Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

A temerosa Olinda é quem me escreve

Manuel Maria Barbosa du Bocage

A temerosa Olinda é quem me escreve? É este o seu pudor, sua innocencia? Ah! Que as minhas lições tão bem acceitas, Dão-me a vêr que a discipula inexperta Ha de em breve ensinar a própria mestra. Olinda não sabia o que excitava Dentro em seu coração ternos impulsos. Que tanto a angustiavam... Não sabia Qual d′extranha mudanças em suas formas. Em seus membros gentis a causa fosse! A voluptuosa Olinda, devorada Do mais activo fogo, ingenuamente Consulta a sua amiga, e a um leve aceno Corre a engolphar-se na amorosa lida. Basta um momento a transtornal-a toda! E porque de tão prospero successo Pretendes tu, querida, dar-me a glória? Não, não fui eu: sómente a natureza Sabe fazer tão subitos prodigios: Como depressa ao mal, que te inquietava, Próvida sugeriu remedio activo! Como de uma boçal, incauta virgem Uma amante formou tão extremosa! A agradavel pintura, que bosquejas, Dos férvidos transportes, que sentiste Entre os braços do amante afortunado, Não é, querida Olinda, tão sincera, Como sincera foi a que traçaste De ignotas emoções a Amor sujeitas. Já não te exprimes com egual candura: Filha da reflexão nova linguagem, Por artificio mascarada em letras, Vejo, que annunciar-me antes procura Após do que se ha feito o que se pensa, Do que por gradações d′acção o int′resse Pouco a pouco esmiuçar, dar-me a vêr todo. Rasga o pudico véo, com que debalde Aos olhos de uma amiga esconder buscas Voluptuosas traças, que transluzem Nas tuas expressões; quando innocente Menos recato n′elas inculcavas, Eu lia com prazer dentro em tua alma Os sentimentos, que a affectavam todos. Tenho direito agora a exigir-te A ingenua confissão d′esses momentos Preludios do prazer, em que te engolphas. Quero saber porque impensados lances D′um amante nos braços te arrojaste; Como o pudor fugiu, e o que sentiste Quando abrazada em férvidos desejos Misturados com dôr indefinivel. De amor colhestes attonita as primicias, E provaste entre gostos e agonias O que uma vez, não mais, pode provar-se; Tens um amante; eu sou a tua amiga; Ele te dá prazer, d′ela o confia: Gasta os momentos, que gozar não podes, Do goso em recordar puras delicias: Nem todo o tempo a amor pode ser dado. A mór ventura, que o mortal encontra, Seja embora infeliz, ou desgraçado, É lembrar-se que foi já venturoso; E o não desesperar de sel-o ainda, Um termo aos males seus põe muitas vezes. Alzira foi do teu prazer motora, A gratidão te obriga a dar-lhe a paga. É nobre o meu int'resse, e não mesquinho; Pago-me d′escutar as tuas ditas, E cedendo a meus rogos falso pejo. Saiba eu teus momentos deleitosos. Mas vê que o sacrificio, que te peço, Eu própria generosa abro primeiro: Primeiro eu quero timidos receios Calcar aos olhos teus; entra em mim mesma, Vê como reina Amor dentro em minh′alma! Como só ele faz meus gostos todos! Chamem embora apathicos estóicos Ardores sensuaes os que me inflammam: Chamem-me torpe, chamem-me impudica; Taes vilipendios valem o que eu góso: Venha a rançosa, vã theologia Crimes fingir, crear eternos fogos, Eu desafio os seus sequazes todos, Eu desafio o Deus, que eles trovejam!... Nos mais puros deleites embebida, Bem os posso arrostar, posso aterral-os! Não estremeças, não, amada Olinda; Longe do Fanatismo a turma odiosa, Que infames leis, infames prejuisos, Quais cabeças fataes d′hydra indomavel Para o mundo assolar tem rebentado: Não ha para os christãos um Deus differente Do que os gentios teem, e os musulmanos: Dogmas de bonzos são condignos filhos Da fraude vil, da estupida ignorancia, Da oppressora politica productos. O que Razão desnega, não existe: Se existe um Deus, a Natureza o offerece: Tudo o que é contra ela, é offendel-o. A solida moral não necessita De apoios vãos: seu throno assenta em bases Que firmam a Razão, e a Natureza. Outra vez eu farei que estes dictames Com seguros principios sustentados, Destruam tua