A temerosa Olinda é quem me escreve
Manuel Maria Barbosa du Bocage · Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas (1900), p. 76
A temerosa Olinda é quem me escreve?
É este o seu pudor, sua inocência?
Ah! Que as minhas lições tão bem aceitas,
Dão-me a ver que a discipula inexperta
Há de em breve ensinar a própria mestra.
Olinda não sabia o que excitava
Dentro em seu coração ternos impulsos.
Que tanto a angustiavam... Não sabia
Qual d′extranha mudanças em suas formas.
Em seus membros gentis a causa fosse!
A voluptuosa Olinda, devorada
Do mais ativo fogo, ingenuamente
Consulta a sua amiga, e a um leve aceno
Corre a engolfar-se na amorosa lida.
Basta um momento a transtornal-a toda!
E porque de tão prospero sucesso
Pretendes tu, querida, dar-me a glória?
Não, não fui eu: somente a natureza
Sabe fazer tão subitos prodigios:
Como depressa ao mal, que te inquietava,
Próvida sugeriu remedio ativo!
Como de uma boçal, incauta virgem
Uma amante formou tão extremosa!
A agradavel pintura, que bosquejas,
Dos férvidos transportes, que sentiste
Entre os braços do amante afortunado,
Não é, querida Olinda, tão sincera,
Como sincera foi a que traçaste
De ignotas emoções a Amor sujeitas.
Já não te exprimes com egual candura:
Filha da reflexão nova linguagem,
Por artificio mascarada em letras,
Vejo, que anunciar-me antes procura
Após do que se há feito o que se pensa,
Do que por gradações d′ação o int′resse
Pouco a pouco esmiuçar, dar-me a ver todo.
Rasga o pudico véo, com que debalde
Aos olhos de uma amiga esconder buscas
Voluptuosas traças, que transluzem
Nas tuas expressões; quando inocente
Menos recato n′elas inculcavas,
Eu lia com prazer dentro em tua alma
Os sentimentos, que a afetavam todos.
Tenho direito agora a exigir-te
A ingénua confissão d′esses momentos
Preludios do prazer, em que te engolfas.
Quero saber porque impensados lances
D′um amante nos braços te arrojaste;
Como o pudor fugiu, e o que sentiste
Quando abrazada em férvidos desejos
Misturados com dor indefinivel.
De amor colhestes atónita as primicias,
E provaste entre gostos e agonias
O que uma vez, não mais, pode provar-se;
Tens um amante; eu sou a tua amiga;
Ele te dá prazer, d′ela o confia:
Gasta os momentos, que gozar não podes,
Do gozo em recordar puras delicias:
Nem todo o tempo a amor pode ser dado.
A mór ventura, que o mortal encontra,
Seja embora infeliz, ou desgraçado,
É lembrar-se que foi já venturoso;
E o não desesperar de sel-o ainda,
Um termo aos males seus põe muitas vezes.
Alzira foi do teu prazer motora,
A gratidão te obriga a dar-lhe a paga.
É nobre o meu int'resse, e não mesquinho;
Pago-me d′escutar as tuas ditas,
E cedendo a meus rogos falso pejo.
Saiba eu teus momentos deleitosos.
Mas vê que o sacrifício, que te peço,
Eu própria generosa abro primeiro:
Primeiro eu quero timidos receios
Calcar aos olhos teus; entra em mim mesma,
Vê como reina Amor dentro em minh′alma!
Como só ele faz meus gostos todos!
Chamem embora apáticos estoicos
Ardores sensuais os que me inflamam:
Chamem-me torpe, chamem-me impudica;
Tais vilipendios valem o que eu góso:
Venha a rançosa, vã teologia
Crimes fingir, crear eternos fogos,
Eu desafio os seus sequazes todos,
Eu desafio o Deus, que eles trovejam!...
Nos mais puros deleites embebida,
Bem os posso arrostar, posso aterral-os!
Não estremeças, não, amada Olinda;
Longe do Fanatismo a turma odiosa,
Que infames leis, infames prejuisos,
Quais cabeças fatais d′hydra indomavel
Para o mundo assolar tem rebentado:
Não há para os christãos um Deus diferente
Do que os gentios teem, e os musulmanos:
Dogmas de bonzos são condignos filhos
Da fraude vil, da estupida ignorancia,
Da opressora politica produtos.
O que Razão desnega, não existe:
Se existe um Deus, a Natureza o oferece:
Tudo o que é contra ela, é offendel-o.
A solida moral não necessita
De apoios vãos: seu trono assenta em bases
Que firmam a Razão, e a Natureza.
