está.Não é sonolento, que é antes de adormecer. É o estado dos primeiros dez segundos depois de alguém nos acordar, e há uma palavra só para isso.
Fado
Destino, aquilo que está para acontecer e não se muda. É também o género de canção que se canta em Lisboa e em Coimbra.Vem do latim «fatum», destino, e é das poucas palavras que dá nome a um sentimento, a uma música e a uma maneira de olhar a vida ao mesmo tempo.
Francesinha
Sanduíche do Porto coberta de queijo derretido e molho picante, com carnes por dentro.O diminutivo é a melhor ironia da cozinha portuguesa: não há nada de pequeno numa francesinha. Cada tasca do Porto jura que o seu molho é o verdadeiro, e a receita do molho não se dá, herda-se.
Frescura
Qualidade do que é fresco. Em Portugal usa-se sobretudo para uma exigência desnecessária ou um capricho.O segundo sentido é o vivo: «não faças frescuras» não tem nada que ver com temperatura. É o tipo de deslize que só se percebe a viver cá.
Friorento
Pessoa que sente frio com facilidade, mesmo quando os outros não sentem.Um adjectivo inteiro para uma característica que outras línguas descrevem com uma frase. Tem irmão em «calmeirão», que é o contrário e quase não se usa.
Lambuzar
Sujar com comida, sobretudo a cara e as mãos, e sobretudo de coisa doce ou pegajosa.É um verbo específico para um tipo de sujidade. Uma criança lambuzada não está simplesmente suja: está suja de gulodice.
Lusco-fusco
A hora entre o dia e a noite, quando a luz já se foi e o escuro ainda não chegou.O inglês tem twilight e o castelhano crepúsculo, mas nenhum faz o que o português fez: dizer a hora incerta com uma palavra que hesita, duas sílabas gémeas a piscar como a própria luz.
Madrugar
Levantar-se muito cedo, antes de o dia começar para os outros.É um verbo inteiro para uma coisa que noutras línguas precisa de sujeito, verbo e complemento. Deu o provérbio, que é onde a palavra mora.
Magusto
Festa de outono à volta das castanhas assadas, pelo São Martinho.Castanhas na fogueira, vinho novo ou água-pé, caras enfarruscadas de propósito. O calendário oficial não o tem; o país inteiro tem. É a festa que só precisa de um ouriço e de novembro.
Manjerico
Vaso pequeno de manjericão de folha miúda, oferecido nos Santos Populares com uma bandeira e uma quadra.A planta cheira-se sem se tocar, com a mão em concha, e a quadra espetada no vaso é das últimas poesias de circulação obrigatória no país. Oferecer um manjerico é oferecer um poema com raízes.
Marmelada
Doce sólido de marmelo, de cortar à fatia.Demos a palavra ao mundo e o mundo trocou-lhe a fruta: a marmalade inglesa é de laranja, mas o nome vem do nosso marmelo. Poucas palavras portuguesas viajaram tão bem e voltaram tão trocadas.
Merendar
Comer a merenda, a refeição ligeira do meio da tarde.A palavra sobreviveu melhor no campo do que na cidade, e com ela a refeição. Traduzida dá «afternoon snack», que é a mesma coisa sem a hora certa.
Mexerico
Conversa que passa adiante o que se ouviu sobre outra pessoa, muitas vezes com um bocadinho a mais.Mexericar é mexer, e a palavra guarda isso: quem mexerica anda a mexer no que era dos outros.
Parolo
Pessoa da província, sem trato de cidade. Diz-se também do que é de mau gosto.É palavra com juízo lá dentro, e injusto: nasceu do desprezo da cidade pelo campo. Fica aqui porque se usa, não porque se recomende.
Petiscar
Comer pouco e por gosto, provando um bocado de cada coisa.O espanhol tem «tapear» e o inglês desistiu («to snack» é outra coisa, é comer entre refeições). Petiscar não é ter fome, é ter vontade.
Repimpado
Instalado com todo o conforto, e satisfeito consigo por isso.Traz sempre um bocadinho de troça: quem está repimpado está bem de mais para quem o está a ver.