credula impericia; Abafando illusões, que desde a infancia Te lançaram na mente inculta e frouxa, Que Furias tem, que tem Dragões e Larvas, Para os gostos da vida atassalhar-te. Para a remorsos vis dar existencia. Por ora segue o culto, que te apontam As emoções da própria Natureza: Sê religiosa e Qi-me em pratical-as. O meu Alcino, a quem eu devo tudo, N′um momento desfez o que em tres lustros Nescios pães procuraram suggerir-me. Por habito adoptei de uns a doutrina, Por gosto d′outro as maximas sem custo Dentro em meu terno peito radicaram. Tu sabes, minha Olinda, quão perplexa Minha alma balançava entre os combates: Que a rude educação, que recebera, Dentro em mim mesma oppunha sentimentos Cujo extranho poder toda me enleava. Foi n′este estado de incerteza, e inercia, Que Alcino desposei: occulta força Me impellia a adoral-o: não sabendo De deleites que fonte inexhaurivel Se ia abrir para mim entre seus braços. Do dia nupcial todo o apparato Olhava como um sonho!... É impossível A estupidez, o pasmo em que me via Traçar aos olhos teus; lembra-me apenas A inquietação d′ Alcino em todo o dia, E a avidez de prazer, em que enlevado, Terminado o festim, já n′alta noute Ao throno nupcial foi conduzir-me. Ficamos sós: eu timida, agitada, Em sossobro cruel (qual branda pomba. Que ao tiro assustador vôa e revôa. Aqui, e alli mal pousa, se levanta Sem guarida encontrar, que ao p′rigo a salve) Palpitava, tremia, e de meus olhos Corria em fio inexpontaneo pranto. Eu sentia no rosto, e em todo o corpo Espalhar-se o rubor, que gera o sangue, Pelo fogo, que toda me abrazava. Não sei que meigos termos n′este tempo Soltava Alcino; eu nada percebia; Porém vi que a meus pés, banhado em gosto, Chorando de prazer, supplices votos, Ardentes expressões balbuciava: Pelo meio do corpo com seus braços Cingindo-me ancioso, sobre o leito Me foi em fim lançar. Quando eu ardia Em chamas de pudor, o mesmo incendio Davam a Alcino soffregos transportes: Suas trementes mãos me despojavam Dos nupciaes ornatos, e seus beijos Convulsivos esforços, que lhe oppunha, Pagavam com furor; suas caricias Amiudando affouto, e temerario. Irosa quiz mostrar-me; mas os fogos Que o pejo tinha accezo, então tomando Mais activo calor, porém mais doce; Minhas repulsas, de ternura cheias, A maiores arrojos o excitaram; Menos timido, quanto eu mais irada, Meus olhos, minhas faces, e meu seio Beijava Alcino: Eu languida fitando N′ele amorosas vistas, reclinei-me Sem resistir-Ihe mais, sobre o seu colo: Importunos vestidos, que estorvavam Seus inflammados beiços de tocarem Occullos attractivos... longe arroja. Então aos olhos seus (tu bem o sabes, Quando outr′ora passavamos unidas Em innocentes brincos... feliz tempo!) Meus peitos, cuja alvura terminavam Preciosos rubis, patentes foram. Ao voluptuoso tacto palpitante Mais, e mais se arrijaram, de maneira Que os labios não podiam comprimil-os. Meus braços nus, meu colo, eu toda estava Coberta de signaes de ardentes beijos. Os leves trajos, que ainda conservava. Em vão eu quiz suster: rapido impulso Guiava Alcino: d′Hercules as forças Alli vencêra... As minhas que fariam? Co′as forças o pudor desfallecido Deixei fartar seus olhos, e seus gestos. «Que lindos membros!... Que divinaes formas!... (De quando em quando extatico dizia) «Ah! que mimosos pés!... Oh céo!... que encantos!... Que graças apparecem espalhadas! Que tesouros de amor sobre estas bases!... Oh que prazer! que vistas deleitosas!... Alzira, eu vejo em ti uma deidade! Deixa imprimir meus osculos aonde Entre fios subtis se esconde o nacar!... Deixa esgotar a fonte das delicias!... Ah! deixa-me expirar aqui de gosto!... Não mais rubor, Alzira, não mais pejo!...» Eram brazas, que as carnes me queimavam, Seus dedos, os seus beiços, sua lingua! Sim; sua lingua, bem como um corisco, Abriu rapida entrada, onde engolphadas Todas as sensações luctavam junctas: Pela primeira vez dentro em mim mesma Senti gerar-se subita mudança, Com que de envolta mil deleites