Manuel Maria Barbosa du Bocage · Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas (1900), p. 67
Com que satisfação, com que alegria
Vejo da minha Olinda as ternas letras!
Retrato da inocência, me afiguras
O que por mim passou, extranho efeito
De um coração sensivel, não manchado
Ainda pela mão da iniquidade.
Fala, não temas exprimir-te, Olinda,
Que se culpavel fores de outrem aos olhos,
Aos meus és inocente, e assim te julgo.
Da inviolavel lei da Natureza
A que sujeita estás, bem como tudo,
Nascem, querida amiga, os teus transportes:
Só provém d′ela, é ela que t′os causa;
Ela os mitigará em tempo breve,
Dando-te próvida um remedio ativo.
A triste educação, que ambas tivemos,
Mais desenvolve os ternos sentimentos
Dos que amar só procuram, e não podem
Na solidão senão atormentar-se.
Do recato das filhas temerosos
Pensam os rudes pais, que em sopeal-as
Alcançam extinguir o voraz fogo
Que sopra a Natureza, e que ela atêa.
Nescios, de amor lhe formam atentados,
Que o coração desmente, e que não pode
Saber justificar a razão mesma.
Benignas emoções chamam flagicios,
Que infernais penas castigar costumam:
Sem que atinem o modo por que devam
Tornal-as puras, e do crime alheias,
Porque do crime o amor não diff′renceam,
Amor e crime o mesmo lhes figuram.
Ah! que de um pae o emprego não tolera
Maximas impostoras, vis idéas
Que religião não sofre, e que forcejam
Para c′oa religião auctorisal-as.
Saiba-se pois té onde o culto, a honra
De um Deus se estende, e quais limites devem
Marcar-se ás impressões da natureza:
Em vez de aferrolhar as tristes filhas,
Busquem mostrar-lhes da virtude a senda,
Do vicio a estrada com desvelo atento.
Pois que impureza e amor um rumo seguem
Consiste o mal ou o bem na escolha d′este.
Sim, cara Olinda: como tu, eu própria
Falta da sociedade, porque n′ela
Viam meus pais o escolho da inocência,
As mesmas emoções senti outr′ora;
Nos ternos anos teus então zombavas
Do que nem mesmo decifrar podias.
Quantas vezes meu coração ás claras
Te descobri, querida; e quantas vezes
O meu desassocego não provando,
Rias dos sentimentos, que em minh′alma
Entranhados estavam, sem que a causa
D′eles jámais me fosse conhecida?
Agora os exp′rimentas, crês agora
O que falso julgaras, verdadeiro!...
A Natureza em ti o germen lança,
Que a ajudal-a te incita: Amor te inflama,
Porque sensivel és; e bem que hesites
Sobre o objeto, que deve contentar-te,
Ela t′o mostrará em tempo breve.
Não te assustem do seu dominio as forças,
Porque do jugo seu o pezo é leve.
Não mais sofres férvidos desejos,
Que o coração te ancêam, e bem podem
A languidez eterna vitimar-te,
Se de amor o remedio os não sacia.
Atenta sobre mil louçãos mancebos,
Cheios de encantos: olha-os indulgente,
E d′entre eles escolhe um, cujo peito
Tão docil como o teu seja formado.
Olinda, ama; conhece que delicias
Amor encerra, amor, alma de tudo;
Amor, que tudo alenta, e que só causa
Os gostos de uma vida abreviada.
Se contra amor ditames escutaste,
Que seus efeitos pintam horrorosos.
Não dês credito a maximas fingidas,
Que a lingua exprime, e o coração reprova:
Que mal provém aos homens, de que unidos
Dous amantes se jurem fé, constancia?
Que um ao outro se entreguem, e obedeçam
Da Natureza ás impressões sagradas?
Rouba a virtude acaso a paixão doce
Que beijos mil só farta, e que só pôde
Nos braços de um amante saciar-se?...
Não, amor a virtude fortifica:
Mais a piedade sobre as desventuras
Que os outros sofrem, mais a humanidade
Em nós se augmenta, quando mais amamos.
Se desde o berço em nós força indizivel
Sentimentos de amor vai radicando;
Se, mal balbuciamos, quanto vêmos
A falarmos de amor nos estimula;
Se a edade vai crescendo, e a natureza
Nossas feições altera, assignalando
Com marcas bem sensiveis, que chegamos
Ao prazo, em que é lei sua amar por força,
Ou desnegar então nossa existencia:
Se tudo a amar convida, e nos impele,
Quem ousa amor chamar crime execrando?....
Ah! deixa, Olinda, deixa que alardêem
Virtude austera hypocritas infames:
Sabe que, em quanto amor horrivel pintam,
Em quanto aos olhos teus assim o afeiam,
De uma amante venal nos torpes braços
Vão esconder transportes, que os devoram,
E, por castigo seu, somente gosam
Emprestadas caricias, vis afagos.
Mas quando assim os homens dissimulam,
Para dissimulares te dão direito:
Finge, como eles; ama e lh′o disfarça;
Que é mais um gosto amar ás escondidas.
Afeta, embora, afeta sisudeza
Já que afetar te obrigam, e em segredo
De instantes enfadonhos te indemnisa;
Zomba dos seus ardis, e estratagemas:
Dize, entre os braços de um amante charo,
Que mais credulos são, do que te julgam,
Se creem nos laços seus aprisionar-te.
Se os deleites de amor são só delitos
Quando sabidos são, com véo mui denso
A perspicazes olhos os encobre:
Vinga-te d′esses, que abafar procuram
As doces emoções, que n′alma sentes.
São estes os conselhos de uma amiga
Que os bens te anhela, que ela saborêa,
Sabe, por fim, que quanto mais retardas
Tão ditosos momentos, sem gozal-os;
Quanto mais tempo perdes ociosa
Sem ás vozes de amor ser resignada,
Tanto mais tempo tens de lastimar-te.
Por não têl-o em amar aproveitado.
Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte
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Frases tiradas deste poema
Estes versos andam a circular sozinhos. Aqui ficam com o poema inteiro por trás, e com a fonte à vista.
Fala, não temas exprimir-te, Olinda,
Com que satisfação, com que alegria, de Manuel Maria Barbosa du BocageVerificada