Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

Leonor (Gottfried August Bürger)

Alexandre Herculano · Poesias (1850), pp. 315-326

Ralada de ruins sonhos     Já desperta está Leonor,     E 'inda agora os céus d'oriente     Da manhan tingiu o alvor. «Guilherme, és morto?―ela exclama―     Ou trahiste a pobre amante?     Se vives, porque retardas     De te eu ver feliz instante?» Nas tropas de Friderico     Tempo havia que partira     Para a batalha de Praga,     E cartas dele quem vira? Mas a imperatriz e o rei     De guerras, emfim, cansados,     Depondo os animos feros,     De paz faziam tratados. Já aos seus lares tornavam     Ambas as hostes folgando.     Cingem frentes ramos verdes;     Vem atabales rufando. E por montes e por vales     Velhos e moços chegavam,     Dando brados de alegria,     A encontrar os que voltavam. ―«Boa vinda! Adeus!―diziam     As filhas, noivas, e esposas.     E Leonor? Nenhum dos vindos     Lhe faz caricias saudosas. Por Guilherme ela pergunta;     Por qual estrada viria.     Vão trabalho; vans perguntas:     Novas dele quem sabia? Não o vê. Passaram todos...     Em furioso devaneio,     Ei-la arranca as negras tranças;     Fere crú o lindo seio. Sua mãe, correndo a ela:     ―«Valha-me Deus!―lhe bradou.―     Minha filha, pois que é isso?!»―     E entre os braços a apertou. ―«Minha mãe, perdeu-se tudo!     O mundo, tudo perdi:     De nada Deus se condoe...     Oh dor, oh pobre de mi!»― ―«Ai! Jesus venha à minha alma!     Filha, um padre-nosso resa.     Deus é pae: sempre nos ouve:     Nunca a humana dor despreza.»― ―«Minha mãe, inutil crença!     Que bens me tem feito Deus?     Padre-nossos!.. padre-nossos!..     Que importam resas aos céus?»― ―«Ai! Jesus venha à minha alma!     Pois não é quem resa ouvido?     Busca da igreja o consolo     Verás teu pesar vencido.»― ―«Mãe, oh mãe, esta amargura     Nenhum sacramento adoça:     Não sei nenhum sacramento,     Que aos mortos dar vida possa.»― ―«Filha, quem sabe se, ingrato,     Ele ás promessas faltou;     E lá na remota Hungria     Novo amor o cativou? Se, mudavel, te abandona,     Do crime o premio terá:     Do último trance na angustia     O remorso o punirá.»― ―«Morreu-me, oh mãe, a esperança.     Perdido... tudo é perdido!     Morrer, também, só me resta.     Nunca eu houvera nascido! Foge, oh sol resplandecente!     Manda a noite e os seus terrores...     Deus, oh Deus, que nunca escutas     O gemer de humanas dores.»― ―«Meu Senhor! A desditosa     Não pensa o que a lingua exprime.     Não julgues a filha tua:     Nem te lembres do seu crime. Vans paixões esquece, oh filha:     Cogita no gozo eterno,     No sangue que te remiu,     E nos tormentos do inferno.»― –«O que é gozo eterno, oh mãe,     E o inferno em que consiste?     Com Guilherme há gozo eterno,     Sem Guilherme o inferno existe. Sem ele, que a luz fugindo,     Se troque em noturno horror;     Sem ele, no céu, na terra     Só conheço acerba dor!»– Assim no sangue e na mente     Furia insana lhe fervia:     Cruel chamando ao Senhor,     Mil blasfémias repetia. Desde o sol brilhar no oriente     Até que o céu se estrelava,     As mãos, louca, retorcia,     O brando seio pisava. Porém ouçamos!.. A terra     Pisa um cavalo lá fora!..     E pelos degraus da escada     Tinem sons d'espada e espóra... Ouçamos! Batem na argola     Pancadas que mal feriram...     E através das portas, claro,     Estas palavras se ouviram: ―«Oh lá, querida, abre a porta.     Dormes? Estás acordada?     Folgas em riso? Pranteias?     De mim és 'inda lembrada?»― ―«Guilherme, tu?! Na alta noite?     Tenho velado e gemido.     Quanto padeci!.. Mas, d'onde     Até 'qui tens tu corrido?!»― ―«Nós montamos à meia-noite     Só. Vim tarde, mas ligeiro,     Desde a Bohemia, e comigo     Levar-te-hei, por derradeiro.»― ―«Oh meu querido Guilherme,     Vem depressa: aqui te abriga     Entre meus braços; que o vento     Do bosque as crinas fustiga.»― ―«Rugir o deixa nos matos.     Sibila? Sibille embora!     