Santo António, quando eras menino de tenra idade, já eras casamenteiro, casa-me por caridade.
Das mais cantadas na noite de 12 para 13 de junho.
As palavras para cada ocasião.
Quatro versos, sete sílabas, rima nos pares. É a forma mais antiga e mais teimosa da poesia portuguesa, e ainda é a que se canta nos arraiais e se escreve nos manjericos.
Esta página tem duas partes, e a divisão não é cosmética. Em cima estão as quadras que são do povo e não têm dono. Em baixo estão as que escrevemos nós, na mesma forma e com o mesmo registo, porque fazem falta a quem precisa de quatro versos hoje. Não vamos passar umas pelas outras.
46 quadras do património popular, sem autor conhecido, como se dizem e se cantam.
Santo António, quando eras menino de tenra idade, já eras casamenteiro, casa-me por caridade.
Das mais cantadas na noite de 12 para 13 de junho.
Ó meu Santo António, meu santo casamenteiro, casai-me depressa, que eu não tenho dinheiro.
Quadra antiga em redondilha menor, pedido feito ao santo diante do altar.
Todos me chamam bêbedo, bêbedo eu não sou, não; bebo só uma pinguinha nas festas do São João.
Canta-se à volta da fogueira, já com a noite adiantada.
Tu és alta e delgadinha, tal qual a cana do linho; teus cabelos são de ouro que me alumia o caminho.
Fórmula antiga de elogio, com muitas variantes de terra para terra.
Fui ao mar buscar laranjas, coisa que o mar não tem; vim do mar todo molhado das ondas que vão e vêm.
Cantiga de roda antiga, também cantada como quadra de namoro.
Ó ceifeiras, ó ceifeiras, que ceifais o trigo alheio, ceifai devagarinho, que o dia ainda vai a meio.
Cantiga de ceifa, para marcar o compasso do trabalho.
Ó minha sogra querida Ó minha sogra estimada Dê-me cá a sua filha Que eu não quero mais nada
Quadra popular de namoro e casamento.
A minha sogra é um cravo Meu sogro é um manjerico A filha é uma rosa Que eu trago sempre comigo
Quadra popular de Santo António.
Casadinha de oito dias Já me quero descasar O meu marido é mau Não o posso aturar
Quadra popular jocosa.
Casei com um velho rico Por causa do cabedal O velho já não podia E o cabedal era falso
Quadra popular jocosa.
Quem parte leva saudades Quem fica saudades tem Quem parte leva saudades De quem fica e quer bem
Muito corrente em quadras de despedida.
Tenho dentro do meu peito Duas escadas de vidro Por uma desce a saudade Por outra sobe o suspiro
Quadra popular de saudade.
Se os meus suspiros pudessem Ao pé de ti chegar Havias de ver, meu bem O que é por ti suspirar
Quadra popular amorosa.
Fui ao mar buscar laranjas Coisa que o mar não tem Fui perguntar às ondas Se viram o meu bem
Quadra popular de ausência.
Ó mar, ó mar, ó mar largo Ó mar largo sem ter fundo Mais vale andar no mar largo Que nas bocas de todo o mundo
Muito corrente no cancioneiro popular.
Se eu soubesse que voando Tu me vinhas abraçar Mandava fazer as asas Ao ferreiro do lugar
Quadra popular amorosa.
Ó rama, ó que linda rama Ó rama da oliveira O meu par é o mais lindo Que anda aqui na roda inteira
Cantiga de roda e baile.
Indo eu, indo eu A caminho de Viseu Encontrei o meu amor Ai Jesus, que lá vou eu
Cantiga tradicional.
Laurindinha, vem à janela Ver o teu amor passar Ele vai para a guerra Não sabe se há de voltar
Cantiga tradicional.
Minha mãe, case-me cedo Enquanto sou rapariga O milho sachado tarde Não dá palha nem espiga
Quadra popular de casamento.
