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As palavras para cada ocasião.

Poema

A empreza nocturna

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Era alta a noite, e as beiras dos telhados Pingando mansamente convidavam A gente toda a propagar a especie: Brandas torrentes, que do céu cahiam Pelas ruas abaixo susurravam; Dormia tudo; e a ronda do intendente Que o grão Torquato rege, o pae das putas, Esbirro-mór, Mecenas das tabernas, Recolhido se havia aos patrios lares. Era tudo silêncio, e só se ouvia De quando em quando ao longe uma matraca. Soava o sino grande dos Capuchos, Vão-se os frades erguendo, era uma hora. Não podia faltar: Nise formosa, Pela primeira vez m′estava esperando. De repente me visto, e salto fora Da pobre cama, aonde envolto em sonhos Mil imagens a mente me fingia. Visto roupa lavada, e me perfumo, N′um capote me embuço, a espada tomo, Que nunca me serviu, mas que em taes casos Mette a todos respeito; e qual Quixote, Que, havendo já perdido o caro Sancho, Sem nada receiar de assalto busca Altos moinhos, que valente ataca; Tal eu figuro achar a cada esquina Um Rodamonte, e prompto me disponho A lançal-o por terra, em pó desfeito. Assim gastei o tempo, até que chego Ao sitio dado, onde meu bem m′espera. Mal a porta emboquei, dentro em mim sinto Um fogo activo, que me abraza todo. Eis de Nise a criada, abelha mestra, Que á mira estava alli, a mão me aperta, Vai-me guiando, e diz: «Suba de manso. Que ahi dorme a senhora.» A poucos passos, Por acaso ao subir-lhe apalpo as coxas... Oh caspite! que sesso! Era alcatreira, Nunca vi cu tão duro, era uma rocha. Foi o tezão então em mira tão forte, Que as mãos lhe encosto aos hombros, n′ela salto, Que enfadada dizia: «Olhe o bregeiro!... Tire-se lá, que pode ouvir minha ama!...» Ao dizer isto a voz lhe fica presa, Soluça, treme toda, estende os braços, Aperta as pernas, encarquilha o cono, Que distava do cu pollegada e meia. Qual moinho de cartas, que os rapazes Em tempo de verão põem nas janellas, Tal a moça rebolla: e eu posto em cima, Sem nada lhe dizer, tinha vertido Na larga dorna a larga apojadura. Acabada a funcção, em que a moçoila (Segundo confessou) deu tres por uma, N′um quarto me encaixou, onde os Amores Tinham sua morada, onde Cupido Havia receber em seus altares Em breve espaço meus amantes votos. Dormia tudo em casa: eis Nise bela Um pouco envergonhada, assim ficando Mais vermelha que a rosa, a mim se chega, Nos meus braços se lança: então lhe toco No tenro, e branco seio palpitante; Trémula a voz, que o susto lhe embargava, Mal me pôde dizer: «Meu bem, minh′alma «Quanto pode o amor n′um peito firme! «Bem vês ao que me arrisco: eu bem conheço «Quanto offendo o meu sexo, e as leis da honra «Bem sei que despedaço!... Mas não temo «Que te esqueças de mim, que ufano zombes «D′uma infeliz mulher amante, e fraca!...» Em quanto assim fallava, me prendia Nise c′os braços seus, e aos meus joelhos As pernas encostava, que eu conheço Pelo tacto, que são rijas, e grossas. Mal podia conter-me: o céu chuvoso Pelas telhas cahia; o vento rijo Pelas frestas zunia; a casa toda Com cheiro de alfazema; a cama fôfa, Tudo em fim era amor, tudo arreitava. Entro a beijar-lhe as mãos feitas de neve, Descubro-lhe com geito o tenro peito, Que ancioso palpita, que resiste. Que não murcha ao tocar-se; oh quanto é bela! No seio virginal, onde dois globos Mais brancos do que jaspe estão firmados, Ancioso beijando-os, pouco a pouco Se fizeram tão rijos que mal pude Comprimil-os c′os beiços; n′este tempo Pelo fundo da saia subtilmente Lhe introduzi a mão, com que esfregava O pentelho em redondo, o