Manuel Maria Barbosa du Bocage · Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas (1900)
Pavorosa ilusão da Eternidade,
Terror dos vivos, carcere dos mortos;
D’almas vãs sonho vão, chamado inferno;
Systema da politica opressora,
Freio, que a mão dos despotas, dos bonzos
Forjou para a boçal credulidade:
Dogma funesto, que o remorso arreigas
Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas:
Dogma funesto, detestavel crença,
Que envenenas delicias inocentes!
Tais como aquelas que no céo se fingem:
Furias, Cerastes, Dragos, Centimanos,
Perpetua escuridão, perpetua chama,
Incompativeis produções do engano,
Do sempiterno horror horrivel quadro,
(Só terrivel aos olhos da ignorancia)
Não, não me assombram tuas negras cores,
Dos homens o pincel, e a mão conheço:
Trema de ouvir sacrilego ameaço
Quem d’um Deus quando quer faz um tirano:
Trema a superstição; lágrimas, preces,
Votos, suspiros arquejando espalhe,
Coza as faces co’a terra, os peitos fira,
Vergonhosa piedade, inutil venia
Espere ás plantas de impostor sagrado,
Que ora os infernos abre, ora os ferrolha:
Que ás leis, que as propensões da natureza
Eternas, imutáveis, necessarias,
Chama espantosos, voluntarios crimes;
Que as ávidas paixões, que em si fomenta,
Abhorrece nos mais, nos mais fulmina:
Que molesto jejum, roaz cilicio
Com despotica voz à carne arbitra,
E, nos ares lançando a futil benção,
Vai do grantribunal desenfadar-se
Em sordido prazer, venais delicias,
Escandalo de Amor, que dá, não vende.
Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte
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Frases tiradas deste poema
Estes versos andam a circular sozinhos. Aqui ficam com o poema inteiro por trás, e com a fonte à vista.
Pavorosa ilusão da Eternidade,
Terror dos vivos, carcere dos mortos;
Epistola a Marilia, de Manuel Maria Barbosa du BocageVerificada