Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

Leonor (Gottfried August Bürger)

Alexandre Herculano

Ralada de ruins sonhos     Já desperta está Leonor,     E 'inda agora os céus d'oriente     Da manhan tingiu o alvor. «Guilherme, és morto?―ela exclama―     Ou trahiste a pobre amante?     Se vives, porque retardas     De te eu ver feliz instante?» Nas tropas de Friderico     Tempo havia que partira     Para a batalha de Praga,     E cartas delle quem vira? Mas a imperatriz e o rei[1]     De guerras, emfim, cansados,     Depondo os animos feros,     De paz faziam tractados. Já aos seus lares tornavam     Ambas as hostes folgando.     Cingem frentes ramos verdes;     Vem atabales rufando. E por montes e por valles     Velhos e moços chegavam,     Dando brados de alegria,     A encontrar os que voltavam. ―«Boa vinda! Adeus!―diziam     As filhas, noivas, e esposas.     E Leonor? Nenhum dos vindos     Lhe faz caricias saudosas. Por Guilherme ela pergunta;     Por qual estrada viria.     Vão trabalho; vans perguntas:     Novas delle quem sabia? Não o vê. Passaram todos...     Em furioso devaneio,     Ei-la arranca as negras tranças;     Fere crú o lindo seio. Sua mãe, correndo a ela:     ―«Valha-me Deus!―lhe bradou.―     Minha filha, pois que é isso?!»―     E entre os braços a apertou. ―«Minha mãe, perdeu-se tudo!     O mundo, tudo perdi:     De nada Deus se condoe...     Oh dor, oh pobre de mi!»― ―«Ai! Jesus venha á minha alma!     Filha, um padre-nosso resa.     Deus é pae: sempre nos ouve:     Nunca a humana dor despreza.»― ―«Minha mãe, inutil crença!     Que bens me tem feito Deus?     Padre-nossos!.. padre-nossos!..     Que importam resas aos céus?»― ―«Ai! Jesus venha á minha alma!     Pois não é quem resa ouvido?     Busca da igreja o consolo     Verás teu pesar vencido.»― ―«Mãe, oh mãe, esta amargura     Nenhum sacramento adoça:     Não sei nenhum sacramento,     Que aos mortos dar vida possa.»― ―«Filha, quem sabe se, ingrato,     Ele ás promessas faltou;     E lá na remota Hungria     Novo amor o captivou? Se, mudavel, te abandona,     Do crime o premio terá:     Do último trance na angustia     O remorso o punirá.»― ―«Morreu-me, oh mãe, a esperança.     Perdido... tudo é perdido!     Morrer, também, só me resta.     Nunca eu houvera nascido! Foge, oh sol resplandecente!     Manda a noite e os seus terrores...     Deus, oh Deus, que nunca escutas     O gemer de humanas dores.»― ―«Meu Senhor! A desditosa     Não pensa o que a lingua exprime.     Não julgues a filha tua:     Nem te lembres do seu crime. Vans paixões esquece, oh filha:     Cogita no goso eterno,     No sangue que te remiu,     E nos tormentos do inferno.»― –«O que é goso eterno, oh mãe,     E o inferno em que consiste?     Com Guilherme ha goso eterno,     Sem Guilherme o inferno existe. Sem ele, que a luz fugindo,     Se troque em nocturno horror;     Sem ele, no céu, na terra     Só conheço acerba dor!»– Assim no sangue e na mente     Furia insana lhe fervia:     Cruel chamando ao Senhor,     Mil blasphemias repetia. Desde o sol brilhar no oriente     Até que o céu se estrellava,     As mãos, louca, retorcia,     O brando seio pisava. Porém ouçamos!.. A terra     Pisa um cavallo lá fora!..     E pelos degraus da escada     Tinem sons d'espada e espóra... Ouçamos! Batem na argola     Pancadas que mal feriram...     E através das portas, claro,     Estas palavras se ouviram: ―«Oh lá, querida, abre a porta.     Dormes? Estás acordada?     Folgas em riso? Pranteias?     De mim és 'inda lembrada?»― ―«Guilherme, tu?! Na alta noite?     Tenho velado e gemido.     Quanto padeci!.. Mas, d'onde     Até 'qui tens tu corrido?!»― ―«Nós montamos á meia-noite     Só. Vim tarde, mas ligeiro,     Desde a Bohemia, e comigo     Levar-te-hei, por derradeiro.»― ―«Oh meu querido Guilherme,     Vem depressa: aqui te abriga     Entre meus braços; que o vento     Do bosque as crinas fustiga.»― ―«Rugir o deixa nos matos.     Sibilla? Sibille embora!     Não paro... que o meu ginete     Escarva o chão... tine a espóra... Nosso leito nupcial     Dista cem milhas d'aqui.     Sobraça as roupas... vem... salta     No murzelo, atrás de mi.»