vinham. Communicou-me sua raiva Alcino, E na lasciva acção, que proseguia, Tal int'resse me fez tomar, que eu própria A seus intentos me prestei de todo. Entre incessantes gostos doces gotas Brotavam sobre os toques impudicos: Mas quando, ao crebo impulso, extasiada Cheguei ao cume do prazer celeste, Ardente emanação de intimos membros, Que electrisavam fogos insoffriveis. Inundou o instrumento das delicias. Como se ao crime seu vibrassem pena. Ou antes dessem premio: affadigado Na maior languidez, quasi em deliquio, Alcino veio ao meu unir seu rosto. N′este instante, eu não sei que desejava; Sei que o primeiro ensaio dos prazeres Em vez de suffocar activas chamas, Scentelhas transformou em labaredas, Infundiu-lhes vigor inextinguivel. A ardencia dos desejos combatia Receio occulto, sem nascer do pejo. N′um volver d′olhos se despiu Alcino, E deu-me nú a vêr quam bem talhado D′hombros, e lados com feições formosas Seu corpo era gentil: válidos membros Cobria fina pelle; era robusto, E delicado a um tempo; esbelto, airoso, Mediocre estatura, olhos rasgados. Mimosas faces, rubicundos beiços, Cheio de carnes, sem que fosse obeso. Igual nas proporções... Eis um mancebo Digno de a Marte, e a Adonis antepôr-se. Não tendo de um a rude valentia. Nem tendo d′outro a feminil brandura. Então lancei curiosa ávidas vistas Sobre ignotas feições: fiquei pasmada Ao vêr do sexo as distinctivas formas Dobrando a extensão: dobrou meu susto, Mormente quando, desviando Alcino Meus pés unidos, entre meus joelhos Seus joelhos encravou, e com seus dedos Procurou dividir da estreita fenda Pequenos fechos, sobre as quais, de chofre, Asseslou o canhão, que me assustava. Ao medo succedeu uma dôr viva, Como se agudo ferro me cravassem... Alcino impetuoso ia rompendo A ténue fenda... Em vão, com mil gemidos Em pranto debulhada, eu lhe pedia Que não continuasse a atormentar-me: O cruel, minhas lágrimas bebendo, Respirando com ânsia, e furibundo, Com a bocca colada sobre a minha, Meus gritos abafando, me rasgava: Mais internos pruridos flagellavam Intactos membros, mais ardor vehemente Abrange a todos do que os outros soffrem. Copioso suor ardente, e frio O cançasso d′Alcino, a afflicção minha, Inculcavam assás, que eram baldados Seus esforços crueis para romper-me: Tão ardua intromissão debalde havia A custo do meu sangue repetido. Se enorme corpo diminuta porta Deve transpòr, carece de abater-lhe Antes d′entrar, humbraes a que se encosta. A violenta fricção traiu Alcino, E o membro, que tentava traspassar-me. Da própria sanha aos impetos rendido, Succumbiu, espumando horrendamente. Da electrica materia nas entranhas Caíram-me faiscas derretidas; Um vulcão se ateou dentro em mim toda, O insoffrivel ardor, que me infundiu Liquido tiro, ao centro já chegado Por onde apenas o expugnado forte Da inimiga irrupção indefensavel, Podia receber patente damno, Taes estragos causou, que mais valera A entrada franquear ao sitiante. Já dôr não conhecia: chammejava Meu próprio sangue, com violencia tanta Que lacerar-me as veias parecia. Na estancia do prazer lançara Alcino Do Mont gibello as lavas, e extinguil-as Só torrentes mais fortes poderiam. Improviso calor calou-me o peito: Quizera eu já expôr-me aos vivos golpes; Quizera já no meio da carnagem A batalha suster, ganhar a morte, Ou a victoria, de triunfos cheia. Tardava a meus desejos vêr completa D′Alcino a empreza; eu mesma o provocára, Se, em fim, refeito da ufanosa esgrima O não visse ameaçar um novo assalto. A um resto de temor maldisse affouta, E comigo jurei de não dar mostras De leve dôr, bem que me espedaçasse. Alcino sotopõe uma almofada Para o alvo nivelar, e separando Quanto mais pôde nitidas columnas, O edifício tentou pôr em ruina. Ao forte insano impulso eu respondendo, (Ah! que o valor cedeu no transe afflicto!) O muro se escallou!... Foi tal a força Da agonia cruel, que esmorecendo Semiviva fiquei: em quanto Alcino Dobrando, e redobrando acerbos golpes, Do reducto de amor o intimo accesso