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Poema

Noite

Fernando Pessoa · Mensagem (1934), pp. 89-91

A nau de um d'eles tinha se perdido No mar indefinido. O segundo pediu licença ao Rei De, na fé e na lei Da descoberta ir em procura Do irmão no mar sem fim e a névoa escura. Tempo foi. Nem primeiro nem segundo Volveu do fim profundo Do mar ignoto à patria por quem dera O enigma que fizera. Então o terceiro a El-Rei rogou Licença de os buscar, e El-Rei negou. Como a um cativo, o ouvem a passar Os servos do solar. E, quando o veem, veem a figura Da febre e da amargura, Com fixos olhos rasos de ânsia Fitando a prohibida azul distancia. Senhor, os dois irmãos do nosso Nome— O Poder e o Renome — Ambos se foram pelo mar da edade À tua eternidade; E com eles de nós se foi O que faz a alma poder ser de herói, Queremos ir buscal-os, d'esta vil Nossa prisão servil: É a busca de quem somos, na distancia De nós; e, em febre de ânsia, A Deus as mãos alçamos. Mas Deus não dá licença que partamos.

Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte

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