Outra vez eu farei que estes ditames
Com seguros principios sustentados,
Destruam tua credula impericia;
Abafando ilusões, que desde a infancia
Te lançaram na mente inculta e frouxa,
Que Furias tem, que tem Dragões e Larvas,
Para os gostos da vida atassalhar-te.
Para a remorsos vis dar existencia.
Por ora segue o culto, que te apontam
As emoções da própria Natureza:
Sê religiosa e Qi-me em pratical-as.
O meu Alcino, a quem eu devo tudo,
N′um momento desfez o que em tres lustros
Nescios pães procuraram suggerir-me.
Por habito adotei de uns a doutrina,
Por gosto d′outro as maximas sem custo
Dentro em meu terno peito radicaram.
Tu sabes, minha Olinda, quão perplexa
Minha alma balançava entre os combates:
Que a rude educação, que recebera,
Dentro em mim mesma opunha sentimentos
Cujo extranho poder toda me enleava.
Foi n′este estado de incerteza, e inercia,
Que Alcino desposei: oculta força
Me impelia a adoral-o: não sabendo
De deleites que fonte inexhaurivel
Se ia abrir para mim entre seus braços.
Do dia nupcial todo o aparato
Olhava como um sonho!... É impossível
A estupidez, o pasmo em que me via
Traçar aos olhos teus; lembra-me apenas
A inquietação d′ Alcino em todo o dia,
E a avidez de prazer, em que enlevado,
Terminado o festim, já n′alta noute
Ao trono nupcial foi conduzir-me.
Ficamos sós: eu timida, agitada,
Em sossobro cruel (qual branda pomba.
Que ao tiro assustador voa e revôa.
Aqui, e ali mal pousa, se levanta
Sem guarida encontrar, que ao p′rigo a salve)
Palpitava, tremia, e de meus olhos
Corria em fio inexpontaneo pranto.
Eu sentia no rosto, e em todo o corpo
Espalhar-se o rubor, que gera o sangue,
Pelo fogo, que toda me abrazava.
Não sei que meigos termos n′este tempo
Soltava Alcino; eu nada percebia;
Porém vi que a meus pés, banhado em gosto,
Chorando de prazer, súplices votos,
Ardentes expressões balbuciava:
Pelo meio do corpo com seus braços
Cingindo-me ancioso, sobre o leito
Me foi em fim lançar. Quando eu ardia
Em chamas de pudor, o mesmo incendio
Davam a Alcino sôfregos transportes:
Suas trementes mãos me despojavam
Dos nupciais ornatos, e seus beijos
Convulsivos esforços, que lhe opunha,
Pagavam com furor; suas caricias
Amiudando afouto, e temerario.
Irosa quiz mostrar-me; mas os fogos
Que o pejo tinha aceso, então tomando
Mais ativo calor, porém mais doce;
Minhas repulsas, de ternura cheias,
A maiores arrojos o excitaram;
Menos timido, quanto eu mais irada,
Meus olhos, minhas faces, e meu seio
Beijava Alcino: Eu languida fitando
N′ele amorosas vistas, reclinei-me
Sem resistir-Ihe mais, sobre o seu colo:
Importunos vestidos, que estorvavam
Seus inflamados beiços de tocarem
Óculos atrativos... longe arroja.
Então aos olhos seus (tu bem o sabes,
Quando outr′ora passavamos unidas
Em inocentes brincos... feliz tempo!)
Meus peitos, cuja alvura terminavam
Preciosos rubis, patentes foram.
Ao voluptuoso tato palpitante
Mais, e mais se arrijaram, de maneira
Que os labios não podiam comprimil-os.
Meus braços nus, meu colo, eu toda estava
Coberta de sinais de ardentes beijos.
Os leves trajos, que ainda conservava.
Em vão eu quiz suster: rapido impulso
Guiava Alcino: d′Hercules as forças
Ali vencêra... As minhas que fariam?
Co′as forças o pudor desfalecido
Deixei fartar seus olhos, e seus gestos.
«Que lindos membros!... Que divinais formas!...
(De quando em quando extatico dizia)
«Ah! que mimosos pés!... Oh céo!... que encantos!...
Que graças aparecem espalhadas!
Que tesouros de amor sobre estas bases!...
Oh que prazer! que vistas deleitosas!...
Alzira, eu vejo em ti uma deidade!
Deixa imprimir meus osculos aonde
Entre fios subtis se esconde o nacar!...
Deixa esgotar a fonte das delicias!...
Ah! deixa-me expirar aqui de gosto!...
Não mais rubor, Alzira, não mais pejo!...»
Eram brazas, que as carnes me queimavam,
Seus dedos, os seus beiços, sua lingua!
