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Poema

As duas coroas

Gonçalves Dias · Últimos Cantos

Ha duas c’rôas na terra, Uma d’ouro scintillante Com esmalte de diamante, Na fronte do que é senhor; Outra modesta e singela, C’rôa de meiga poesia, Que a fronte ao vate alumia Com a luz d’um resplendor. Ante a primeira se curvão Os polentados da terra: No bojo, que a morte encerra, Sobre a liquida extensão, Levão náos os seus dictames Da peleja entre os horrores; Vis escravos, crús senhores, Preito e menagem lhe dão. E quando o vate suspira Sobre esta terra maldicla, Ninguém a voz lhe acredita, Mas riem dos cantos seus: Os anjos, não; porque sabem Que essa voz é verdadeira, Que é dos homens a primeira, Em quanto a outra é de Deos! Se cu fora rei, não te dera Quinhão na regia amargura; Nem te qu’ria, virgem pura, Sentada sob o docel, Onde a dôr tão viva anceia, Tão cruel, tão funda late, Como no peito que batc Sob as dobras do burel. Não te quizera no throno, Onde a mascara do rosto, Cobrindo o interno desgosto, Ser alegre tem por lei; Manda Deos, sim, que o rei chore; Mas que chore occultamente, Porque, se o soubera a gente, Ninguém quizera ser rei! Mas o vate, quando soffre, Modula em meigos accentos, Seus doridos pensamentos, A sua interna afflicção, E das lágrimas choradas Extrahe um balsamo sancto, Que vale estancar o pranto Nos olhos do seu irmão. Se eu fora rei, não quizera Roubar-te á senda florida, Onde corre doce a vida No matutino arrebol; Gosas o sopro das brisas E o leve aroma das flores, E as nuvens, que mudão cores No nascer, no pôr do sol. Gosão disto as que repousão Em taboas de vis grabatos; Não quem vive entre os ornatos D’un throno d’ouro e marfim! No solio triste, sentada, Não viras um rosto amigo, Nem mais viveras comtigo, Fôras escrava — por fim! Vive tu teu viver simples, Mimosa e gentil donzella, D’entre todas a mais bela, Flor de candura e de amor! C’rôa melhor eu t’ofereço, D’ouro não, mas de poesia, C’rôa que a fronte alumia Com divino resplendor!

Grafia atualizada a partir da primeira edição. · Fonte

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