Se os teus olhos me matassem Eu já morto estaria Mas como eles dão a vida Morro por eles um dia
Quadra popular.
O anel que tu me deste Era vidro e quebrou-se O amor que tu me tinhas Era pouco e acabou-se
Quadra popular muito corrente.
Ó rama, ó que linda rama Ó rama da oliveira O meu par é o mais lindo Que anda aqui na brincadeira
Cantiga de roda muito corrente.
Alecrim, alecrim aos molhos Por causa de ti choram Os meus olhos
Cantiga tradicional.
Ó mar largo, ó mar largo Ó mar largo sem ter fundo Mais vale andar no mar largo Que nas bocas de todo o mundo
Quadra popular muito corrente.
Ó mar largo, ó mar largo Ó mar largo sem ter fim Mais vale andar no mar largo Que dizerem mal de mim
Variante popular da quadra do mar largo.
Ó meu Menino Jesus Quem te pudera valer Deitado nessas palhinhas Com tanto frio a tremer
Natal
O Menino está dormindo Nas palhinhas despidinho Os anjos lhe estão cantando Por amor tão pobrezinho
Natal
Eu hei de dar ao Menino Uma fitinha prò chapéu Ele também me há de dar Um lugarzinho no céu
Natal
Eu hei de dar ao Menino Uma maçã camoesa Ele também me há de dar Um lugar à sua mesa
Natal
Entrai, pastores, entrai Por esse portal sagrado Vinde adorar o Menino Numas palhinhas deitado
Natal
Alegrem-se os céus e a terra Cantemos com alegria Já nasceu o Deus Menino Filho da Virgem Maria
Natal
Vamos, pastores, vamos A Belém ver o Menino Que nasceu naquela noite No portal do Deus divino
Natal
Ó meu Menino Jesus Ó meu amor pequenino Quem te fez a cama pobre De palhas no teu bercinho
Natal
O Menino está na neve A neve o está gelando São José e Nossa Senhora Com bafo o estão aquentando
Natal
Vinde, pastores, vinde Vinde todos a Belém Ver o Menino nascido Que a Senhora lá tem
Natal
Vimos cantar as Janeiras Por esses quintais além Vimos dar as boas festas E o ano novo também
Janeiras
Ó da casa, nobre gente Escutai e ouvireis Lá das bandas do Oriente São chegados os três Reis
Reis
Boas festas, boas festas Boas festas vimos dar Senhores desta morada Se as quiserem aceitar
Janeiras
Esta casa cheira a broa Aqui mora gente honrada Deus lhe dê muita saúde E dinheiro à cabazada
Janeiras
Esta casa cheira a vinho Aqui mora algum lavrador Deus lhe dê muita saúde E dinheiro em redor
Janeiras
Levante-se daí, senhora Desse seu banco dourado Venha-nos dar as Janeiras Que está frio e está geado
Janeiras
Levante-se daí, senhor Desse seu banco de pinho Venha-nos dar as Janeiras Ou um copinho de vinho
Janeiras
Senhora dona da casa Raminho de salsa crua Venha-nos dar as Janeiras Que está gente à sua rua
Janeiras
Se nos derem as Janeiras Deus lhes dê muita saúde Se no-las não quiserem dar Deus lhes dê a virtude
Janeiras
Já cantámos as Janeiras Já as vimos receber Vivam todos os senhores Até ao ano que vem
Janeiras
64 quadras nossas, feitas à maneira antiga. Não são do povo e não as damos por isso, mas servem para o mesmo: um postal, um manjerico, um recado.
Manjerico à minha porta, cravo de papel na mão; quem mo deu não disse nada, mas eu li-lhe o coração.
Para escrever na quadra que vai espetada no manjerico.
Levo o manjerico ao peito, a quadra vai lá metida; não a leias já com pressa, que é a coisa mais sentida.
No arraial desta rua há sardinha e há folia; quem entrou solteiro à noite sai prometido de dia.
De arraial, para cantar alto.
