Fernando Pessoa
1888 a 1935 · obra em domínio público desde 2006

Fernando Pessoa (1888-1935) é o poeta que se multiplicou: além do que assinou com o próprio nome, escreveu como Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, cada um com vida, ideias e estilo próprios. Em vida publicou pouco em livro, quase só a Mensagem, em 1934; deixou uma arca com milhares de textos por publicar, entre eles o Livro do Desassossego, atribuído ao ajudante de guarda-livros Bernardo Soares. Trabalhou toda a vida como correspondente comercial em Lisboa. É hoje o nome maior da literatura portuguesa moderna, e a arca ainda não acabou de se abrir. A Mensagem, único livro português publicado em vida, ganhou o prémio Antero de Quental do Secretariado de Propaganda Nacional, num concurso a que os amigos o empurraram a concorrer. Na arca que deixou contaram-se mais de 27 mil papéis, e a edição da obra continua, noventa anos depois, por acabar. Aqui está com os poemas da Mensagem, os avisos do Bandarra e os castelos do brasão, na grafia de hoje com o original ao lado.
Poemas
- A Última Nau
- Affonso de Albuquerque
- Antemanhã
- António Vieira
- As Ilhas Afortunadas
- Ascensão de Vasco da Gama
- Calma
- D. Afonso Henriques
- D. Dinis
- D. Duarte Rei de Portugal
- D. Fernando Infante de Portugal
- D. Filipa de Lencastre
Frases
Cada uma diz de que obra saiu e em que capítulo.
Não voltou mais. A que ilha indescoberta Aportou?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro, Mas Sua luz projeta-o, sonho escuro E breve.
O céu estrela o azul e tem grandeza.
A madrugada irreal do Quinto Império Doira as margens do Tejo.
A madrugada do novo dia, Do novo dia sem acabar;
Faz mau o sono, triste o sonhar.
Não pensa em vida ou morte,
Três impérios do chão lhe a Sorte apanha. Criou-os como quem desdenha.
Que voz vem no som das ondas Que não é a voz do mar?
São ilhas afortunadas, São terras sem ter logar,
Cala a voz, e há só o mar.
Ilha próxima e remota, Que nos ouvidos persiste, Para a vista não existe.
Dá-nos o exemplo inteiro E a tua inteira força!
A benção como espada, A espada como benção!
Firme em minha tristeza, tal vivi.
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus.
Cumpri contra o Destino o meu dever. Inutilmente? Não, porque o cumpri.
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta.
É a voz da terra ansiando pelo mar.
Volve a nós teu rosto serio, Princesa do Santo Gral, Humano ventre do Império, Madrinha de Portugal!
Deu-me Deus o seu gladio, porque eu faça A sua santa guerra.
D. Fernando Infante de Portugal, de Fernando PessoaVerificada
Cheio de Deus, não temo o que virá, Pois, venha o que vier, nunca será Maior do que a minha alma.
D. Fernando Infante de Portugal, de Fernando PessoaVerificada
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita — O todo, ou o seu nada.
Braços cruzados, fita além do mar.
O limite da terra a dominar O mar que possa haver além da terra.
Seu formidável vulto solitário Enche de estar presente o mar e o céu,
Louco, sim, louco, porque quis grandeza Qual a Sorte a não dá.
Não me podia a Sorte dar guarida Por eu não ser dos seus.
Sem a loucura o que é o homem Mais que a besta sadia, Cadáver adiado que procria?
Fiel à palavra dada e à idéa tida. Tudo mais é com Deus!
O homem e a hora são um só Quando Deus faz e a história é feita.
O mais é carne, cujo pó A terra espreita.
As nações todas são mistérios. Cada uma é todo o mundo a sós.
Dê tua prece outro destino A quem fadou o instinto teu!
Que importa o areal e a morte e a desventura Se com Deus me guardei?
É o que eu me sonhei que eterno dura, É Esse que regressarei.
O mar é o mesmo: já ninguém o tema!
Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.
Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal!
Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu.
Ninguém sabe que coisa quer. Ninguém conhece que alma tem,
Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
No vale clareia uma fogueira. Uma dança sacode a terra inteira.
São os Titans, os filhos da Terra, Que dançam da morte do marinheiro
Ó mar anterior a nós, teus medos Tinham coral e praias e arvoredos.
Abria em flor o Longe, e o Sul siderio Splendia sobre as naus da iniciação.
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores; E, no desembarcar, há aves, flores, Onde era só, de longe a abstrata linha.
Ergue a luz da tua espada Para a estrada se ver!
Todo começo é involuntário. Deus é o agente.
«Que farei eu com esta espada?»
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
Vendem os Deuses o que dão.
Ai dos felizes, porque são Só o que passa!
A vida é breve, a alma é vasta: Ter é tardar.
Na Cruz morta do Mundo A Vida, que é a Rosa.
Na Cruz, que é o Destino, A Rosa, que é o Cristo.
Na Cruz morta e fatal A Rosa do Encoberto.
Obras usadas
- Mensagem (1934)
Mensagem, de Fernando Pessoa (Lisboa, Parceria Antonio Maria Pereira, 1934). Transcrição da Wikisource sobre o fac-símile da primeira edição, com a grafia do autor; páginas impressas lidas dos números de rodapé das provas.
Datas confirmadas na Wikidata: registo do autor. Ver a metodologia.