A Mangueira
Gonçalves Dias · Últimos Cantos
Já viste cousa mais bela
Do que uma bela mangueira,
E a doce fruta amarella,
Sorrindo entre as folhas dela,
E a leve copa altaneira?
Já viste cousa mais bela
Do que uma bela mangueira?
Nos seus alegres verdores.
Se embalança o passarinho;
Todo é graça, todo amores,
Decantando seus ardores
Á beira do casto ninho:
Nos seos alegres verdores
Se embalança o passarinho!
O cansado viandante
Á sombra dela acha abrigo;
Traz-lhe a aragem sussurrante,
Que lhe passa no semblante,
Talvez o adeos d’um amigo;
E o cançado viandante
A sombra dela acha abrigo.
A sombra que ela derrama
Todas as dôres acalma;
Seja dôr que o peito inflamma,
Ou voraz, nociva chamma
Que nos mora dentro d’alma,
A sombra que ela derrama
Todas as dôres acalma.
O mancebo namorado
Para ela se encaminha;
Bate-lhe o peito açodado,
Quando chega o praso dado,
Quando ao tronco se avisinha,
E o mancebo namorado
Para o tronco se encaminha.
Sob a copa deleitosa
Mil suspiros se entrelação,
E d’uma hora aventurosa
Guarda a prova a casca annosa
Nas cifras que ali se abração:
Sob a copa venturosa
Mil suspiros se entrelação.
Grata estação dos amores,
Abrigo dos que o não tem,
Deixa-me ouvir teos cantores,
Admirar teos verdores;
Presta-me abrigo também,
Grata estação dos amores,
Abrigo dos que o não tem.
Grafia atualizada a partir da primeira edição. · Fonte
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