Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

À morte de Leandro e Hero

Manuel Maria Barbosa du Bocage · À morte de Leandro e Hero

De horrenda cerração c'roada, a Noite Surgira há muito da ciméria gruta; Tapando o longo céu co'as asas longas Reina em meio Universo: Ocupam-lhe os degraus do negro trono A Tristeza, o Silêncio, O Medo, a Solidão, o Amor e o Crime; Voam-lhe em roda lúgubres fantasmas, Aves sinistras pousam-lhe no grémio. Eis manso e manso as nuvens se entumecem, Eis o líquido peso Rompe os enormes, carregados bojos, Em torrentes sussurra e cai na terra. Rebentam furacões, flamejam raios, O estrondoso trovão no céu rebrama, O Helesponto nas rochas ferve e ronca. Tu, abideno amante, Tu velas neste horror com a saudade, Já corres insofrido às ermas praias, Donde é teu uso arremessar-te ao pego, E, destro nadador, talhando as vagas, Teus gostos demandar na oposta margem. Ao longe em celsa torre, estância cara De Hero, sol dos teus dias, O brilhante sinal, o amigo lume (Que é no facho de Amor por ela aceso) Vês entre as sombras cintilar a espaços, E como que te acena e te suspira. Debalde o mar bramindo, o céu troando Teu ímpeto ameaçam; Ardem-te n'alma os sôfregos desejos, Fulgurante ilusão, doirando as trevas, Num quadro tentador te of’rece aos olhos Glórias a furto, vívidos prazeres, Doces mistérios, que da luz se temem. A sagaz Esperança Te reforça, te incita, Jura aplacar-te o ar, pôr freio às ondas, Dar-te aos suspiros da suave amada. Atento à meiga voz, que atrai, que mente, No montuoso pélago te arrojas. À queda repentina alteia um grito O corvo grasnador na dextra parte, E os Ecos, despertando ao som medonho, Gemem nas brutas, cavernosas fragas. O triste agoiro te arrepia as carnes, Teus cabelos erriça; Mas prevalece Amor e, expulso o medo, Forças a equórea, túmida braveza. Metade já do trânsito afanoso Indústria e robustez vencido haviam. Nisto a procela horríssona recresce, Tingem sombras do Inferno os véus da noite, Que o súbito relâmpago retalha; Braveja o mar, aos astros se remontam Serras e serras de fervente espuma; Carrancudos tufões arrebatados, Dobrando a força, a raiva, lutam, berram E revolvem do pélago as entranhas; Rochedo imóvel, aferrado à terra, Rebate apenas o horroroso assalto... Ah, Leandro infeliz! Tu já fraqueias, A destreza, o vigor nas mãos, nas plantas Já, mísero amador, já te falecem. Procuras o distante, o caro lume, Astro benigno, que te influi e guia, Olhas, vês que te falta, Que desapareceu, que jaz extinto; Suspiras, esmoreces, Da tua doce luz desamparado. Invocas o grão deus, que rege os mares; De teus rogos não cura, imoto e surdo. Invocas de Nereu potente as filhas. Elas ardem por ti, mas, invejosas Do objecto encantador que lhes preferes, Às marítimas fúrias te abandonam. Hero invocas, e Amor, e os Céus, e a Sorte; A Sorte é implacável, Dos males, que dispõe, não se arrepende, Teus dias sinalou de um termo infausto. Debalde te auxilia o deus mimoso, O alado criador de teus suspiros, Dos amorosos bens, que desfrutaste; O facho luminoso em vão meneia Para encurtar-te as sombras, E mais fácil tornar a undosa estrada; Em vão com as asas brandas Tenta arrasar os orgulhosos mares. Sobre altos escarcéus o Fado escuro Folga, triunfa e reina; Punge, ameaça, desespera os ventos, Enrola a morte nas horrendas vagas. Ela, pronta a seu mando, ela acomete O deplorável moço. Eis dos olhos gentis lhe turva o lume, O tardo movimento eis lhe sopeia, Pelas águas o embebe, e de Hero o nome Do ansioso coração num ai lhe arranca. Abaixo, acima, co'as cavadas ondas Vai, vem mil vezes o infeliz mancebo... Ai! Já sem vida aqui, e ali vagueia À discrição do mar, e o mar com ele De Sesto às praias súbito arremete; Dá contra a torre de Hero, ali rebenta, E deixa o triste corpo à margem nua. Tu entretanto, carinhosa amante, Que fazias (oh, Céus!), que imaginavas? Solitária, anelando, Nas