― «Além cem milhas, me queres     Hoje ao thalamo guiar?     Ouve... o relogio ainda soa:     Doze vezes fere o ar.»― ―«Olha em roda! A lua é clara:     Nós e os mortos bem corremos.     Aposto eu que n'um instante     Ao leito nupcial iremos?»― ―«Mas dize-me, onde é que habitas?     Como é o leito do noivado?―     «Longe, quedo, fresco, breve:     De oito taboas é formado.»― ―«Para dous?―«Para nós ambos.     Sobraça as roupas: vem cá.     Os convidados esperam:     O quarto patente está.»― Sobraçada a roupa, a bela     Para o ginete saltou,     E ao seu leal cavalleiro     Co' as alvas mãos se enlaçou. Ei-los vão! Soa a corrida.     Ei-los vão, á fula-fula!     Ginete e guerreiro arquejam:     A faisca, a pedra pula. Ui, como, á direita, á esquerda,     Ante seus olhos se escoam     Prado e selva, e do galope     Sob a ponte os sons ecchoam! ―«Tremes, cara? A lua é pura.     Depressa o morto andar usa.     Tens medo de mortos?―«Não.     Mas delles falar se escusa.»― ―«Que sons e cantos são estes?     O corvo alli remoinha!     Sons de sino? Hymnos de morte?     É morto que se avizinha!»― Era de feito um saimento,     Que andas e esquife levava:     Aos silvos de cobra em pégo     Seu canto se assemelhava. ―«Um enterro á meia-noite,     Com psalmos e com lamento,     E eu a minha noiva levo     Ao sarau do casamento? Vinde, sacristão e o coro,     O ephitalamio entoai-nos;     Vinde, abbade, e antes que entremos     No leito, a bençam lançae-nos.»― Cala o som e o canto: a tumba     Some-se: finda o clamor     A seu mando; e o tropel voa     Na pista do corredor. Sempre mais alto a corrida     Soa. Vão á fula-fula.     Ginete e guerreiro arquejam:     A faisca, a pedra pula. Como á dextra e esquerda fogem     Montes, bosques, matagaes!     Como á dextra e esquerda fogem     Cidades, villas, casais! ―«Tremes, cara? A lua é pura.     Depressa o morto usa andar.     Temes os mortos, querida?»―     ―«Ai, deixa-os lá repousar!»― ―«Olha! Ao redor de uma forca     Dançar em tropel não vês     Aereos corpos, que alvejam     Da luz da lua através? Oh lé, birbantes, aqui!     Birbantes, acompanhai-me!     Vinde. A dança do noivado     Juncto do leito dançae-me.»― E os vultos vem após logo,     Ruído imenso fazendo,     Como o furacão nas folhas     Seccas do vergel rangendo. E resoando a corrida     Ei-los vão, á fula-fula.     Ginete e guerreiro arquejam:     A faisca, a pedra pula. Para trás fugir parece     Quanto o luar alumia;     Para trás suas estrellas     Sumir o céu parecia. ―«Tremes, cara? A lua é pura.     Depressa o morto andar usa.     Temes os mortos, querida?―     ―«Ai, delles falar se escusa!»― ―«Murzelo, o gallo ouvír creio!     Breve a areia ha-de correr...     Murzelo, avia-te, voa;     Que sinto o ar do amanhecer! Nossa jornada está finda:     Ao leito nupcial chegámos:     Ligeiro os mortos caminham:     A méta final tocámos.»― D'uma porta ás grades ferreas     Á rédea solta chegaram,     E de fragil vara ao toque     Ferrolho e chave saltaram. Fugiram piando as aves:     A corrida, emfim, parára     Sobre campas. Os moimentos     Alvejam; que a noite é clara. Peça após peça, ao guerreiro     Cáe a armadura lustrosa     Em negro pó impalpavel,     Qual de isca fuliginosa. Sua cabeça era um craneo     Branco-pallido, escarnado:     Nas mãos tem fouce e ampulheta,     Triste adorno de finado. Alça-se e arqueja o ginete:     I­gneas fai­scas lançou,     E debaixo de seus pés     Abriu-se a terra, e o tragou. Dos covaes surgem phantasmas:     Feio urrar os ares corta:     Bate incerto o coração     Da donzella semimorta. Ao redor danças de espectros     Em remoinho passavam:     Canto de medonhas vozes     Era o canto que cantavam: «Aflliges-te? Oh, tem paciencia!     Não fosses com Deus audaz.     Teu corpo pertence á terra:     Á tua alma o céu dê paz.»―

Grafia atualizada a partir da primeira edição.

Partilhar

Mais poemas de Alexandre Herculano

Sabes mais sobre isto?

Se conheces outra versão, se dizem de outra maneira na tua terra, ou se encontraste um erro, diz. É assim que isto melhora.

Só publicamos depois de ler. Não guardamos o teu endereço de IP, só uma impressão digital dele para travar abuso.