Fragmento de Algeu
Manuel Maria Barbosa du Bocage
Imaginas, meu bem, suppões, oh Lilia,
Que os benéficos céos, os céos piedosos
Exigem nossos ais, nossos suspiros
Em vez de adorações, em vez d′incenso3?
Crédula, branda amiga, é falso, é falso:
Longe a cega illusão. Se ambos sumidos
Em solitário bosque, e misturando
Doces requebros c′os murmúrios doces
Dos transparentes, gárrulos arroios,
Sempre me ouvisses, sempre me dissesses
Que és minha, que sou teu; que mal, que oíTensa
Nosso innoeente amor faria aos Numes?
Se acaso reclinando-te commigo
Sobre viçoso thalamo de flores,
Turvasse nos teus olhos carinhosos
Suave languidez a luz suave;
Se os doces labios teus entre meus labios
Fervendo, grata Lilia, me espargissem
Vivissimo calor nas fibras todas;
Se pelo excesso de ineffaveis gostos
Morressemos, meu bem, d’uma só morte;
E se Amor outra vez nos desse a vida
Para expirar de novo: em que peccára,
Em que afrontára aos céos prazer tão puro?
A voz do coração não tece enganos,
Não é réo quem te segue, oh Natureza:
Esse Jove, esse deus, que os homens pintam
Suberbo, vingador, cruel, terrivel;
Em perpetuas delicias engolphado,
Submerso em perennal tranquillidade
Com as acções humanas não se emb’raça:
Fictos seus olhos no universo todo,
Em todos os mortaes, n’um só não param:
As vozes da razão profiro, oh Lilia!
É lei o amor, necessidade o gosto:
Viver na insipidez é erro, é crime,
Quando amigo prazer se nos franquêa.
Grafia atualizada a partir da primeira edição.
Frases tiradas deste poema
Estes versos andam a circular sozinhos. Aqui ficam com o poema inteiro por trás, que é o que quase nenhum site dá.
Crédula, branda amiga, é falso, é falso: Longe a cega ilusão.
Fragmento de Algeu, de Manuel Maria Barbosa du BocageVerificada
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