São Pedro tem uma chave, São João tem um cordão, Santo António tem as moças que lhe pedem coração.
Salta a fogueira comigo, não tenhas medo da brasa; quem salta a dois nesta noite há de acabar lá em casa.
Para a noite de São João, ao pé do lume.
O martelinho na testa, o alho-porro no ar; é assim que lá em Lisboa se começa a namorar.
Sardinha no pão saloio, com pimento e vinho tinto; já nem sei se isto é fome ou se é o que por ti sinto.
Santo António dá-me o par, São João dá-me a fogueira, e São Pedro fecha as festas com a sardinha derradeira.
Resume os três santos de junho pela ordem em que caem.
Vai a marcha na Avenida, leva o bairro todo atrás; canta comigo, menina, que esta noite não se faz.
Santo António, meu santinho, pus-te de cabeça ao chão; só te levanto do canto quando ele me der a mão.
Feita sobre o costume antigo de virar o santo até ele atender o pedido.
Convidaste-me a dançar, eu disse que sim, que sim; mas se a noite for comprida, não me deites culpa a mim.
Atrevida, do género que se canta em arraial.
Solta-se o balão à noite e vai levar meu desejo; se cair na tua rua, tu devolve-mo com um beijo.
Não há noite em todo o ano como a noite de São João: o rio cheio de barcos e a cidade em confusão.
O manjerico secou quando o verão foi embora; a quadra que ele trazia ficou comigo até agora.
Para quem guarda a quadra depois de a planta morrer.
São Pedro governa o mar na ponta de cada rede; dá-lhe uma sardinha assada e um copo, se tiver sede.
São Pedro é padroeiro dos pescadores, festejado a 29 de junho.
Dançaste com meio bairro e comigo nem um giro; guarda-me a última dança, pois é a única a que aspiro.
Acabou-se o arraial, ficou papel pelo chão; mas ficou também um nome escrito no meu balão.
Para o fim da festa, quando se apagam as luzes.
Tu tens olhos de quem parte e uma boca de quem fica; eu, coitado, fico à porta a ver qual deles me explica.
Não me jures nada agora, jura-me daqui a um ano; que promessa feita a quente vai sempre dar em engano.
Eu passei à tua janela, vinha a quadra na algibeira; mas a janela ia escura e trouxe-a de volta inteira.
Chamaste ao nosso amor sempre, mas o sempre teve um fim; não te guardo mágoa alguma, e guardo o que aprendi assim.
De desamor, para quem já não quer discutir.
Amor pedido não presta e amor que se dá é raro; eu não peço nem exijo, só espero, que isso é barato.
Tu tens um jeito de olhar que me arruma a casa toda; se me olhares outra vez, ponho a mesa para a boda.
Quem me viu a mim contigo não me conhece sozinho; mudei de rua e de horas e até mudei de caminho.
Não te quero para um dia, quero-te para os que vierem; que os amores de uma noite são como as flores que morrem.
Dei-te a chave lá de casa, deste-me a morada errada; esperei a noite à porta de uma casa abandonada.
De desamor, das que se dizem baixinho.
Se o amor fosse de vender, vendia-se cá na feira; mas o amor é de trocar e troca-se a vida inteira.
Dizem que o tempo é remédio, mas é um péssimo doutor: leva a mágoa devagar e leva junto o amor.
Amor à primeira vista vi eu muitos acabar; o meu foi da quinta vez e ainda hoje está a durar.
Perguntaste-me se te amo num recado de três linhas; e respondo em quatro versos, que as respostas são as minhas.
Guardo as tuas cartas todas num saco de linho cru; não as leio, não as rasgo, e já nem sei quem és tu.
Amaste-me de passagem, eu amei-te para ficar; ficou-me a casa arrumada e o teu lado por ocupar.
Amor de longe é amor, mas é sempre de papel; manda-me antes uma carta, que essa letra sabe a mel.