Penetra entre meus ais, e os meus gemidos. Outra vez attingiu supremo goso, Goso celestial, cujos effluvios Um balsamo espargiram deleitavel, Qne socegou a dôr, chamando a vida, Lethargicos alentos me abysmaram N′um pélago de gostos indizíveis; Elevaram-me a um céo d′immensas glorias: Encadeei Alcino com meus braços, Enlacei-o com os pés entre as espaldas; Férvidos beijos dando, e recebendo Com phrenetico ardor, com ânsia intensa, Chamando-lhe meu bem, minha alma e vida; Vozes, suspiros confundindo... tanto, Tanto emfim apressei dos hirtos membros Forçosa agitação, que n′um momento Ineffaveis delicias distillando Alcino em mim, e eu n′ele ao mesmo tempo. Libámos juntos quanto prazer podem Os mesmos homens figurar deidades... Minha Olinda, que instantes!... Eu não posso Traçar-te a confusão de emoções novas Que no extasi final me transportaram!... Amarga, acerba dor succumbe ao goso Da ventura sem par...Vitaes alentos. Saborear não podem tantos gostos... É preciso morrer entre deleites, E fora melhor não tornar á vida, Que conserval-a sem morrer mil vezes. Sete vezes Amor chamando ás armas Seus subditos fieis, travou peleja; Sete vezes Amor bradou «Victoria!» Da indefensa coragem conduzido Morpheu veio c′roar nossas proezas. Eis de que modo a tua Alzira soube D′Amor com as lições sublime vôo Erguer affouta sobre o nescio vulgo! Este odeia o prazer por vã modestia, E as pudicas vestaes, escravas do erro, Não cessam d′embair-nos, affectando D′uma virtude vã mimicas formas, Que o que se anhela mais a encobrir forçam; Forçam em vão, que a Natureza brada, E ao grito seu, queira ou não queira o mundo, Curvo depõe ficções, da insania filhas, Tirando abrolhos, que da vida lança Na aprazivel estrada impostor bando. Assim ornei a fronte radiosa De vicejante rama, que decóra Victorias, que do erro heróis alcançam. Toma das minhas mãos amada Olinda, Proveitosa lição; tu já começas Triunfos a ganhar cheios de glória: Docil tua alma a improbos dictames, Docil será também de mais bom grado. Ás piedosas leis da Natureza: Retrocede, como eu, da inextricavel Sinuosa vereda, onde perdidas Palpamos trevas, tacteando abysmos; Desapprende a fingir; só quadra ao vicio Acoberta-se com mendaces roupas. A modestia o pudor gera a ignorancia, Ou do mal-feito um sentimento interno; O mais é cobardia, ignavia rude, Que só n′uma alma vil pode arraigar-se. Cabe, a quem soube respirar, vencendo Da impostura as traições, um ar mais puro; Olhar d′em torno a si, ver quão distante Pulverulenta jaz infame turba: Cabe ostentar o garbo, e a louçania Que espanta o vulgo, impondo-lhe o respeito De que a nobre altivez se faz condigna. Deixa-lhe os modos, toma o que te cumpre, Sincera Olinda, tua amiga imita Eu não córo de dar-me toda a Alcino, Nem eu córo também de confessal-o: Instinctos naturais se não são crimes, Como crime será narrar seus gosos?... Se é innocente a acção, a voz não pecca; D′est′arte saboreia o que estudaste, E d′est′arte fallar, ah! não vacilles!... Não te escuse o pensar que egual pintura Objecto egual exige, minha Olinda. Não; nos gostos de amor sempre ha mudança. Amor sempre varia os seus deleites, Eu mostrei-te o modelo; em mim o encontras: Usa da singeleza que te é própria E abre o teu coração, cheio de goso, Qual, antes de o provar, ingenua abriste. Se expor da sorte infensa a crueldade Dá lenitivo ao mal, que ss exp′rimenta, Sobre-eleva o prazer á extrema dita, Quando de o confiar redunda interesse. Eia, querida! annue aos meus desejos, Rouba um instante a amor, dá-o á amizade.

Grafia atualizada a partir da primeira edição.

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Frases tiradas deste poema

Estes versos andam a circular sozinhos. Aqui ficam com o poema inteiro por trás, que é o que quase nenhum site dá.

Não, não fui eu: sómente a natureza Sabe fazer tão subitos prodigios:

A temerosa Olinda é quem me escreve, de Manuel Maria Barbosa du BocageVerificada

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