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Poema

O Gigante de Pedra

Gonçalves Dias · Últimos Cantos

Gigante orgulhoso de fero semblante, N’um leito de pedra lá jaz a dormir! Em duro granito repousa o gigante Que os raios sómente podérão fundir. Dormido atalaia no serro empinado Devêra cuidoso, sanhudo velar; O raio passando o deixou fulminado, E á aurora que surge não hade acordar! Co’os braços no peito crusados nervosos, Mais alto que as nuvens, os céos a encarar, Seu corpo se estende por montes fragosos, Seus pés sobranceiros se arrojão do mar! De lavas ardentes seus membros fundidos Avultão immensos: só Deos poderá Rebelde lançal-o dos montes erguidos, Curvados ao peso que sobre lhes ’stá. E o céo, e as estrellas, e os astros fulgentes São velas, são tochas, são vivos brandões, E o branco sudario são nevoas algentes, E o crepe que o cobre são negros bulcões. Da noite que surge no manto fagueiro Quiz Deos que se erguesse, de junto a seus pés, A cruz sempre viva do sul no cruzeiro, Deitada nos braços do eterno Moysés. Perfumão-no odores que as flores exhalão, Bafejão-no carmes de um bymno de amor Dos homens, dos brutos, das nuvens que estalão, Dos ventos que rugem, do mar em furor, E lá na montanha, deitado dormido Campeia o gigante, — nem pode acordar! Crusados os braços de ferro fundido, E a fronte nas nuvens, e os pés sobre o mar!

Grafia atualizada a partir da primeira edição. · Fonte

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