Romaria
Peregrinação popular a um santuário, com festa associada.Vem de Roma, do tempo em que ir a Roma era a viagem das viagens, mas ficou para as viagens pequenas e devotas cá dentro. Meio caminho entre a missa e o arraial: vai-se pela alma e fica-se pelo resto.
Sarilho
Complicação, problema em que alguém se meteu, muitas vezes por culpa própria.Vem do sarilho de enrolar fio, e a imagem explica o sentido: quem está num sarilho está enrolado. Meter-se em sarilhos é a forma que mais se usa.
Saudade
Sentimento de falta de alguém ou de alguma coisa que se teve e já não se tem, misturado com o gosto de a ter tido.É a palavra portuguesa mais citada como intraduzível, e a fama vem de juntar numa só a dor da ausência e o gosto da lembrança. Intraduzível é dizer de mais: o galego usa a mesma palavra, o romeno tem «dor» e o galês «hiraeth», e há linguistas que contestam a ideia de palavras sem equivalente. O que se pode dizer com segurança é que a tradução pede quase sempre uma frase onde o português usa uma palavra.
Saudosismo
Apego exagerado ao passado, sobretudo a um passado idealizado que talvez não tenha sido assim.Nasce de saudade e é criação portuguesa: começou como movimento literário no início do século XX e acabou como palavra do dia a dia para quem acha que antigamente é que era bom.
Sebastianismo
Crença na volta de D. Sebastião, e, por extensão, a espera de uma salvação que há de vir de fora e resolver tudo.Não há maneira de traduzir isto sem contar a história de Alcácer Quibir. É a única palavra da lista que é ao mesmo tempo um sentimento e um acontecimento datado.
Sestear
Dormir a sesta, descansar nas horas de mais calor.O verbo existe e quase ninguém se lembra dele, o que é pena: dizer que se vai sestear é mais elegante do que dizer que se vai deitar um bocadinho.
Tasca
Restaurante pequeno e barato, de comida caseira e vinho da casa.Entre o balcão e meia dúzia de mesas, a tasca é a instituição gastronómica menos cerimoniosa do país. O prato do dia não se discute e a conta faz-se de cabeça. Quando fecha uma, o bairro fica mais pobre do que parece.
Trapalhada
Confusão feita por desajeitamento, coisa mal feita que dá trabalho a desfazer.Não é erro, que é neutro, nem asneira, que é mais grave. A trapalhada é sempre atrapalhada e quase sempre tem graça vista de fora.
Trasanteontem
O dia anterior a anteontem, isto é, há três dias.Poucas línguas têm palavra única para isto, e o português tem duas seguidas, anteontem e trasanteontem. Depois desta acaba-se a contagem e volta-se aos números.
Tremoço
Semente amarela de uma leguminosa, curada em salmoura, comida como acompanhamento da cerveja.Petisco de esplanada que se come com os dedos e deixa um pratinho de cascas por medalha. O mundo tem amendoins; nós temos esta paciência amarela que obriga a conversar devagar.
Tripeiro
Natural do Porto.A alcunha vem com certificado de generosidade: diz a tradição que o Porto deu a carne toda às naus de 1415 e ficou a comer as tripas. Ser tripeiro é usar por título aquilo que era para ser desfeita.
Varina
Vendedora de peixe que apregoava pelas ruas, com a canastra à cabeça.De Ovar, donde muitas vinham, fez-se o nome de um ofício inteiro. Cesário Verde pô-las nos versos e Lisboa pô-las na memória: o pregão da varina foi durante um século o despertador da cidade.
Vindima
Colheita da uva para o vinho; o tempo em que se faz.Não é só apanhar fruta: é época com nome próprio, como quem diz Natal ou Páscoa. No Douro ainda se canta e ainda há quem pise, e dizer «vou às vindimas» é dizer que setembro tem um dever.

Só cá se diz assim

Existem noutras variantes do português com outro nome, ou com outro sentido. São as que dizem de onde é quem fala.

Autocarro
Veículo coletivo de transporte urbano ou interurbano.O Brasil tem ônibus, do latim pela via francesa; nós colámos auto com carro e seguimos viagem. É das palavras que fazem o teste da nacionalidade num segundo, sem pedir cartão de cidadão.
