Palavras nossas
Há palavras que não se traduzem sem uma frase inteira à volta, e há palavras que existem em toda a parte mas só aqui querem dizer aquilo. Estas são umas e outras, com o significado do dicionário e uma nota a explicar porque é que estão na lista.
45 palavras. Carrega numa letra para ver só as que começam por ela.
Sem tradução
Traduzem-se com uma frase e mesmo assim perde-se qualquer coisa pelo caminho.
- Abelhudo
- Quem se mete no que não é chamado e quer saber da vida dos outros.Vem de abelha, do zumbido à volta de quem está a falar. É primo do bisbilhoteiro, com mais intromissão e menos curiosidade.
- Aconchego
- Conforto que vem de estar bem instalado e protegido, e o gesto de dar esse conforto a alguém.O dinamarquês «hygge» ficou famoso a dizer quase isto. A diferença é que o aconchego é sempre dado por alguém ou por um sítio: aconchega-se uma criança, aconchega-se uma manta.
- Alfarrábio
- Livro velho, de pouco valor comercial e muito volume.Vem do nome do sábio árabe Al-Farabi, e é das palavras portuguesas com a origem mais improvável. Deu alfarrabista, que é quem os vende.
- Antemanhã
- O tempo que vai do fim da noite ao nascer do sol, antes de a manhã ser manhã.O inglês precisa de duas palavras («before dawn») e mesmo assim aponta ao momento e não à faixa de tempo. É palavra de poesia e ainda se usa fora dela.
- Cavaqueira
- Conversa longa e sem assunto sério, das que se têm por gosto de conversar.Não é «chat» nem «small talk»: essas são breves e servem para preencher. A cavaqueira demora, é o objectivo e não o intervalo.
- Chatice
- Coisa aborrecida ou incómoda, e o estado de espírito de quem a apanha.Serve para uma multa, para uma chuvada e para uma conversa que não acaba. É das palavras mais usadas do dia a dia português, e traduzi-la obriga a escolher: em inglês, «annoyance», «hassle» e «nuisance» cobrem cada uma um bocado do que ela diz, e nenhuma cobre o resto.
- Chico-esperto
- Pessoa que se julga mais esperta do que os outros e tenta levar vantagem em tudo.Tem irmão gémeo numa expressão deste site, armar-se em carapau de corrida, e nenhuma das duas se traduz sem perder o desprezo que trazem.
- Choninhas
- Pessoa medrosa, sem vontade própria, que se deixa levar.É insulto brando e antigo, do tipo que já quase não se ouve mas que toda a gente percebe. Não tem plural nem singular, é sempre choninhas.
- Comichão
- Sensação que dá vontade de coçar. Também se diz da vontade que não sossega.O inglês tem «itch» para as duas coisas, mas o português usa a segunda com mais liberdade: ter comichão para dizer uma coisa é estar quase a dizê-la.
- Convívio
- Encontro de pessoas que se conhecem, para comer e estar juntas sem outro fim.Existe em espanhol e em italiano, mas em Portugal ganhou um sentido concreto de acontecimento: marca-se um convívio, com data, comida e lista de quem vai.
- Coscuvilhice
- Bisbilhotice, conversa sobre a vida dos outros.Anda ao lado de mexerico e de bisbilhotice, e a diferença é de tom: a coscuvilhice é a mais miudinha das três, feita de pormenores sem importância.
- Desabafo
- Aquilo que se diz para tirar um peso de cima, sem esperar conselho nem solução.A palavra tem a imagem dentro dela: desabafar é tirar o abafo, destapar. Traduzir por «venting» dá o gesto e perde o alívio.
- Desassossego
- Estado de inquietação sem causa apontável, falta de sossego do corpo ou da cabeça.Existe em espanhol («desasosiego») e passou a ser palavra de exportação por causa do livro do Bernardo Soares. Traduzir por «restlessness» perde a raiz, que é o sossego a faltar, e não a agitação a mais.
- Desenrascanço
- Capacidade de resolver um problema à última hora, sem os meios próprios e com o que houver à mão.O inglês tem «improvise» e o francês «système D», mas nenhum guarda a ideia de sair de uma enrascada, que é o que a palavra tem lá dentro: quem se desenrasca estava enrascado.
