Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

O Oiro

Gonçalves Dias · Primeiros Cantos

Oiro, - poder, encanto ou maravilha Da nossa idade, - regedor da terra, Que dás honra e valor, virtude e força, Que tens ofertas, oblações e altares, - Embora teu louvor cante na lira Vendido Menestrel que pôde insano Do grande à porta renegar seu gênio! Outro, sim, que não eu. - Bardo sem nome, Com pouco vivo; - sobre a terra, à noite, Meu corpo lanço, descansando a fronte Num tronco ou pedra ou mal nascido arbusto. Sou mais que um rei co'o meu dossel de nuvens Que tem gravados cintilantes mundos! Com a vista no céu percorro os astros. Vagueia a minha mente além das nuvens, Vagueia o meu pensar - alto, arrojado Além de quanto o olhar nos céus alcança. Então do meu Senhor me calam n'alma D'amor ardente enlevos indizíveis; Se tento às gentes redizer seu nome, Queimadoras palavras se atropelam Nos meus lábios; - profética harmonia Meu peito anseia, e em borbotões se expande. Grandes, Senhor, são tuas obras, grandes Teus prodígios, teu poder imenso: O pai ao filho o diz, um sec'lo a outro, A terra ao céu, o tempo à eternidade! Do mundo as ilusões, vaidade, engano. Da vida a mesquinhez - prazer ou pranto - Tudo esse nome arrasta, prostra e some; Como aos raios do sol desfeito o gelo, Que em ondas corre no pendor do monte, Precípite e ruidoso, - arbustos, troncos Consigo no passar rompidos leva.

Grafia atualizada a partir da primeira edição. · Fonte

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