Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

Alzira, sou feliz!

Manuel Maria Barbosa du Bocage · Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas (1900), p. 71

Alzira, sou feliz!... Quanto te devo!... Das tuas instruções é tal o fruto. Quanto encarava em torno era a meus olhos De lúgubres idéas feio quadro: Tudo o vejo agora alegres, vivas, Imagens prazenteiras, me suscita. Os ternos sentimentos, que provava, Mil vezes combinado com ditames Que desde a infancia sempre m′inspiraram: Mil vezes refletia que dos homens, Ou de um tirano Deus era ludibrio: Conceber não podia que existisse Para experimentar continua luta Entre impressões da própria natureza, E princípios chamados da virtude. No pélago de embates tão terriveis Flutuando implorei o teu auxilio; Meu coração te abri: e tu leste n′ele O que eu nem mesma deslindar sabia. Tu me ensinaste a ver quanto fingidos Os homens são, nas vozes, e nos gestos: Rasgaste aos olhos meus mascara infame Com que teem de uso todos encobrir-se; Das bordas me salvaste de um abysmo, Onde a infeliz Olinda ia arrojar-se. Perdoa, Deus imenso! Eu blasfemava Contra a tua justiça; eu te supunha Autor do mal, que os homens machinavam: Cria-te inconsequente e despiedado, Pois sentimentos me imprimiras n′alma Que ás tuas leis contrarias me pintavam!... Tu foste, Alzira, foste a que lançaste Um brilhante clarão ante os meus passos... Finalmente apr′endi que a singeleza Do mundo era banida, e o seu império Os homens tinham dado à hypocrisia, Ruins!... Amor por crime afiguraram, E nem um só de amor vivia isento!... Para eles não é crime um crime oculto, Porque a simulação reina em sua alma, Porque o remorso abafam era seu peito. Amor um crime!... Os gostos mais completos, E os mais puros deleites o acompanham: Se a ventura maior se une ao delito, Quem há que se não diga delinquente? D′entre as delicias que gosei, querida, Com as tuas lições fugiu o crime. Eu não senti no coração bradar-me A voz d′esse pezar, sequaz da culpa: No meio dos prazeres, que gostava, Graças rendi a um Deus que m′os concede: Se ele troveja sobre os criminosos, Nunca os seus raios menos me assustaram!... Um amante acabou o que encetaste: Ele cujo olhar meigo me assegura As doces qualidades, que o adornam, Afastou-me do espirito receios. Que de mau grado combatia ainda. Reinava em seus discursos a franqueza, E o fogo que brilhava nos seus olhos. Que o rosto lhe incendia, em seus transportes Que eram nascidos d′alma, me dizia: O labéo da impostura o não denigre; Não é como o dos outros seu carácter; Ingenuo, afável, ah! prezada Alzira! Se tão amavel é o teu Alcino, Ninguém como eu e tu é tão ditoso!... Pouco preciso foi para vencer-me: Não teve que impugnar loucos caprichos, Com que ufanas amantes dificultam O mutuo galardão, que amor exige: Se amor ambos int'ressa, e ambos colhemos Seus mimosos favores, porque causa Havia de indiff'rença dar indicios. Quando o meu peito, ancioso, palpitava? Se eu o levava da ventura ao cume. Não me dava ele a mão para seguil-o? Sim; nos seus braços me arrojei sem custo E se o pudor as faces me tingia, Inda as chamas d′amor mais me abrazavam. Eu nadava em desejos indisiveis; E quantos beijos recebia, tantos Cheios de igual fervor lhe compensava: Seus labios inflamados ateavam As doces labaredas, em que ardia; E meus labios, aos labios seus unidos, Sensações recebiam deleitosas. Que me filtravam pelo corpo todo... Tão grandes emoções exp′rimentava, Que a tanto gosto eu mesma sucumbia! Preza a voz na garganta, não sabendo Nem já podendo articular palavra, Respirando anciada, e com vehemencia, Os meus sentidos todos confundidos, Sem nada ouvir, nem ver, apenas dando Sinais de vida, de prazer morria. Exceto o meu amante, em tais momentos Longe da idéa tinha o mundo inteiro: O mundo inteiro então forças não tinha Para do meu amante desprender-me. Debalde ante meus passos furibundo Monstro espantoso vira: em vão lançára Do aberto seio a terra ondas de fogo; Em vão coriscos mil o céo vibrára; Dos braços do amante em tais momentos Nada, nada podia arrebatar-me. Oh quem podera, Alzira, descrever-te Que extasi divinal veio pôr termo A tais instantes de suaves gostos!... Isto pôde sentir-se, e não dizer-se... Agora, e só agora me parece Que começo a existir: reproduziu-se Uma total mudança na minha alma. O mundo para mim já tem encantos; Sob outras cores vejo mil objetos, Que a fantasia me pintam tristonhos: Propicio Amor abriu-me os seus tesouros, A Natureza seus tesouros me abre: Tudo te devo, amiga; em todo o tempo A teus doces conselhos serei grata: Oxalá ditas tantas saboreies Quantas por ti, queiida, eu própria góso! Oxalá sintas com Alcino os gostos. Que exp′rimento, de um amante ao lado! Nem ventura maior posso augurar-te, Porque maior ventura haver não pode.

Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte

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Frases tiradas deste poema

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Alzira, sou feliz!... Quanto te devo!...

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