Alma minha gentil, que te partiste
Luís Vaz de Camões · (Alma minha gentil, que te partiste), p. 84
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento Ethereo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças de aquelle amor ardente,
Que ja nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Algũa cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remedio, de perder-te;
Roga a Deos que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
Grafia atualizada a partir da primeira edição. · Fonte
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