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Poema

O Mostrengo

Fernando Pessoa · Mensagem (1934), pp. 56-57

O mostrengo que está no fim do mar Na noite de breu ergueu-se a voar; À roda da nau voou três vezes, Voou três vezes a chiar, E disse, «Quem é que ousou entrar Nas minhas cavernas que não desvendo, Meus tetos negros do fim do mundo?» E o homem do leme disse, tremendo, «El-Rei D. João Segundo!» «De quem são as velas onde me roço? De quem as quilhas que vejo e ouço?» Disse o mostrengo, e rodou três vezes, Três vezes rodou imundo e grosso, «Quem vem poder o que só eu posso, Que moro onde nunca ninguém me visse E escorro os medos do mar sem fundo?» E o homem do leme tremeu, e disse, «El-Rei D. João Segundo!» Três vezes do leme as mãos ergueu Três vezes ao leme as reprendeu, E disse no fim de temer três vezes, «Aqui ao leme sou mais do que eu: Sou um Povo que quer o mar que é teu; E mais que o mostrengo, que me a alma teme E roda nas trevas do fim do mundo, Manda a vontade, que me ata ao leme, De El-Rei D. João Segundo!»

Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte

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Quarto poema da segunda parte da Mensagem, a parte do mar, O Mostrengo é a reescrita pessoana do episódio do gigante Adamastor, que no canto V de Os Lusíadas se ergue diante do Gama para guardar o cabo das Tormentas. Pessoa troca o gigante clássico por um bicho sem forma de balada popular, e troca o navegador com nome por um homem anónimo agarrado ao leme.

A forma é a de um romance para se dizer em voz alta: três estrofes de nove versos, construídas sobre o número três e a repetição («À roda da nau voou três vezes, / Voou três vezes a chiar»), cada uma fechada pela mesma resposta, «El-Rei D. João Segundo!». O medo entra pelo ritmo, como nas histórias contadas à lareira, e cresce de estrofe para estrofe sem que a resposta mude.

Mostrengo é a forma popular de monstrengo, a criatura disforme. O de Pessoa vive «no fim do mar», nos seus «tetos negros do fim do mundo», e gaba-se do ofício: «E escorro os medos do mar sem fundo». Mais do que um animal, é o próprio medo do desconhecido, o mar tenebroso dos mapas antigos posto a falar e a rodar à volta da nau.

A terceira estrofe é a chave. O homem não deixa de tremer («Três vezes do leme as mãos ergueu / Três vezes ao leme as reprendeu»): a coragem aqui não é a ausência de medo, é o que se faz com ele. E a resposta final alarga-se: «Aqui ao leme sou mais do que eu: / Sou um Povo que quer o mar que é teu». Quem vence o mostrengo não é um herói, é uma vontade coletiva com nome de rei, a de D. João II, o Príncipe Perfeito, em cujo reinado Bartolomeu Dias dobrou o cabo das Tormentas em 1488.

Na mesma parte do livro moram o Mar Português, que tem leitura própria nesta casa, e A Última Nau, que fecha o ciclo com outro rei a bordo. O texto segue a edição de 1934, com a grafia atualizada pela norma do arquivo; o original fica à vista no botão junto ao poema.

Revisão editorial de Rogério Junior · atualizada a 12 de outubro de 2026.

Frases tiradas deste poema

Estes versos andam a circular sozinhos. Aqui ficam com o poema inteiro por trás, e com a fonte à vista.

O mostrengo que está no fim do mar Na noite de breu ergueu-se a voar;

O Mostrengo, de Fernando PessoaVerificada

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