Ditos

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Poema

Quanto gratas me são as tuas letras

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Quanto gratas me são as tuas letras, Querida Alzira! Ao coração me fallas! As tuas expressões meigas occultam Em si virtude tal, que apenas lidas D′elas a alma se apossa sequiosa: Tu és, prezada amiga, único archivo Aonde os meus segredos mais occultos Eu vou depositar: em ti encontro O refrigerio a males, que tolero, Sem poder conhecer a sua origem. Se bem me lembro, outr′ora de ti mesma Ouvi eguaes queixumes, não sabendo Nem eu, nem tu, d′onde eles procediam. Uniu-te a sorte a Alcino, e venturosa Sempre te ouvi chamar desde esse tempo. Cessaram os teus males, eu os sinto... A edade é (dizes tu) a causa d′eles; Ah! Que extranha linguagem! Não concebo Porque fallas assim; pois traz a edade Males, nos tenros anos não provados? Tres lustres conto apenas: tu tres lustros Antes de te esposar também contavas; Poz o consorcio a teus lamentos termo, Limitará os meus? Ah! dize, dize Tu, que desassocego egual soffreste, O seu motivo, e como o apaziguaste; Revela á tua amiga este mistério D′onde sinto perder o meu repouso. Eu não exp′rimentava o que exp′rimento: Os meus sentidos todos alterados Uma viva emoção põe em desordem. Cala-me activo fogo nas entranhas: O coração no peito turbulento Pula, bate, com ânsia extranhamente: O sangue, pelas veias abrazado Parece que me queima as carnes todas: A taes agitações languidez terna Succede, que a meus olhos pranto arranca, E o coração desassombrar parece Do pezo da voraz melancholia. Té mesmo a natureza tem mudado A configuração, que eu d′antes tinha: Vão-se augmentando os peitos, e tomando Uma redonda forma, como aquelles Que servem de nutrir-nos lá na infancia. D ′outros signaes o corpo se matiza Antes desconhecidos: alvos membros, Lisos té′qui, macúla um brando pelo, Como o buço ao mancebo, á ave a penugem. Sobresalta-me d′homens a presença, Eles, a quem té agora indifferente Tenho com affouteza sempre olhado! Ao vêl-os o rubor me sobe ao rosto, A voz me treme, e articular não posso Sons, que emperrada a lingua não exprime. Sinto desejos, que expressar me custa; Amor... E como a idéa tal me arrojo? Será talvez amor isto que eu sinto? Já tenho lido efeitos de seus damnos; Mas esses, que o seu jugo supportaram,, Tinham com quem seu pezo repartissem, Tinham a quem chamavam doce objecto. Quem a seu mal remedio suggerisse, Isto era amor; mas eu amor não sinto: A doce inclinação, que dous amantes Um ao outro consagram, desconheço. Sim: dos homens a vista lisonjeira É para mim; nenhum porém me prende; Não sei se chamma interna me affogueia... Amor isto será? Alzira, falla, Falla com candidez á tua amiga; Ensina-me a curar a funda chaga, Que internamente lavra por mim toda. D′estas agitações, que me flagellam, Mostra-me a causa, mostra-me o remedio: Tu tiveste-as também, já não te avexam. Mostra-me por que modo as terminaste. Talvez do que te digo farás mofa... Ah! vê que por meus labios a innocencia Comtigo é quem se exprime; tem dó d′ela, E se os meus sentimentos são culpaveis, Dize-m′o, que abafados em meu peito Serei victima d′eles; se extinguil-os Os meus esforços todos não poderem, Comigo hão de morrer, findar comigo.

Grafia atualizada a partir da primeira edição.

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Frases tiradas deste poema

Estes versos andam a circular sozinhos. Aqui ficam com o poema inteiro por trás, que é o que quase nenhum site dá.

Quanto gratas me são as tuas letras, Querida Alzira! Ao coração me falas!

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