Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

O Gigante de Pedra

Gonçalves Dias · Últimos cantos (Typographia de F. de Paula Brito, 1851), pp. 1-8

O poema que o livro escolar Através do Brasil cita de cor pela boca de uma personagem, e que aqui esteve dias com duas estrofes soltas atribuídas a Bilac. É de Gonçalves Dias, abre os Últimos cantos de 1851, e está aqui inteiro, com a epígrafe do Le Géant de Hugo traduzida entre parênteses.

Ô guerriers! ne laissez pas ma dépouille au corbeau! Ensevelissez-moi parmi des monts sublimes, Afin que l'étranger cherche, en voyant leurs cimes, Quelle montagne est mon tombeau! V. Hugo, Le Géant (Ó guerreiros! não deixeis os meus despojos ao corvo! Sepultai-me entre montes sublimes, para que o estrangeiro procure, ao ver os seus cumes, que montanha é o meu túmulo!) I. Gigante orgulhoso de fero semblante, N’um leito de pedra lá jaz a dormir! Em duro granito repousa o gigante Que os raios somente podérão fundir. Dormido atalaia no serro empinado Devera cuidoso, sanhudo velar; O raio passando o deixou fulminado, E à aurora que surge não hade acordar! Co’os braços no peito crusados nervosos, Mais alto que as nuvens, os céos a encarar, Seu corpo se estende por montes fragosos, Seus pés sobranceiros se arrojão do mar! De lavas ardentes seus membros fundidos Avultão imensos: só Deos poderá Rebelde lançal-o dos montes erguidos, Curvados ao peso que sobre lhes ’stá. E o céo, e as estrelas, e os astros fulgentes São velas, são tochas, são vivos brandões, E o branco sudario são névoas algentes, E o crepe que o cobre são negros bulcões. Da noite que surge no manto fagueiro Quiz Deos que se erguesse, de junto a seus pés, A cruz sempre viva do sul no cruzeiro, Deitada nos braços do eterno Moysés. Perfumão-no odores que as flores exhalão, Bafejão-no carmes de um bymno de amor Dos homens, dos brutos, das nuvens que estalão, Dos ventos que rugem, do mar em furor, E lá na montanha, deitado dormido Campeia o gigante, — nem pode acordar! Crusados os braços de ferro fundido, E a fronte nas nuvens, e os pés sobre o mar! II. Banha o sol os horisontes, Trepa os castelos dos céos, Aclara serras e fontes, Vigia os dominios seus: Já descahe p’ra o ocidente, E em globo de fogo ardente Vai-se no mar esconder; E lá campeia o gigante, Sem destorcer o semblante, Imóvel, mudo, a jazer! Vem a noite após o dia, Vem o silêncio, o frescor, E a brisa leve e macia Que lhe suspira ao redor; E da noite entre os negrores Das estrelas os fulgores Brilhão na face do mar: Brilha a lua cintilante, E sempre mudo o gigante, Imóvel, sem acordar! Depois outro sol desponta, E outra noite também, Outra lua que aos céos monta, Outro sol que após lhe vem: Após um dia outro dia, Noite após noite sombria, Após a luz o bulcão, E sempre o duro gigante, Imóvel, mudo, constante Na calma e na cerração! Corre o tempo fugidio, Vem das aguas a estação, Após ela o quente estio E ainda após o verão: Crescem folhas, vingão flores, Entre galas e verdores Sazonão-se frutos mil; Cobrem-se os prados de relva Murmura o vento na selva Azulão-se os céos de anil! Tornão prados a despir-se, Tornão flores a murchar, Tornão de novo a vestir-se, Tornão depois a seccar; E como gota filtrada De uma abobeda escavada Sempre, incessante a cahir, Tombão as horas e os dias, Como fantasmas sombrias, Nos abysmos do porvir! E no feretro de montes Inconcusso, imóvel, fito, Escurece os horisontes O gigante de granito: Com soberba indifferença Sente extincta a antiga crença Dos Tamoyos, dos Pagés, Nem vê que duras desgraças, Que lutas de novas raças Se lhe atropellão aos pés! III. E lá na montanha deitado dormido Campeia o gigante! — nem pode acordar! Crusados os braços de ferro fundido, E a fronte nas nuvens, e os pés sobre o mar!... IV. Vio primeiro os incolas Robustos das florestas, Batendo os arcos rigidos Traçando homereas festas, À luz dos fogos rutilos, Aos sons dos murmuré! E em Guanabara esplêndida As danças dos guerreiros. E o guáu cadente e vário Dos moços prasenteiros, E os cantos da vitória Tangidos no boré. E das igaras concavas A frota aparelhada, Vistosa e formosissima Cortando a undosa estrada, Sabendo mas que fragcis Os ventos contrastar: E a caça leda e rapida Por serras, por devesas, E os cantos da janubia Junto ás lenhas accesas, Quando o tapuya mísero Scos feitos vai cantar! E o germen da discordia Crescendo em duras brigas, Ceifando os brios rusticos Das tribus sempre amigas, — Tamoy a raça antigua, Feroz Tapinambá. La vai a gente improvida, Nação vencida, imbelle, Buscando as matas invias Donde outra tribu a expelle; Jaz o pagé sem glória, Sem glória o maracá. Depois em náos flammivomas Um troço hardido e forte, Cobrindo os campos humidos De fumo, e sangue, e morte, Traz dos reparos horridos D’altissimo pavez: E do sangrento pelago Em miseras ruinas Surgir galhardas, limpidas As portuguezas quinas, Murchos os lises candidos Do impavido gaulez! V. Mudarão-se os tempos e a face da terra, Cidades alastrão o antigo paul; Mas inda o gigante que dorme na serra Se abraça ao imenso cruseiro do sul. Nas duras montanhas os membros gelados Talhados a golpes de ignoto buril, Descança, oh gigante, que encerras os fados, Que os terminos guardas do vasto Brasil Porém se algum dia fortuna inconstante Poder-nos a crença e a patria acabar, Arroja-te ás ondas, oh duro gigante, Inunda estes montes, desloca este mar!

Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte

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