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Poema

Flores do Mal/Hino à Beleza

Delfim Guimarães · Hino à Beleza

Vens do fundo do céu ou do abismo, ó sublime Beleza? Teu olhar, que é divino e infernal, Verte confusamente o benefício e o crime, E por isso se diz que do vinho és rival. Em teus olhos reténs uma aurora e um ocaso; Tens mais perfumes que uma noite tempestuosa; Teus beijos são um filtro e tua boca um vaso Que tornam fraco o herói e a criança corajosa. Sobes do abismo negro ou despencas de um astro? O Destino servil te segue como um cão; Semeias a desgraça e o prazer no teu rastro; Governas tudo e vais sem dar satisfação. Calcando mortos vais, Beleza, entre remoques; No teu tesoiro o Horror é uma jóia atraente, E o Assassínio, entre os teus mais preciosos berloques, Sobre o teu volume real dança amorosamente. A mariposa voando ao teu encontro ó vela, "Bendito este clarão!" diz antes que sucumba. O namorado arfante enleando a sua bela Parece um moribundo acariciando a tumba. Que tu venhas do céu ou do inferno, que importa, Beleza! monstro horrendo e ingênuo! se de ti Vêm o olhar, o sorriso, os pés, que abrem a porta De um Infinito que amo e jamais conheci? De Satã ou de Deus, que importa? Anjo ou Sereia, Se és capaz de tornar, - fada aos olhos leves, Ritmo, perfume, luz! - a vida menos feia, Menos triste o universo e os instantes mais breves?
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