Fragmento de Algeu
Manuel Maria Barbosa du Bocage · Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas (1900), p. 44
Imaginas, meu bem, supões, oh Lilia,
Que os benéficos céos, os céos piedosos
Exigem nossos ais, nossos suspiros
Em vez de adorações, em vez d′incenso3?
Crédula, branda amiga, é falso, é falso:
Longe a cega ilusão. Se ambos sumidos
Em solitário bosque, e misturando
Doces requebros c′os murmúrios doces
Dos transparentes, gárrulos arroios,
Sempre me ouvisses, sempre me dissesses
Que és minha, que sou teu; que mal, que oíTensa
Nosso inocente amor faria aos Numes?
Se acaso reclinando-te comigo
Sobre viçoso tálamo de flores,
Turvasse nos teus olhos carinhosos
Suave languidez a luz suave;
Se os doces labios teus entre meus labios
Fervendo, grata Lilia, me espargissem
Vivissimo calor nas fibras todas;
Se pelo excesso de inefáveis gostos
Morressemos, meu bem, d’uma só morte;
E se Amor outra vez nos desse a vida
Para expirar de novo: em que pecara,
Em que afrontára aos céos prazer tão puro?
A voz do coração não tece enganos,
Não é réo quem te segue, oh Natureza:
Esse Jove, esse deus, que os homens pintam
Suberbo, vingador, cruel, terrivel;
Em perpetuas delicias engolfado,
Submerso em perenal tranquilidade
Com as ações humanas não se emb’raça:
Fictos seus olhos no universo todo,
Em todos os mortais, n’um só não param:
As vozes da razão profiro, oh Lilia!
É lei o amor, necessidade o gosto:
Viver na insipidez é erro, é crime,
Quando amigo prazer se nos franquêa.
Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte
Frases tiradas deste poema
Estes versos andam a circular sozinhos. Aqui ficam com o poema inteiro por trás, e com a fonte à vista.
Crédula, branda amiga, é falso, é falso: Longe a cega ilusão.
Fragmento de Algeu, de Manuel Maria Barbosa du BocageVerificada
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