Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

Lira Quebrada

Gonçalves Dias · Últimos Cantos

Pede cantos aos ledos passarinhos, Pede clarão ao sol, perfume as flores, Ás brisas suspirar, murmurio aos ventos, Doces querelas ao correr das fontes; E o sol, a ave, a flor, a brisa, os ventos E as fontes que murmurão docemente, Na festa da tua alma hão-de seguir-te, Como um som pelos echos repetido. Mas não peças á lyra abandonada Um alegre cantar, — já murchas pendem As grinaldas gentis de que a toucárão Donzcis louçãos, enamoradas virgens. Hoje mal partem roucos sons dos nervos, Que amargo pranto destendeu sem custo; Quem ha que se não dóe de ouvir cautados Uns versos de prazer entre soluços? Mas não peças um hymno ao triste bardo! Verde ramo d’uma arvore gigante O raio no passar queimou-lhe o viço, Deixando-o por escarneo entre verdores. Uma febre, um ardor nunca apagado, Um querer sem motivo, um tédio á vida Sem motivo também, — caprixos loucos, Anhelo d’outro mundo, d’outras coisas; Desejar coisas väs, viver de sonhos, Correr após um bem logo esquecido, Sentir amor e só topar frieza, Scismar venturas e encontrar só dores; Fizerão-me o que vês: não canto, soffro! Lyra quebrada, coração sem forças De poetico manto as you cobrindo, Por disfarçar desta arte o mal que passo. Mas se inda tens prazer á luz da aurora, Se te ameiga fitar longos instantes, Sentada á beira mar, na paz de um ermo, Uma flor, uma estrella, os céos e as nuvens; Pede canto aos ledos passarinhos, Á brisa, ao vento, á fonte que murmura; Mas não peças canções ao triste bardo, A quem té para um ai já falta o alento.

Grafia atualizada a partir da primeira edição. · Fonte

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