Ditos

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Poema

Despois que Magalhães teve tecida

Luís Vaz de Camões · História da Província Santa Cruz (Pero de Magalhães Gândavo, 1576), p. 171

Despois que Magalhães teve tecida A breve história sua, que ilustrasse A Terra Santa Cruz, pouco sabida; Imaginando a quem a dedicasse, Ou com cujo favor defenderia Seu livro d'algum zoilo que ladrasse; Tendo nisto ocupada a fantasia, Lhe sobreveio um sono repousado, Antes que o sol abrisse o claro dia. Em sonhos lhe aparece todo armado Marte, brandindo a lança furiosa, Com que fez quem o vio todo enfiado; Dizendo em voz pezada e temerosa: Não he justo que a outrem se ofereça Obra alguma que possa ser famosa, Senão a quem por armas resplandeça No largo inundo com tal nome e fama, Que louvor imortal sempre mereça. Disse assi: quando Apollo, que da flama Celeste guia os carros, de outra parte Se lhe presenta, e por seu nome o chama, Dizendo: Magalhães, postoque Marte Com seu terror t'espante, todavia Comigo deves só de aconselhar-te. Um Varão sapiente, em quem Thalia Pôs seus tesouros, e eu minha ciência, Defender tuas obras poderia. He justo que a escritura na prudencia Ache só defensão; porque a dureza Das armas he contrária da eloquencia. Assi disse: e tocando com destreza A cítara dourada, começou A mitigar de Marte a fortaleza. Mas Mercurio, que sempre costumou Pacificar porfias duvidosas, Co'o Caducêo na mão, que sempre usou, Determina compor as perigosas Opiniões dos deoses inimigos Com suaves razões e ponderosas. E disse: Bem sabemos dos antigos Heróis, e dos modernos, que provárão De Belona os gravissimos perigos, Como tão bem mil vezes concordárão As armas com as letras; porque as Musas A muitos na milicia acompanhárão. Nunca Alexandre, ou Cesar, nas confusas Guerras o estudo deixão grande espaço; Que as armas jamais dele são escusas. N'uma mão livros, n'outra ferro e aço; Aquela rege e ensina; est'outra fere: Mais co'o saber se vence, que co'o braço. Pois, logo, um Varão grande se requere, Que com teus dões (Apollo) ilustre seja, E de ti (Marte) palma e glória espere. Este vos darei eu, em quem se veja Saber e esfôrço no sereno peito, Que he um Leoniz que faz ao mundo inveja. Deste as Irmãas em vendo o bom sogeito, Todas nove nos braços o tomárão, Criando-o co'o seu leite no seu leito: As Artes e as Ciências lh'ensinárão; Inclinação divina lh'influírão Ás virtudes morais, que logo o ornárão. Daqui nos exercidos o seguírão Das armas no Oriente, onde primeiro Um soldado gentil instituírão. Ali tais provas fez de Cavaleiro, Que, de Christão magnanimo e seguro, A si mesmo venceo por derradeiro. Despois, ja Capitão forte e maduro, Governando toda a Aurea Chersoneso, Lhe defendeo co'o braço o debil muro. Porque vindo a cercá-la todo o peso Do poder dos Achens, que se sustenta De alheio sangue, em furia todo aceso; Este só que a ti, Marte, representa, O castigou de sorte, que vencido De ter quem vivo fique se contenta. E logo qu'este Reino defendido Deixou, segunda vez com maior glória Para o ir governar foi elegido. Mas não perdendo ainda da memória Os amigos o seu govêrno brando, Os imigos o damno da vitória; Huns com amor intrinseco esperando Estão por ele, e os outros congelados O estão com frio medo receando. Vede pois se serião debelados Por seu claro valor, se lá tornasse, E dos Indicos mares degradados. Porqu'he justo que nunca lhe negasse O conselho do Olympo alto e subido Favor e ajuda com que pelejasse. Aqui só pode ser bem dirigido De Magalhães o estudo: este só deve Ser de vós, claros deoses, escolhido. Assi Mercurio disse; e em termo breve Conformados se vem Apollo e Marte; E voou juntamente o sono leve. Acorda Magalhães, e ja se parte A offrecer-vos, Senhor claro e famoso, Tudo o que nele pôs ciência e arte. Tẽe claro estilo, e engenho curioso, Para poder de vós ser recebido, Com mão benigna, de ânimo amoroso. Pois se só de não ser favorecido Um alto esprito fica baixo e escuro; Este seja comvosco defendido, Como o foi de Malaca o debil muro.

Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte

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