A Mãe d'Água
Gonçalves Dias · Últimos Cantos
«Minha mãe, olha aqui dentro,
Olha a bela creatura,
Que dentro d’água se vê!
São d’ouro os longos cabelos,
Gentil a doce figura,
Airosa, leve a estatura;
Olha, vê no fundo d’agua
Que bela moça não é!
«Minha mãe, no fundo d’agua
Vé essa mulher tão bela?
O sorrir dos labios dela,
Inda mais doce que o teu,
É como a nuvem rosada
Que no romper da alvorada
Passa risonha no céo.
«Olha, mãe, olha depressa!
Inclina a leve cabeça
E nas mãosinhas resume
A fina trança mimosa,
E com pente de marfim!...
Olha agora que me avista
A bela moça formosa,
Como se fez toda rosa,
Toda candura e jasmim!
Dize, mãe, dize: tu julgas
Que ela se ri para mim!
«São seus labios entre-abertos
Semilhantes a romã;
Tem ares d’uma princesa,
E no entanto é tão medrosa!...
Inda mais que minha irmã.
Olha, mãe, sabes quem é
A bela moça formosa,
Que dentro d’agua se vê!»
— Tem-te, meu filho; não olhes
Na funda, lisa corrente:
A imagem que te embeleza
É mais do que uma princesa,
É menos do que é a gente.
— Oh! quantas mães desgraçadas
Chorão seus filhos perdidos!
Meu filho, sabes porque?
Foi porque derão ouvidos
À love sombra enganosa,
Que dentro d’agua se vê.
— O seu sorriso é mentira,
Não é mais que sombra vã;
Não vale aquilo que eu valho,
Nem o que val tua irmã:
É como a nuvem sem corpo
De quando rompe a manhã.
— É a mãe d’agua traidora,
Que ilude os faceis meninos,
Quando eles são pequeninos
E obedientes não são;
Olha, filho, não a escules,
Filho do meu coração:
O seu sorriso é mentira,
É terrivel tentação. —
Junto ao rio cristalino
Brincava o ledo menino,
Molhando o pé;
O fresco humor o convida,
Menos que a imagem querida,
Que n’agua vê.
Cauteloso de repente,
Ouve o concelho prudente,
Que a mãe lhe dá;
Não é anjo, não é fada,
Bas uma bruxa malvada,
E cousa má.
Ela é quem rouba os meninos
Para os tragar pequeninos,
Ou mais talvez!
E para vingar-se n’agua
Da causa tanta magoa,
Remeche os pés.
Turba a fonte n’um instante,
Já não vê o belo infante
A sombra vã,
E as brancas mãos delicadas
E as longas tranças douradas.
Da sua irmã.
O menino arrependido
Diz consigo entristecido:
— Que mal fiz eu!
Minha mãe bem que indulgente,
Só por não me ver contente,
Me repr’hendeu. —
Era figura tão bela!
E que expressão tão singela,
Que riso o seu!
Oh! minha mãe certamente
Só por não me não ver contente,
Me repr’hendeu!
Espreita, sim, mas duvida
Que a bela imagem querida
Torne a volver;
E na fonte cristalina
Para ver todo se inclina
Se a pode ver!
Acha-se ainda turbada,
E a bela moça agastada
Não quer vollar;
Sacode leve a cabeça,
Em quanto o pranto começa
A borbulhar.
E de triste e arrependido
Diz comsigo entristecido:
— Que mal fiz eu!...
Leda ao ver-me parecia,
Era boa, e me sorria ...
Que riso o seu!
As aguas no entanto de novo se aplacam,
A lisa corrente se espelha outra vez,
E a imagem querida no fundo aparece
Com mil peixes varios brincando a seus pés.
Do colo uma charpa trasia pendente,
Cortando-lhe o seio de brancos jasmins,
Um iris nas cores, e as franjas bordadas
De prata lusente, de vivos rubins.
Uma harpa a seu lado frisava a corrente
Gemendo queixosa da leve pressão,
Como harpas etéreas, que as brisas conversão,
Achando-as perdidas em mesta soidão.
Sentida, chorosa parece que estava,
E o belo menino sentado a chorar
«Perdoa, dizia-lhe, o mal que te hei feilo;
Por minha vontade não hei tornar!
A harpa dourada de subito vibra,
A charpa se agita do seio ao revez;
Das franjas garbosas as pedras refletem
Infindos luseiros nos humidos pés.
Os peixes pasmados de subito parão
No fundo lusente de puro cristal;
Fantasticos seres assomão ás grutas
Do nitido ambar, do vivo coral!
Entanto o menino se curva e se inclina
For ver mais de perto a donosa visão;
A mãe, longe dele, dizia: — Meu filho,
Não oiças, não vėjas, que é má tentação. —
«Vem meu amigo, dizia
A bela fada engraçada,
Pulsando a harpa dourada:
— Sou boa, não faço mal,
Vem ver meu belos palacios,
Meus dominios dilatados,
Meus tesouros encantados
No meu reino de cristal.
«Vem, te chamo: vê a linfa
Como é bela e cristalina;
Ve esta areia tão fina,
Que mais que a neve seduz!
Vem, verás como aqui dentro
Brincão milleves amores,
Como em listas multicores
Do sol se desfaz a luz.
«Se não achas borboletas,
Nem as vagas mariposas,
Que brincão por entre as rosas
Do teu ameno jardim;
Tens mil peixinhos brilhantes,
Mais lusentes e mais belos
Que o oiro dos meus cabelos,
Que a nitidez do setim.»
Emtanto o menino se curva e se inclina
Por ver de mais perto a donosa visão;
E a mãe longe dele, dizia: meu filho,
Não oiças, não vejas, que é má tentação.
«Vem, meu amigo, tornava
A bela fada engraçada,
Vem ver a minha morada,
O meu reino de cristal:
Não se sente a tempestade
Na minha espaçosa gruta,
Nem voz do trovão se escuta,
Nem roncos do vendaval.
«Aqui, ao findar do dia,
Tudo rapido sc acende,
E o meu palacio resplende
De vivo, etéreo clarão.
Mil figuras aparecem,
Mil donzelas encantadas
Com angelicas toadas
De ameigar o coração.
«Quando passo, as brandas aguas
Por me ver passar se afastão,
E mil estrelas se engastão
Nas paredes do cristal.
Surgem luses multicores,
Como desses perilampos,
Que tu vês andar nos campos,
Sem comtudo fazer mal.
«Quando passo, mil sereias,
Deixando as grutas limosas,
Formão ledas, pressurosas
O meu sequito real:
Vem! dar-te-hei meus palacios,
Meus dominios dilatados,
Meus tesouros encantados
E o meu reino de cristal.»
Entanto o menino se curva e se inclina
Para a visão;
E a mãe lhe dizia: Não vejas, meu filho,
Que é tentação.
E o belo menino, dizendo comsigo —
Que bem fiz eu!
Por ver o tesouro gentil, engraçado,
Que já é seu:
Atira-se ás aguas: n’um grito medonho
A mãe lastimavel — Meu filho! — bradou:
Respondem-lhe os echos, porém voz humana
Aos gritos da triste não torna: — aqui estou!
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