O Canto do Guerreiro
Gonçalves Dias · Primeiros Cantos (1846), pp. 11-14
I.
Aqui na floresta
Dos ventos batida,
Façanhas de bravos
Não gerão escravos,
Que estimão a vida
Sem guerra e lidar.
— Ouvi-me, Guerreiros,
— Ouvi meo cantar.
II.
Valente na guerra
Quem há como eu sou?
¿Quem vibra o tacápe
Com mais valentia,
Quem golpes daria
Fatais — como eu dou?
— Guerreiros, ouvi-me;
— Quem há como eu sou?
III.
Quem guia nos ares
A frexa implumada.
Ferindo uma preza
Com tanta certeza
Na altura arrojada
Onde eu a mandar?
— Guerreiros, ouvi-me,
— Ouvi meo cantar.
IV.
Quem tantos imigos
Em guerras preou?
¿Quem canta seos feitos.
Com mais energia,
Quem golpes daria
Fatais — como eu dou?
— Guerreiros, ouvi-me:
— Quem há como eu sou?
V.
Na caça ou na lide,
Quem la que me afronte?!
A onça raivosa
Meos passos conhece,
O imigo estremece,
E a ave medrosa
Se esconde no céo.
— Quem há mais valente,
— Mais dextro do que eu?
VI.
Se as matas strújo
Co’os sons do Boré,
Mil arcos se encurvão,
Mil setas lá vôão,
Mil gritos rebôão,
Mil homens de pé
Eis surgem — respondem
Aos sons do Boré!
— Quem é mais valente,
— Mais forte quem é?
VII.
Lá vão pelas matas;
Não fazem ruido:
O vento gemendo,
E as matas tremendo
E o triste carpido
D’uma ave a cantar.
São eles — guerreiros,
Que eu faço avançar.
VIII.
E o Piaga se ruge
No seo Maracá,
A morte lá paira
Nos ares frexados,
O campo juncado
De mortos é já:
Mil homens viverão,
Mil homens são lá.
IX.
E então se de novo
Eu tóco o Boré,
Qual fonte que salta
De rocha empinada,
Que vai marulhosa,
Fremente e queixosa,
Que a raiva apagada
De todo não é,
Tal eles se escôão
Aos sons do Boré.
— Guerreiros, dizei-me,
— Tão forte quem é?
Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte
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