Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

O Canto do Piaga

Gonçalves Dias · Primeiros Cantos (1846), pp. 15-19

O CANTO DO Piaga I. Ó Guerreiros da Taba sagrada, Ó Guerreiros da Tribu Tupi, Falam Deoses nos cantos do Piaga, Ó Guerreiros, meos cantos ouvi. Esta noite — era a lua já morta — Anhangá me vedava sonhar; Eis na horrivel caverna que habito Rouca voz comecou-me a chamar. Abro os olhos — inquieto — medroso, Manitôs! que prodigios que eu vi! Arde o páo de resina fumosa, Não fui eu ― não fui eu, que o acendi! Eis rebenta a meos pés um fantasma, Um fantasma d’imensa extensão; Liso craneo repousa a meo lado, Feia cóbra se enrosca no chão. O mco sangue gelou-se nas veias, Todo inteiro — ossos — carnes — tremi, Frio horror me côou pelos membros, Frio vento no rosto senti. Era feio — medonho — tremendo, Ó Guerreiros — o espectro que eu vi. Falam Deoses nos cantos do Piaga, Ó Guerreiros, meos cantos ouvi! II. Porque dormes, ó Piaga divino? Começou-me a Visão a falar, Porque dormes? O sacro instrumento De per si já começa a vibrar, Tu não viste nos céos um negrume Toda a face do sol ofuscar; Não ouviste a coruja, de dia, Seos estridulos torva soltar? Tu não viste dos bosques a coma Sem aragem — vergar-se — gemer, Nem a lua entre nuvens de fogo, Qual em vestes de sangue, nascer? E tu dormes, ó Piaga divino! E Anhangá te prohibe sonhar! E tu dormes, ó Piaga, e não sabes, E não podes augurios cantar?! Ouve os sons do fantasma tremendo, Ouve os sons do fiel maracá; Manitôs já fugirão da Taba! Ó desgraça ― ó ruina — ó Tupá! III. Pelas ondas do mar sem limites Basta selva — sem folhas — hi vem; Hartos troncos, robustos, gigantes; Vossas matas tais monstros contêm. Trás embira dos cimos pendente — Brenha espessa de vario cipó — Dessas brenhas contêm vossas matas, Tais e quais — mas com folhas; — é só! Negro monstro os sustenta por baixo Brancas azas abrindo ao tufão, Como um bando de candidas aves. Que nos ares pairando — lá vão. Oh! quem foi das entranhas das aguas, O marinho prodigio arrancar? Nossas terras — demanda — fareja... Esse monstro... — que vem cá buscar? Não sabeis o que o monstro procura? Não sabeis a que vem — o que quer? Vem matar vossos bravos guerreiros, Vem roubar-vos a filha ― a mulher. Vem traser-vos crueza — impiedade Dons crueis do cruel Anhangá; Vem quebrar-vos a maça valente, Profanar manitôs — maracás. Vem traser-vos algemas pesadas, Com que a tribu Tupi vai gemer, Hão de os velhos servirem de escravos, Mesmo o Piaga inda escravo há de ser. Fugireis procurando um asilo, Triste asilo por invio sertão; Anhangá de praser há de rir-se Vendo os vossos quão poucos serão. Vossos Deoses, o Piaga, conjura, Susta as iras do fero Anhangá. Manitós já fugirão da Taba, Ó desgraça — ó ruina — ó Tupá!

Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte

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