trevas espantosas, Nos soltos ventos, alterosos mares Lias de feio azar presságios feios. Em torno à viva luz que vigiavas (Que em raro véu com arte envolto havias, Resguardando-a dos ares indignados), Em torno à viva luz eis de improviso Negro insecto voou, zuniu três vezes, E à terceira apagou a esperta chama (Foi no ponto funesto em que o mancebo Com teu nome adoçou o extremo arranco); Do repentino assombro espavorida, Atónita, convulsa O agoirado clarão não renovaste. Em ânsias implorando os Deuses todos, E mais que todos o que em ti reinava, A bem do afoito, desvelado amante, Ao Númen indulgente, à Mãe piedosa Mil incenses, mil vítimas votaste. Depois, cevando a revoltosa ideia Em terríveis imagens, Ora do moço audaz o usado arrojo Reprovas contigo, Ora a cega imprudência maldizias, Com que em tão desabrida horrível noite A perigosa senha aventuraras... Ah, triste! Contra ti não te conjures: Foi lei dos fados a imprudência tua. Hero, desanimada, Metida em profundíssimo letargo, Jaz sem tino e sem voz, até que aponta A purpúrea manhã no céu já ledo. Farto o cruel Destino, Adelgaçara os ares, Ao pego a mansidão restituíra, Depois que a terna vítima saudosa Foi sufocada nas voragens feras. Ele, o duro opressor dos desditosos, Ele do almo prazer, que os dois gozaram, Está vingado em parte, e da vingança À Desesperação comete o resto. Hero, ah, Hero infeliz! Tu pelas águas Húmida vista, suspirando, alongas. Não vês o nadador por quem desmaias, O teu bem não flutua Pelas ondas desertas. Eis a consternação te inclina os olhos À pedregosa areia Onde o desventurado está sem alma. Que vista! Que terror! As alvas carnes, Rotas nas rochas pelo embate undoso, Inda gotejam sangue; aberta a boca, Parece que inda quer, que inda procura Chamar-te, ó Hero, murmurar teu nome. No espectáculo horrendo, Mísera, tu reparas; Tu... Céus!, Não lhe acudis?! Tu reconheces O querido semblante, o conpo amado, Entre as sombras da morte inda formoso: Com palidez, que a pinta. Gritas, arquejas, desesperas, fremes, Deitas as mãos de neve às tranças de oiro, E as tranças de oiro, delirando, arrancas. Levada enfim de um ímpeto raivoso Te arremessas da torre, e dás e entregas O teu ai derradeiro ao mudo amante. Lá jazem sobre a areia lutuosa As vítimas do Fado; Nas angústias mortais a linda moça Inda, estendendo os amorosos braços, Tenta apertar o suspirado objecto. Apiedados delfins nas ondas surgem, E altos sons (oh, prodígio!) derramando, Lamentam junto à praia o duro caso: As mesmas ninfas invejosas de Hero Soluçam de pesar nos vítreos lares. Um marmóreo padrão se erige em breve; Compadecidas mãos a história triste Gravam na lisa pedra; a pedra existe, Mas o monstro voraz que rói penedos, Comendo em parte a fúnebre escritura, Só deixa soletrar-lhe O remate piedoso, Em meus piedosos versos trasladado: Carpido ao som da lira Inda agora de ouvi-lo Amor suspira. Aos dois amantes De Abido e Sesto Ardor funesto Deu negro fim. Foram-lhe algozes Os seus extremos; Mortais, amemos, Mas não assim.
Partilhar

Frases tiradas deste poema

Estes versos andam a circular sozinhos. Aqui ficam com o poema inteiro por trás, que é o que quase nenhum site dá.

A Sorte é implacável, Dos males, que dispõe, não se arrepende,

À morte de Leandro e Hero, de Manuel Maria Barbosa du BocageVerificada

Postal

Foi lei dos fados a imprudência tua.

À morte de Leandro e Hero, de Manuel Maria Barbosa du BocageVerificada

Postal

Foram-lhe algozes Os seus extremos; Mortais, amemos, Mas não assim.

À morte de Leandro e Hero, de Manuel Maria Barbosa du BocageVerificada

Postal

Mais poemas de Manuel Maria Barbosa du Bocage

Sabes mais sobre isto?

Se conheces outra versão, se dizem de outra maneira na tua terra, ou se encontraste um erro, diz. É assim que isto melhora.

Só publicamos depois de ler. Não guardamos o teu endereço de IP, só uma impressão digital dele para travar abuso.