Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

Menina e Moça

Gonçalves Dias · Últimos Cantos

É leda a flor que desponta Sobre o talo melindroso, E o arrebento viçoso Crescendo em floreo tapiz; É doce o romper da aurora, Doce a luz da madrugada, Doce o luzir da alvorada, Doce, mimoso e feliz! É bela a virgem risonha Com seus musicos accentos, Com seus virgens pensamentos, Com seus mimos infantis; Como quanto inceta a vida, Que á luz sorri da existencia, Que tem na sua innocencia Da mocidade o verniz. Vinga a flor a pouco e pouco, Cada vez mais bem querida, Tem mais encantos, mais vida, Tem mais brilho, mais fulgor: De cada gota de orvalho Extrahe celeste perfume, E do sol no raio assume Cada vez mais viva côr. Assin á virgem mimosa, Pouco e pouco, noite e dia, Mais viva flor de poesia Do rosto lhe tinge a côr; E um anjo nos meigos sonhos, Do seu peito na dormencia Derrama o odor da innocencia, Um doce raio de amor! Porque tudo, quando nasce, Seja a luz da madrugada, Seja o romper da alvorada, Seja a virgem, seja a flor; Tem mais amor, tem mais vida, Como celeste feitura, Que sahe melindrosa e pura D’entre as mãos do creador.

Grafia atualizada a partir da primeira edição. · Fonte

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