Autoclismo
Mecanismo que despeja água na sanita.No Brasil chama-se descarga. A palavra portuguesa vem do grego, «auto» mais «klysma», que é lavagem, e é das poucas invenções eruditas para uma coisa tão pouco erudita.
Beata
Ponta de cigarro fumado; também mulher de devoção exagerada.A mesma palavra apaga-se no cinzeiro e ajoelha-se na igreja, e o português usa as duas sem confundir uma vez. Dizem os dicionários que a do cigarro veio da vela: o toco que sobra, aceso até ao fim, como as das beatas do outro sentido.
Berlinde
Bola pequena de vidro colorido com que as crianças jogam no chão.No Brasil é bolinha de gude; cá veio do francês berline e rolou para os recreios. Meio século de bolsos de calções a tilintar, e a palavra ainda faz brilhar os olhos a quem jogou.
Bica
Café curto, servido em chávena pequena. Em Lisboa é bica, no Porto é cimbalino.Pedir uma bica no Porto e um cimbalino em Lisboa dá sempre a mesma bebida e quase sempre um comentário à mistura.
Boleia
Transporte gratuito no veículo de outra pessoa.Era o assento do cocheiro na diligência; quem ia na boleia ia ao lado de quem conduzia, de favor. As diligências acabaram, o favor ficou, e pedir boleia continua a ser a forma mais portuguesa de viajar barato.
Borla
Coisa obtida sem pagar; «à borla» é de graça.A borla era o chapéu dos doutores, e há quem diga que a coisa vem dos privilégios de quem o usava: entrar sem pagar era regalia de borla na cabeça. O povo ficou com a parte que interessava.
Bué
Muito, uma grande quantidade.Entrou pelo quimbundo, língua de Angola, e chegou a Portugal com o regresso das famílias depois de 1975. É das poucas palavras de gíria com percurso documentado.
Cacilheiro
Barco que atravessa o Tejo entre Lisboa e a margem sul.O nome vem de Cacilhas, o destino, e ficou a valer para todos os barcos da travessia. É palavra local que entrou no dicionário.
Calçada
Pavimento de pedras pequenas de calcário e basalto, assentes à mão em desenhos.A calçada portuguesa é das poucas artes que se pisam. Os calceteiros, de martelo e joelheira, desenharam mares e rosáceas por todo o império, e hoje há ondas de Copacabana que são, tecnicamente, passeio português.
Camisola
Peça de roupa de malha com mangas, para o frio.No Brasil, camisola é roupa de dormir de senhora, e o luso que diga «vou de camisola» arrisca gargalhada. A mesma palavra agasalha num lado do Atlântico e desnuda no outro.
Cantiga
Canção simples e popular; também conversa para enganar.A palavra que serviu à primeira poesia da língua, a das cantigas de amigo, serve hoje para desmontar um aldrabão: «isso é cantiga». Do trovador ao desconfiado, sem mudar uma letra.
Chávena
Recipiente pequeno com asa, para beber café ou chá.No Brasil é xícara. As duas vêm da mesma palavra, o chinês «chá-vun», e separaram-se pelo caminho: uma passou pelo malaio, a outra não.
Cromo
Figura colecionável de colar em caderneta; também pessoa de comportamento caricato.Da caderneta saltou para o insulto meigo: «és um cromo» diz-se a quem se destaca pelo lado errado, mas com um resto de ternura, porque um cromo, ao fim e ao cabo, é sempre uma peça de coleção.
Ecrã
Superfície onde se projeta ou exibe imagem; o visor de um aparelho.Do francês écran, afrancesado à portuguesa com o acento em cima. O Brasil foi buscar tela ao pano; nós fomos a Paris. Cada ex-império escolheu o seu estrangeiro de estimação.
Fiambre
Carne de porco cozida e prensada, fatiada, de comer frio.Em Portugal, o fiambre é rosa e vai nas sandes; presunto é outra coisa, curada e a sério. No Brasil, presunto cobre os dois, e o fiambre luso na padaria brasileira só traz confusão. A fronteira da língua passa pelo meio da tábua de frios.
Fixe
Bom, agradável, de que se gosta.É o «cool» português e é anterior ao cool americano andar por cá. Escreve-se fixe e não «fixé», que é erro corrente.
