Nênia
Gonçalves Dias · Últimos Cantos
Morreste, como a folha verde e linda,
Que não vio murcho o esmeraldino encanto;
Bem como um ai que melindroso finda,
Em quanto as faces não roreja o pranto!
Bem como a flor inda em botão ceifada,
Em quanto aromas recendia pura;
Bem como a onda, quando mal formada,
Nos brancos frisos do areal murmura!
Bem como a aurora tímida que morre,
Em quanto os céos de rosicler matisa;
Bem como o sopro de ligeira brisa,
Que entre os olores da manhã discorre!
Mimosa espr’ança do Brasil, batendo
Ás ferreas portas da existencia, viste
O mundo aflito e a humanidade triste
Seu negro fado e sua dor sofrendo!
Cheio de compaixão atraz voltaste
Do horrifico espetáculo, tapando
Com as azas do anjo o rosto brando,
E no seio do Eterno te asylaste.
Morreste como aurora sem poente,
Como flor, que perfume inda exhalava,
Como o sopro da brisa recendente,
Como a onda, que apenas se formava!
Morreste como a folha verde e bela
N’um tronco forte a despontar louça,
Não arrancada à sanha da procela,
Mas leve solta aos beijos da manhã.
Morreste! como lampada brilhante,
Inda virgem, sem dar myslica luz;
Ou turib’lo d’incenso crepitante,
Esquecido nos braços de uma cruz.
Morreste! e os anjos da eternal morada
Levárão entre palmas e capelas
Tua alma, como uma harpa não tocada,
Àquele, cujo trono é sobre estrelas,
Morreste! como aurora sem poente,
Como flor que perfume inda exhalava,
Como o sopro da brisa recendente,
Como a onda que apenas se formava.
Nenhum bulcão toldou a aurora maga,
Em quanto no horisonte apavonou-se,
A brisa em vendaval não transtornou-se;
A folha em cinza, nem a onda em vaga.
Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte
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