Não paro... que o meu ginete     Escarva o chão... tine a espóra... Nosso leito nupcial     Dista cem milhas d'aqui.     Sobraça as roupas... vem... salta     No murzelo, atrás de mi.»― «Além cem milhas, me queres     Hoje ao tálamo guiar?     Ouve... o relogio ainda soa:     Doze vezes fere o ar.»― ―«Olha em roda! A lua é clara:     Nós e os mortos bem corremos.     Aposto eu que n'um instante     Ao leito nupcial iremos?»― ―«Mas dize-me, onde é que habitas?     Como é o leito do noivado?―     «Longe, quedo, fresco, breve:     De oito taboas é formado.»― ―«Para dous?―«Para nós ambos.     Sobraça as roupas: vem cá.     Os convidados esperam:     O quarto patente está.»― Sobraçada a roupa, a bela     Para o ginete saltou,     E ao seu leal cavaleiro     Co' as alvas mãos se enlaçou. Ei-los vão! Soa a corrida.     Ei-los vão, à fula-fula!     Ginete e guerreiro arquejam:     A faisca, a pedra pula. Ui, como, à direita, à esquerda,     Ante seus olhos se escoam     Prado e selva, e do galope     Sob a ponte os sons ecoam! ―«Tremes, cara? A lua é pura.     Depressa o morto andar usa.     Tens medo de mortos?―«Não.     Mas deles falar se escusa.»― ―«Que sons e cantos são estes?     O corvo ali remoinha!     Sons de sino? Hymnos de morte?     É morto que se avizinha!»― Era de feito um saimento,     Que andas e esquife levava:     Aos silvos de cobra em pego     Seu canto se assemelhava. ―«Um enterro à meia-noite,     Com psalmos e com lamento,     E eu a minha noiva levo     Ao sarau do casamento? Vinde, sacristão e o coro,     O epitalâmio entoai-nos;     Vinde, abade, e antes que entremos     No leito, a bençam lançae-nos.»― Cala o som e o canto: a tumba     Some-se: finda o clamor     A seu mando; e o tropel voa     Na pista do corredor. Sempre mais alto a corrida     Soa. Vão à fula-fula.     Ginete e guerreiro arquejam:     A faisca, a pedra pula. Como à dextra e esquerda fogem     Montes, bosques, matagais!     Como à dextra e esquerda fogem     Cidades, vilas, casais! ―«Tremes, cara? A lua é pura.     Depressa o morto usa andar.     Temes os mortos, querida?»―     ―«Ai, deixa-os lá repousar!»― ―«Olha! Ao redor de uma forca     Dançar em tropel não vês     Aereos corpos, que alvejam     Da luz da lua através? Oh lé, birbantes, aqui!     Birbantes, acompanhai-me!     Vinde. A dança do noivado     Junto do leito dançae-me.»― E os vultos vem após logo,     Ruído imenso fazendo,     Como o furacão nas folhas     Secas do vergel rangendo. E resoando a corrida     Ei-los vão, à fula-fula.     Ginete e guerreiro arquejam:     A faisca, a pedra pula. Para trás fugir parece     Quanto o luar alumia;     Para trás suas estrelas     Sumir o céu parecia. ―«Tremes, cara? A lua é pura.     Depressa o morto andar usa.     Temes os mortos, querida?―     ―«Ai, deles falar se escusa!»― ―«Murzelo, o galo ouvir creio!     Breve a areia há de correr...     Murzelo, avia-te, voa;     Que sinto o ar do amanhecer! Nossa jornada está finda:     Ao leito nupcial chegámos:     Ligeiro os mortos caminham:     A méta final tocámos.»― D'uma porta ás grades ferreas     À rédea solta chegaram,     E de fragil vara ao toque     Ferrolho e chave saltaram. Fugiram piando as aves:     A corrida, emfim, parára     Sobre campas. Os moimentos     Alvejam; que a noite é clara. Peça após peça, ao guerreiro     Cáe a armadura lustrosa     Em negro pó impalpavel,     Qual de isca fuliginosa. Sua cabeça era um craneo     Branco-pálido, escarnado:     Nas mãos tem fouce e ampulheta,     Triste adorno de finado. Alça-se e arqueja o ginete:     I­gneas fai­scas lançou,     E debaixo de seus pés     Abriu-se a terra, e o tragou. Dos covais surgem fantasmas:     Feio urrar os ares corta:     Bate incerto o coração     Da donzela semimorta. Ao redor danças de espetros     Em remoinho passavam:     Canto de medonhas vozes     Era o canto que cantavam: «Afliges-te? Oh, tem paciencia!     Não fosses com Deus audaz.     Teu corpo pertence à terra:     À tua alma o céu dê paz.»―

Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte

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