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Poema

Quanto gratas me são as tuas letras

Manuel Maria Barbosa du Bocage · Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas (1900), p. 63

Quanto gratas me são as tuas letras, Querida Alzira! Ao coração me falas! As tuas expressões meigas ocultam Em si virtude tal, que apenas lidas D′elas a alma se apossa sequiosa: Tu és, prezada amiga, único archivo Aonde os meus segredos mais ocultos Eu vou depositar: em ti encontro O refrigerio a males, que tolero, Sem poder conhecer a sua origem. Se bem me lembro, outr′ora de ti mesma Ouvi iguais queixumes, não sabendo Nem eu, nem tu, d′onde eles procediam. Uniu-te a sorte a Alcino, e venturosa Sempre te ouvi chamar desde esse tempo. Cessaram os teus males, eu os sinto... A edade é (dizes tu) a causa d′eles; Ah! Que extranha linguagem! Não concebo Porque falas assim; pois traz a edade Males, nos tenros anos não provados? Tres lustres conto apenas: tu tres lustros Antes de te esposar também contavas; Pôs o consorcio a teus lamentos termo, Limitará os meus? Ah! dize, dize Tu, que desassocego egual sofreste, O seu motivo, e como o apaziguaste; Revela à tua amiga este mistério D′onde sinto perder o meu repouso. Eu não exp′rimentava o que exp′rimento: Os meus sentidos todos alterados Uma viva emoção põe em desordem. Cala-me ativo fogo nas entranhas: O coração no peito turbulento Pula, bate, com ânsia extranhamente: O sangue, pelas veias abrazado Parece que me queima as carnes todas: A tais agitações languidez terna Sucede, que a meus olhos pranto arranca, E o coração desassombrar parece Do pezo da voraz melancholia. Té mesmo a natureza tem mudado A configuração, que eu d′antes tinha: Vão-se augmentando os peitos, e tomando Uma redonda forma, como aqueles Que servem de nutrir-nos lá na infancia. D ′outros sinais o corpo se matiza Antes desconhecidos: alvos membros, Lisos té′qui, macúla um brando pelo, Como o buço ao mancebo, à ave a penugem. Sobresalta-me d′homens a presença, Eles, a quem té agora indiferente Tenho com afouteza sempre olhado! Ao vêl-os o rubor me sobe ao rosto, A voz me treme, e articular não posso Sons, que emperrada a lingua não exprime. Sinto desejos, que expressar me custa; Amor... E como a idéa tal me arrojo? Será talvez amor isto que eu sinto? Já tenho lido efeitos de seus damnos; Mas esses, que o seu jugo suportaram,, Tinham com quem seu pezo repartissem, Tinham a quem chamavam doce objeto. Quem a seu mal remedio sugerisse, Isto era amor; mas eu amor não sinto: A doce inclinação, que dous amantes Um ao outro consagram, desconheço. Sim: dos homens a vista lisonjeira É para mim; nenhum porém me prende; Não sei se chama interna me afogueia... Amor isto será? Alzira, fala, Fala com candidez à tua amiga; Ensina-me a curar a funda chaga, Que internamente lavra por mim toda. D′estas agitações, que me flagelam, Mostra-me a causa, mostra-me o remedio: Tu tiveste-as também, já não te avexam. Mostra-me por que modo as terminaste. Talvez do que te digo farás mofa... Ah! vê que por meus labios a inocência Contigo é quem se exprime; tem dó d′ela, E se os meus sentimentos são culpaveis, Dize-m′o, que abafados em meu peito Serei vítima d′eles; se extinguil-os Os meus esforços todos não poderem, Comigo hão de morrer, findar comigo.

Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte

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Quanto gratas me são as tuas letras, Querida Alzira! Ao coração me falas!

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