- Enfarruscado
- Sujo de fuligem ou de carvão. Diz-se também de quem está com cara de poucos amigos.O salto do carvão para a cara zangada é o mesmo de «estar de trombas» e diz muito de como se falava numa casa com lareira.
- Estremunhado
- Acordado de repente e ainda meio a dormir, sem saber bem onde está.Não é sonolento, que é antes de adormecer. É o estado dos primeiros dez segundos depois de alguém nos acordar, e há uma palavra só para isso.
- Fado
- Destino, aquilo que está para acontecer e não se muda. É também o género de canção que se canta em Lisboa e em Coimbra.Vem do latim «fatum», destino, e é das poucas palavras que dá nome a um sentimento, a uma música e a uma maneira de olhar a vida ao mesmo tempo.
- Frescura
- Qualidade do que é fresco. Em Portugal usa-se sobretudo para uma exigência desnecessária ou um capricho.O segundo sentido é o vivo: «não faças frescuras» não tem nada que ver com temperatura. É o tipo de deslize que só se percebe a viver cá.
- Friorento
- Pessoa que sente frio com facilidade, mesmo quando os outros não sentem.Um adjectivo inteiro para uma característica que outras línguas descrevem com uma frase. Tem irmão em «calmeirão», que é o contrário e quase não se usa.
- Lambuzar
- Sujar com comida, sobretudo a cara e as mãos, e sobretudo de coisa doce ou pegajosa.É um verbo específico para um tipo de sujidade. Uma criança lambuzada não está simplesmente suja: está suja de gulodice.
- Madrugar
- Levantar-se muito cedo, antes de o dia começar para os outros.É um verbo inteiro para uma coisa que noutras línguas precisa de sujeito, verbo e complemento. Deu o provérbio, que é onde a palavra mora.
- Merendar
- Comer a merenda, a refeição ligeira do meio da tarde.A palavra sobreviveu melhor no campo do que na cidade, e com ela a refeição. Traduzida dá «afternoon snack», que é a mesma coisa sem a hora certa.
- Mexerico
- Conversa que passa adiante o que se ouviu sobre outra pessoa, muitas vezes com um bocadinho a mais.Mexericar é mexer, e a palavra guarda isso: quem mexerica anda a mexer no que era dos outros.
- Parolo
- Pessoa da província, sem trato de cidade. Diz-se também do que é de mau gosto.É palavra com juízo lá dentro, e injusto: nasceu do desprezo da cidade pelo campo. Fica aqui porque se usa, não porque se recomende.
- Petiscar
- Comer pouco e por gosto, provando um bocado de cada coisa.O espanhol tem «tapear» e o inglês desistiu («to snack» é outra coisa, é comer entre refeições). Petiscar não é ter fome, é ter vontade.
- Repimpado
- Instalado com todo o conforto, e satisfeito consigo por isso.Traz sempre um bocadinho de troça: quem está repimpado está bem de mais para quem o está a ver.
- Sarilho
- Complicação, problema em que alguém se meteu, muitas vezes por culpa própria.Vem do sarilho de enrolar fio, e a imagem explica o sentido: quem está num sarilho está enrolado. Meter-se em sarilhos é a forma que mais se usa.
- Saudade
- Sentimento de falta de alguém ou de alguma coisa que se teve e já não se tem, misturado com o gosto de a ter tido.É a palavra portuguesa mais citada como intraduzível, e a fama vem de juntar numa só a dor da ausência e o gosto da lembrança. Intraduzível é dizer de mais: o galego usa a mesma palavra, o romeno tem «dor» e o galês «hiraeth», e há linguistas que contestam a ideia de palavras sem equivalente. O que se pode dizer com segurança é que a tradução pede quase sempre uma frase onde o português usa uma palavra.
- Saudosismo
- Apego exagerado ao passado, sobretudo a um passado idealizado que talvez não tenha sido assim.Nasce de saudade e é criação portuguesa: começou como movimento literário no início do século XX e acabou como palavra do dia a dia para quem acha que antigamente é que era bom.