Casaste com quem te quis, eu fiquei com quem me deu; não foi bem o que eu sonhava, mas há muito que morreu.
Não me chames teu amor se me tratas por ninguém; chama-me antes pelo nome, que isso já me sabe bem.
Chega-te à frente, ó rapaz, e canta se fores capaz; que eu já cantei com melhores e mandei-os para trás.
Abre o despique: canta-se para chamar o adversário à roda.
Cheguei-me à frente, menina, e cá estou, não vou fugir; se me mandas para trás, é porque me queres seguir.
Resposta à quadra anterior.
Cantas alto, cantas muito, mas cantar não é gritar; tens a força do moinho e tens o vento a faltar.
Se me falta o vento agora, vem tu soprar para aqui; que a tua língua sozinha moía o trigo do país.
Resposta à quadra anterior.
Não sou de muitas palavras, sou de poucas e bem postas; tu gastaste cinco quadras para não dares respostas.
Gasto as quadras que quiser, que a noite é minha e é tua; se te cansas de me ouvir, tens a porta ali da rua.
Resposta à quadra anterior.
Dizem que cantas de cor, eu digo que cantas mal; de cor canta o papagaio e até ele vai ao quintal.
Papagaio serei eu, que repito o que aprendi; mas tu dizes o que inventas e ninguém aprende aí.
Resposta à quadra anterior.
Eu canto pela verdade, tu cantas pela vaidade; cantar por gosto é bonito, cantar por gabo é maldade.
Damos a noite por finda, que a garganta pede vinho; fica-te a última quadra e eu fico já com o caminho.
Fecha a desgarrada e manda a roda para a mesa.
Setembro põe-me na vinha com uma tesoura na mão; quem não vindima em setembro não bebe do que é bom, não.
A terra não pede muito, pede só quem lhe dê a mão; a quem a trata dá trigo, e a quem a deixar dá chão.
Fevereiro é mês curto, mas é mês de muito frio; quem tem lenha no palheiro esse não passa arrepio.
Agosto é mês de sol posto e de trabalho a dobrar; quem descansa em agosto em janeiro vai chorar.
Novembro traz a azeitona, e dezembro traz o lagar; que o azeite do meu monte não se vende, é para dar.
Deixei a aldeia com vinte, levei a mala e mais nada; voltei com o bolso cheio e a aldeia despovoada.
Quem trabalha ao pé do mar não conta o sol, conta as vagas; dorme com a maré lá em casa e acorda com as mãos em chagas.
O inverno tem uma coisa que o verão nunca há de ter: a família toda em roda de um lume ao anoitecer.
A primavera não bate, chega e põe tudo a mexer; a amendoeira é a primeira e a última a perceber.
Parabéns por este dia, que é teu e é de quem te quer; sopra as velas com vontade e pede o que te apetecer.
Para escrever num cartão ou dizer antes do bolo.
Mais um ano na bagagem, mais um risco na parede; que a vida te dê a fome e te dê também a sede.
Hoje é dia de dizer o que fica o ano inteiro: fazes falta a esta mesa, que és o lugar primeiro.
Levanto o copo e não bebo sem primeiro te dizer: que dure sempre esta mesa e haja gente para a encher.
Serve de brinde, de pé e de copo na mão.
Não te desejo riqueza, nem te desejo poder; desejo-te noites destas e amigos para as viver.
Os anos não são de perder, são de somar e guardar; e cada um que tu fazes é mais um para contar.
Não me contes os meus anos, conta antes as minhas festas; que os anos são todos iguais e as festas nunca são estas.
Boa para quem não gosta que lhe lembrem a idade.
Fazes anos, ficas grande, mas não cresças a correr; fica devagar, menino, que há muito para ver.
Para aniversário de criança.
Quem chega chega a horas, quem fica fica até ao fim; e quem canta esta quadra leva um abraço de mim.
Que a mesa nunca te falte, nem o pão, nem a companhia; faz os anos que quiseres, que eu cá venho nesse dia.