Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

O Canto do Guerreiro

Gonçalves Dias · Primeiros Cantos

I. Aqui na floresta Dos ventos batida, Façanhas de bravos Não gerão escravos, Que estimão a vida Sem guerra e lidar. — Ouvi-me, Guerreiros, — Ouvi meo cantar. II. Valente na guerra Quem ha como eu sou? ¿Quem vibra o tacápe[2] Com mais valentia, Quem golpes daria Fataes — como eu dou? — Guerreiros, ouvi-me; — Quem ha como eu sou? III. Quem guia nos ares A frexa implumada. Ferindo uma preza Com tanta certeza Na altura arrojada Onde eu a mandar? — Guerreiros, ouvi-me, — Ouvi meo cantar. IV. Quem tantos imigos Em guerras preou? ¿Quem canta seos feitos. Com mais energia, Quem golpes daria Fataes — como eu dou? — Guerreiros, ouvi-me: — Quem ha como eu sou? V. Na caça ou na lide, Quem la que me affronte?! A onça raivosa Meos passos conhece, O imigo estremece, E a ave medrosa Se esconde no céo. — Quem ha mais valente, — Mais dextro do que eu? VI. Se as matas strújo Co’os sons do Boré,[3] Mil arcos se encurvão, Mil setas lá vôão, Mil gritos rebôão, Mil homens de pé Eis surgem — respondem Aos sons do Boré! — Quem é mais valente, — Mais forte quem é? VII. Lá vão pelas matas; Não fazem ruido: O vento gemendo, E as matas tremendo E o triste carpido D’uma ave a cantar. São eles — guerreiros, Que eu faço avançar. VIII. E o Piaga[4] se ruge No seo Maracá,[5] A morte lá paira Nos ares frexados, O campo juncado De mortos é já: Mil homens viverão, Mil homens são lá. IX. E então se de novo Eu tóco o Boré, Qual fonte que salta De rocha empinada, Que vai marulhosa, Fremente e queixosa, Que a raiva apagada De todo não é, Tal eles se escôão Aos sons do Boré. — Guerreiros, dizei-me, — Tão forte quem é?

Grafia atualizada a partir da primeira edição. · Fonte

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