Sim; sua lingua, bem como um corisco,
Abriu rapida entrada, onde engolfadas
Todas as sensações lutavam juntas:
Pela primeira vez dentro em mim mesma
Senti gerar-se subita mudança,
Com que de envolta mil deleites vinham.
Comunicou-me sua raiva Alcino,
E na lasciva ação, que proseguia,
Tal int'resse me fez tomar, que eu própria
A seus intentos me prestei de todo.
Entre incessantes gostos doces gotas
Brotavam sobre os toques impudicos:
Mas quando, ao crebo impulso, extasiada
Cheguei ao cume do prazer celeste,
Ardente emanação de intimos membros,
Que eletrizavam fogos insofríveis.
Inundou o instrumento das delicias.
Como se ao crime seu vibrassem pena.
Ou antes dessem premio: afadigado
Na maior languidez, quasi em deliquio,
Alcino veio ao meu unir seu rosto.
N′este instante, eu não sei que desejava;
Sei que o primeiro ensaio dos prazeres
Em vez de sufocar ativas chamas,
Centelhas transformou em labaredas,
Infundiu-lhes vigor inextinguivel.
A ardencia dos desejos combatia
Receio oculto, sem nascer do pejo.
N′um volver d′olhos se despiu Alcino,
E deu-me nú a ver quam bem talhado
D′ombros, e lados com feições formosas
Seu corpo era gentil: válidos membros
Cobria fina pele; era robusto,
E delicado a um tempo; esbelto, airoso,
Mediocre estatura, olhos rasgados.
Mimosas faces, rubicundos beiços,
Cheio de carnes, sem que fosse obeso.
Igual nas proporções... Eis um mancebo
Digno de a Marte, e a Adonis antepôr-se.
Não tendo de um a rude valentia.
Nem tendo d′outro a feminil brandura.
Então lancei curiosa ávidas vistas
Sobre ignotas feições: fiquei pasmada
Ao ver do sexo as distintivas formas
Dobrando a extensão: dobrou meu susto,
Mormente quando, desviando Alcino
Meus pés unidos, entre meus joelhos
Seus joelhos encravou, e com seus dedos
Procurou dividir da estreita fenda
Pequenos fechos, sobre as quais, de chofre,
Asseslou o canhão, que me assustava.
Ao medo sucedeu uma dor viva,
Como se agudo ferro me cravassem...
Alcino impetuoso ia rompendo
A ténue fenda... Em vão, com mil gemidos
Em pranto debulhada, eu lhe pedia
Que não continuasse a atormentar-me:
O cruel, minhas lágrimas bebendo,
Respirando com ânsia, e furibundo,
Com a boca colada sobre a minha,
Meus gritos abafando, me rasgava:
Mais internos pruridos flagelavam
Intactos membros, mais ardor vehemente
Abrange a todos do que os outros sofrem.
Copioso suor ardente, e frio
O cançasso d′Alcino, a aflição minha,
Inculcavam assás, que eram baldados
Seus esforços crueis para romper-me:
Tão ardua intromissão debalde havia
A custo do meu sangue repetido.
Se enorme corpo diminuta porta
Deve transpòr, carece de abater-lhe
Antes d′entrar, umbrais a que se encosta.
A violenta fricção traiu Alcino,
E o membro, que tentava traspassar-me.
Da própria sanha aos impetos rendido,
Sucumbiu, espumando horrendamente.
Da elétrica materia nas entranhas
Caíram-me faiscas derretidas;
Um vulcão se ateou dentro em mim toda,
O insofrível ardor, que me infundiu
Liquido tiro, ao centro já chegado
Por onde apenas o expugnado forte
Da inimiga irrupção indefensavel,
Podia receber patente damno,
Tais estragos causou, que mais valera
A entrada franquear ao sitiante.
Já dor não conhecia: chamejava
Meu próprio sangue, com violencia tanta
Que lacerar-me as veias parecia.
Na estancia do prazer lançara Alcino
Do Mont gibello as lavas, e extinguil-as
Só torrentes mais fortes poderiam.
Improviso calor calou-me o peito:
Quizera eu já expôr-me aos vivos golpes;
Quizera já no meio da carnagem
A batalha suster, ganhar a morte,
Ou a vitória, de triunfos cheia.
Tardava a meus desejos ver completa
D′Alcino a empresa; eu mesma o provocára,
Se, em fim, refeito da ufanosa esgrima
O não visse ameaçar um novo assalto.
A um resto de temor maldisse afouta,
E comigo jurei de não dar mostras
De leve dor, bem que me espedaçasse.
Alcino sotopõe uma almofada
Para o alvo nivelar, e separando
Quanto mais pôde nitidas columnas,
O edifício tentou pôr em ruina.