Freguesia
A menor divisão administrativa portuguesa; também a clientela habitual de uma loja.Vem de filius ecclesiae, filho da igreja: a freguesia era quem pertencia à paróquia. O país civil herdou o mapa do país religioso, e o comércio herdou a palavra, que um bom vendedor trata a freguesia como o padre tratava a dele.
Galão
Café com leite servido em copo de vidro alto.A medida é do copo, não da bebida: o mesmo café com mais leite em chávena já é outra coisa. A gramática do café português é toda assim, feita de recipientes, e o galão é o degrau de vidro entre a bica e o pequeno-almoço inteiro.
Giro
Bonito, agradável, simpático. Diz-se de uma pessoa, de uma roupa ou de uma ideia.Fora de Portugal, giro é uma volta ou um movimento circular, e mais nada. O sentido de bonito é nosso e não se explica: usa-se.
Imperial
Cerveja de pressão servida em copo fino, de vinte centilitros.Só em Lisboa e arredores; do Mondego para cima pede-se um fino, e qualquer das palavras denuncia logo de onde se é. Um país que precisa de duas palavras para vinte centilitros de cerveja leva o assunto a sério.
Malandrice
Esperteza usada para não trabalhar ou para levar vantagem sem se notar.Em Portugal a malandrice é defeito com meio sorriso, no Brasil a malandragem é quase filosofia. A mesma raiz deu dois países diferentes.
Matraquilhos
Jogo de mesa com bonecos em varões que jogam uma bola de futebol em miniatura.O Brasil chama-lhe pebolim ou totó; cá é matraquilhos, plural como a matraca que faz. Geração após geração aprende nos cafés a regra não escrita mais respeitada do jogo: rodar é proibido.
Miúdo
Criança. Como adjectivo, o que é pequeno ou de pouca importância.É a palavra corrente em Portugal para criança, ao lado de puto e de garoto. No Brasil «miúdo» quase só sobrevive no sentido de pequeno.
Passadeira
Faixa às riscas para peões atravessarem a rua; também tapete comprido e estreito.A palavra serve o asfalto e o corredor de casa, e ainda o cinema: a passadeira vermelha estende-se a quem chega importante. No Brasil atravessa-se na faixa; cá atravessa-se na passadeira, de preferência com o verde.
Pequeno-almoço
A primeira refeição do dia.O Brasil toma café da manhã, os franceses um petit déjeuner, e nós traduzimos os franceses com hífen e tudo. O curioso é um país de bica e meia torrada chamar almoço, ainda que pequeno, ao que quase nunca o é.
Praxe
Conjunto de tradições académicas de receção aos caloiros; por extensão, o costume estabelecido.Do latim praxis, mas com vida própria nas universidades portuguesas, com capas, cânticos e hierarquias próprias. Fora delas sobrevive na expressão «é de praxe», que é como quem diz: sempre se fez assim.
Propina
Taxa anual paga pelos estudantes do ensino superior.A armadilha luso-brasileira perfeita: no Brasil, propina é suborno. O que cá se paga à universidade, lá paga-se por debaixo da mesa, e a mesma palavra tanto matricula um aluno como compromete um político.
Rapariga
Mulher nova, moça.É a palavra mais perigosa desta lista. Em Portugal é neutra e diz-se a uma criança; no Brasil apanhou um sentido ofensivo que aqui não tem. Vale a pena saber antes de escrever para lá.
Rés-do-chão
Andar de um edifício ao nível da rua.No Brasil é térreo. O «rés» é o mesmo de «rasar»: rés do chão é rente ao chão.
Sandes
Pão com recheio; sanduíche.O inglês sandwich chegou, encolheu e ficou nosso: sandes, uma sílaba e meia, invariável no plural. No Brasil é sanduíche por extenso; cá até o lanche tem pressa.
Telemóvel
Telefone portátil ligado à rede móvel.No Brasil é celular, em Espanha móvil, em Inglaterra mobile. O telemóvel é português de Portugal e é a palavra que mais depressa denuncia de onde é quem escreve.

O significado de cada palavra segue a entrada do Priberam, dito por palavras nossas e não copiado. A nota que vem a seguir ao significado é a única parte que não é dicionário: diz porque é que a palavra está nesta lista.

Falta aqui uma palavra da tua terra? Diz-nos qual é.

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