- Sebastianismo
- Crença na volta de D. Sebastião, e, por extensão, a espera de uma salvação que há de vir de fora e resolver tudo.Não há maneira de traduzir isto sem contar a história de Alcácer Quibir. É a única palavra da lista que é ao mesmo tempo um sentimento e um acontecimento datado.
- Sestear
- Dormir a sesta, descansar nas horas de mais calor.O verbo existe e quase ninguém se lembra dele, o que é pena: dizer que se vai sestear é mais elegante do que dizer que se vai deitar um bocadinho.
- Trapalhada
- Confusão feita por desajeitamento, coisa mal feita que dá trabalho a desfazer.Não é erro, que é neutro, nem asneira, que é mais grave. A trapalhada é sempre atrapalhada e quase sempre tem graça vista de fora.
- Trasanteontem
- O dia anterior a anteontem, isto é, há três dias.Poucas línguas têm palavra única para isto, e o português tem duas seguidas, anteontem e trasanteontem. Depois desta acaba-se a contagem e volta-se aos números.
Só cá se diz assim
Existem noutras variantes do português com outro nome, ou com outro sentido. São as que dizem de onde é quem fala.
- Autoclismo
- Mecanismo que despeja água na sanita.No Brasil chama-se descarga. A palavra portuguesa vem do grego, «auto» mais «klysma», que é lavagem, e é das poucas invenções eruditas para uma coisa tão pouco erudita.
- Bica
- Café curto, servido em chávena pequena. Em Lisboa é bica, no Porto é cimbalino.Pedir uma bica no Porto e um cimbalino em Lisboa dá sempre a mesma bebida e quase sempre um comentário à mistura.
- Bué
- Muito, uma grande quantidade.Entrou pelo quimbundo, língua de Angola, e chegou a Portugal com o regresso das famílias depois de 1975. É das poucas palavras de gíria com percurso documentado.
- Cacilheiro
- Barco que atravessa o Tejo entre Lisboa e a margem sul.O nome vem de Cacilhas, o destino, e ficou a valer para todos os barcos da travessia. É palavra local que entrou no dicionário.
- Chávena
- Recipiente pequeno com asa, para beber café ou chá.No Brasil é xícara. As duas vêm da mesma palavra, o chinês «chá-vun», e separaram-se pelo caminho: uma passou pelo malaio, a outra não.
- Fixe
- Bom, agradável, de que se gosta.É o «cool» português e é anterior ao cool americano andar por cá. Escreve-se fixe e não «fixé», que é erro corrente.
- Giro
- Bonito, agradável, simpático. Diz-se de uma pessoa, de uma roupa ou de uma ideia.Fora de Portugal, giro é uma volta ou um movimento circular, e mais nada. O sentido de bonito é nosso e não se explica: usa-se.
- Malandrice
- Esperteza usada para não trabalhar ou para levar vantagem sem se notar.Em Portugal a malandrice é defeito com meio sorriso, no Brasil a malandragem é quase filosofia. A mesma raiz deu dois países diferentes.
- Miúdo
- Criança. Como adjectivo, o que é pequeno ou de pouca importância.É a palavra corrente em Portugal para criança, ao lado de puto e de garoto. No Brasil «miúdo» quase só sobrevive no sentido de pequeno.
- Rapariga
- Mulher nova, moça.É a palavra mais perigosa desta lista. Em Portugal é neutra e diz-se a uma criança; no Brasil apanhou um sentido ofensivo que aqui não tem. Vale a pena saber antes de escrever para lá.
- Rés-do-chão
- Andar de um edifício ao nível da rua.No Brasil é térreo. O «rés» é o mesmo de «rasar»: rés do chão é rente ao chão.
- Telemóvel
- Telefone portátil ligado à rede móvel.No Brasil é celular, em Espanha móvil, em Inglaterra mobile. O telemóvel é português de Portugal e é a palavra que mais depressa denuncia de onde é quem escreve.
O significado de cada palavra segue a entrada do Priberam, dito por palavras nossas e não copiado. A nota que vem a seguir ao significado é a única parte que não é dicionário: diz porque é que a palavra está nesta lista.
Falta aqui uma palavra da tua terra? Diz-nos qual é.