Ao forte insano impulso eu respondendo,
(Ah! que o valor cedeu no transe aflito!)
O muro se escalou!... Foi tal a força
Da agonia cruel, que esmorecendo
Semiviva fiquei: em quanto Alcino
Dobrando, e redobrando acerbos golpes,
Do reduto de amor o intimo acesso
Penetra entre meus ais, e os meus gemidos.
Outra vez atingiu supremo gozo,
Gozo celestial, cujos eflúvios
Um balsamo espargiram deleitavel,
Qne socegou a dor, chamando a vida,
Letárgicos alentos me abysmaram
N′um pélago de gostos indizíveis;
Elevaram-me a um céo d′imensas glorias:
Encadeei Alcino com meus braços,
Enlacei-o com os pés entre as espaldas;
Férvidos beijos dando, e recebendo
Com frenético ardor, com ânsia intensa,
Chamando-lhe meu bem, minha alma e vida;
Vozes, suspiros confundindo... tanto,
Tanto emfim apressei dos hirtos membros
Forçosa agitação, que n′um momento
Inefáveis delicias destilando
Alcino em mim, e eu n′ele ao mesmo tempo.
Libámos juntos quanto prazer podem
Os mesmos homens figurar deidades...
Minha Olinda, que instantes!... Eu não posso
Traçar-te a confusão de emoções novas
Que no extasi final me transportaram!...
Amarga, acerba dor sucumbe ao gozo
Da ventura sem par...Vitais alentos.
Saborear não podem tantos gostos...
É preciso morrer entre deleites,
E fora melhor não tornar à vida,
Que conserval-a sem morrer mil vezes.
Sete vezes Amor chamando ás armas
Seus subditos fieis, travou peleja;
Sete vezes Amor bradou «Vitória!»
Da indefensa coragem conduzido
Morfeu veio c′roar nossas proezas.
Eis de que modo a tua Alzira soube
D′Amor com as lições sublime vôo
Erguer afouta sobre o nescio vulgo!
Este odeia o prazer por vã modestia,
E as pudicas vestais, escravas do erro,
Não cessam d′embair-nos, afetando
D′uma virtude vã mimicas formas,
Que o que se anhela mais a encobrir forçam;
Forçam em vão, que a Natureza brada,
E ao grito seu, queira ou não queira o mundo,
Curvo depõe ficções, da insania filhas,
Tirando abrolhos, que da vida lança
Na aprazivel estrada impostor bando.
Assim ornei a fronte radiosa
De vicejante rama, que decóra
Vitórias, que do erro heróis alcançam.
Toma das minhas mãos amada Olinda,
Proveitosa lição; tu já começas
Triunfos a ganhar cheios de glória:
Docil tua alma a improbos ditames,
Docil será também de mais bom grado.
Ás piedosas leis da Natureza:
Retrocede, como eu, da inextricavel
Sinuosa vereda, onde perdidas
Palpamos trevas, tateando abysmos;
Desaprende a fingir; só quadra ao vicio
Acoberta-se com mendaces roupas.
A modestia o pudor gera a ignorancia,
Ou do mal-feito um sentimento interno;
O mais é cobardia, ignavia rude,
Que só n′uma alma vil pode arraigar-se.
Cabe, a quem soube respirar, vencendo
Da impostura as traições, um ar mais puro;
Olhar d′em torno a si, ver quão distante
Pulverulenta jaz infame turba:
Cabe ostentar o garbo, e a louçania
Que espanta o vulgo, impondo-lhe o respeito
De que a nobre altivez se faz condigna.
Deixa-lhe os modos, toma o que te cumpre,
Sincera Olinda, tua amiga imita
Eu não coro de dar-me toda a Alcino,
Nem eu coro também de confessal-o:
Instintos naturais se não são crimes,
Como crime será narrar seus gosos?...
Se é inocente a ação, a voz não peca;
D′est′arte saboreia o que estudaste,
E d′est′arte falar, ah! não vaciles!...
Não te escuse o pensar que egual pintura
Objeto egual exige, minha Olinda.
Não; nos gostos de amor sempre há mudança.
Amor sempre varia os seus deleites,
Eu mostrei-te o modelo; em mim o encontras:
Usa da singeleza que te é própria
E abre o teu coração, cheio de gozo,
Qual, antes de o provar, ingénua abriste.
Se expor da sorte infensa a crueldade
Dá lenitivo ao mal, que ss exp′rimenta,
Sobre-eleva o prazer à extrema dita,
Quando de o confiar redunda interesse.
Eia, querida! anui aos meus desejos,
Rouba um instante a amor, dá-o à amizade.
Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte
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Não, não fui eu: somente a natureza Sabe fazer tão subitos prodigios:
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