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Poema

Caxias

Gonçalves Dias · Últimos Cantos

Cachias, bela flôr, lyrio dos valles, Gentil senhora de mimosos campos, Como por tantos anos foste escrava, Como a indocil cerviz curvaste ao jugo? Ohl como longos anos insoffriveis, Rainha altiva, destoucada e bela, Rojaste aos pés de um regulo soberbo? Á mingoa definhaste em negro carcer, Onde um raio de sol não penetrava; Em masmorra cruel, donde não vias Scintillar o clarão d’amiga estrella... Oh! não, que a luz da esp’rança tinhas n’alma, E o sol da liberdade um dia viste, De glória e de fulgor resplandecente, Em céo sem nuvens no horisonte erguido. Eis o som do tambor atroa os valles, O clangor da trombeta, os sons das armas, A terra abalão, despertando os échos. — Eia! oh bravos, erguci-vos, — á peleja, Á fome, á sede, ás privações, — erguei-vos! Tu, Cachias, acorda, — tu, rainha, Lamina d’aço puro, envolta em ferro, Ao sol refulgirás; — flôr que esmoreces, Á mingoa d’ar, cm carcere de vidro, Em ar mais livre cobrarás alento, Graça, vida e frescor da liberdade. Antemural do lusitano arrojo, Último abrigo seu, — feros soldados, Veteranas cohortes nos teus montes Cavão bellicas tendas! — Um guerreiro, O nobre Fidié, que a antiga espada Do valor portuguez empunha hardido, No seu mando as retem: debalde, oli forte, Expões teus dias! teu esforço inutil Não susta o sol no rapido declive, Que imerge áquem dos Andes orgulhosos. D’Africa e d’Asia os desbotados louros! Eia! — o bronzeo canhão rouqueja, estoura, Ribomba o ferreo som d’um écho em outro, Nuvens de fumo e pó lá se condensão... Correi, bravos, correi!... mas tu és livre, És livre como o arbusto dos teus prados, Livre como o condor que aos céos se arroja; És livre! — mas na acesa fantasia Debuxava-me o espirito exaltado Fragoas cruas de morte, o horror da guerra Descobrir, contemplar. — Oh! fora belo Arriscar a existencia em pró da patria, Regar de rubro sangue o patrio solo, E sangue e vida abandonar por ela. Longe, delirios vãos, longe phantasmas De ardor febricitante! Á glória deste dia comparar-se Pode acaso visão, delirio, ou sonlio? Ao fausto anniversario Da nossa independencia? Acclamações altisonas Corrão nos ares da immortal Cachias: Seja padrão de glória entre nós outros Sanctificada aurora, Que os vis grilhões de escravos vio partidos.

Grafia atualizada a partir da primeira edição. · Fonte

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