mais hirsuto Que atéli encontrei; e como a crica Vertido tinha já pingas ardentes, Certos signaes, que os fervidos prazeres Dentro n′alma de Nise á lucta andavam. Tal fogo em mim senti, que de improviso Sem nada lhe dizer me fui despindo, Té ficar nu em pelo, e o membro feito, Na cama m′encaixei, qu′a um lado estava. Nise, cheia de susto, e casto pejo, De receio, e luxuria combatida, Junto a mim se assentou, sem resolver-se. Eu mesmo a fui despindo, e fui tirando Quanto cubria seu airoso corpo. Era feito de neve: os hombros altos, O colo branco, o cu roliço e grosso; A barriga espaçosa, o cono estreito, O pentelho mui denso, escuro, e liso; Coxas pyramidaes, pernas roliças, O pé pequeno... Oh céos! Como é formosa! Já mettidos na cama em nivea hollanda, Erguido o membro té tocar no umbigo, Qual Amadis de Gaula entrei na briga: Pentelho com pentelho ambos unidos, Presa a voz na garganta, ardente fogo Exhalavamos ambos; Nise bela Ou fosse natural, ou fosse d′arte, O peito levantado, anciosa, afflicta, Tremia, soluçava, e os olhos belos Semi-mortos erguia: a côr do rosto Pouco a pouco murchava; era tão forte, Tão activo o prazer, que ela sentia, Que, cingindo-me os rins c′os alvos braços, Tanto a si me prendia, que por vezes O movimento do cu me embaraçava: Co′as alvas pernas me apertava as coxas, Titilava-lhe o cono, e reclinada Quasi sem tino a languida cabeça, Chamando-me seu bem, sua alma e vida, Faz-me ternas meiguices, brandos mimos; Fervidos beijos, mutuamente dados, Anhelantes suspiros se exhalavam: Era tudo ternura; e em breve espaço Ao som de queixas mil, com que intentava Mostrar-me Nise um damno irreparavel. Me senti quasi morto em todo o corpo: Uma viva emoção senti gostosa Dentro em minh′alma: férvidos prazeres O peito vivamente me agitavam: Os olhos, e a voz amortecida, Os braços frouxos, quasi moribundos, Languido o corpo todo, em fim mal pude Saber o que fazia... Eis de improviso Tornando a mim mais forte, e mais robusto, Tentei de novo o campo da batalha: Qual o bravo guerreiro, que se abrasa No calido vapor, que exhala o sangue Que ele mesmo esparsiu entre as phalanges De inimigos crueis, que vence, e mata; Assim eu, abrasado em vivo fogo Que de Nise sahia, me não farto Da guerra, que intentei: de novo a aperto, De novo beijo os seus mimosos braços; Beijo-lhe os olhos, a mimosa bocca, Os niveos peitos, a cintura airosa; Nise outro tanto me fazia alegre, Estreitava-me a si por varios modos: Ora posto eu por baixo, ela por cima, Para dar doce allivio aos membros lassos; Ora posto de ilharga, sem que nunca O voraz membro do logar sahisse, Onde uma vez entrára altivo e forte, O membro, que em tal caso era mais duro Que alva columna de marmoreo jaspe: Até que em fim, depois de não podermos Nem eu, nem Nise promover mais gostos, O brando somno, sobre nós lançado Os seus doces influxos brandamente, Os olhos nos cerrou. Uns leves sonhos Vieram animar nossos sentidos, Té que chegou a fresca madrugada, Em que á casa voltei d′onde sahira; E tornando outra vez á pobre cama, Dormi o dia inteiro a somno solto.

Grafia atualizada a partir da primeira edição.

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Frases tiradas deste poema

Estes versos andam a circular sozinhos. Aqui ficam com o poema inteiro por trás, que é o que quase nenhum site dá.

Brandas torrentes, que do ceu cahiam Pelas ruas abaixo susurravam;

A empreza nocturna, de Manuel Maria Barbosa du BocageVerificada

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Era tudo silêncio, e só se ouvia De quando em quando ao longe uma matraca.

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