A Infância
Gonçalves Dias · Últimos Cantos
Belo raio do sol da existencia,
Meninice fagueira e gentil,
Doce riso de pura inocência
Sempre adorne teu rosto infantil.
Sempre tenhas, anginho inocente,
Quem se apresse em teus passos guiar,
E uma voz que o teu sono acalente,
E um sorriso no teu acordar.
Enlevada nos sonhos jocundos
Voz etérea te venha falar,
E visão d’outros céos, d’outros mundos,
Venha amiga tua alma encantar.
Leda infancia gentil! e quem não te ama?
Quem tão de pedra o coração não sente
Aos teus encantos meigos mais tranquilo?
Quem não sente memorias d’outras eras
Travarem-lhe da mente ao recordar-se
Aquele gozo puro e suavissimo
De vida, que jamais não tem logrado?
Recordações de um mundo adormecido
Lá lhe estão dentro d’alma esvoaçando,
Como harpejos de musica longinqua!
E a mente nos seus quadros embebida,
Por magica ilusão enfeitiçada,
Como outr’ora, talvez somente veja
Na terra — um chão de flores estrelado,
E nos céos — outro chão de flores vivas!
Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte
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