O Cão do Louvre
Alexandre Herculano · Poesias (1850), pp. 311-313
Tu que passas, descobre-te! Ali dorme
O forte que morreu.
Dá ao mártir do Louvre algumas flores;
Dá pão ao seu lebreu.
Da batalha era o dia. O canhão troa:
E o livre corre à morte, e junto dele
O seu cão vai:
A mesma bala ambos feriu: o mártir
Não deploreis: o amigo seu que vive
Só pranteae!
Tristonho, sobre o forte ele se inclina,
Afagando-o e gemendo; e a ver se acorda
Põe-se a latir;
E do seu companheiro no combate
Sobre o cadaver sanguinoso o pranto
Deixa cahir.
Essa gleba guardando onde repousam
As cinzas dos heróis, nada o consola
No seu gemer;
E ao que o ameiga triste repelindo,
«Oh, que não és meu dono!―o cão parece
Tentar dizer.
Quando sobre as grinaldas de perpetuas
O matutino alvor da aurora o orvalho
Faz cintilar,
Os olhos abre vívidos, e pula
Para afagar seu dono, que ele pensa
Há de voltar!
Quando da noite a viração as c'roas
Fez ranger sobre a cruz do monumento,
Desanimou:
Ele quizera que seu dono o ouvisse;
E ladra e uiva; mas o adeus de à noite
Lá lhe faltou!
O inverno chega, e a neve, com violencia,
Cai, e branqueia, e esconde esse gelado
Leito de morte:
Ei-lo que solta um lugubre gemido,
E busca, ali deitando-se, ampara-lo
Do frio norte.
Antes que os membros lhe entorpeça o sono,
Mil tentativas para erguer a campa
Inuteis faz:
Depois comsigo diz, como ontem disse,
―Quando acordar, por certo, há de chamar-me.»
E dorme em paz.
Mas, na alta noite, em sonhos vê trincheiras,
E seu dono entre as balas encontradas
Cahir ferido:
E ouve-o que o chama com sibilo usado;
E ergue-se e corre após uma van sombra,
Dando um bramido.
É ali que ele espera horas e horas,
E saudoso murmura: ali pranteia,
E morrerá.
O seu nome qual é? Todos o ignoram.
O que o sabia, o dono seu querido,
Nunca o dirá!..
Tu que passas, descobre-te! Além dorme
O forte que morreu.
Dá ao mártir do Louvre algumas flores,
E esmola ao seu lebreu.
Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte
Frases tiradas deste poema
Estes versos andam a circular sozinhos. Aqui ficam com o poema inteiro por trás, e com a fonte à vista.
Tu que passas, descobre-te! Ali dorme O forte que morreu.
O Cão do Louvre, de Alexandre HerculanoVerificada
Dá ao mártir do Louvre algumas flores; Dá pão ao seu lebreu.
O Cão do Louvre, de Alexandre HerculanoVerificada
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