Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

Satânia

Olavo Bilac · Sarças de Fogo

................................................ Nua, de pé, solto o cabelo às costas, Sorri. Na alcova perfumada e quente, Pela janela, como um rio enorme De áureas ondas tranqüilas e impalpáveis, Profusamente a luz do meio-dia Entra e se espalha palpitante e viva. Entra, parte-se em feixes rutilantes, Aviva as cores das tapeçarias, Doura os espelhos e os cristais inflama. Depois, tremendo, como a arfar, desliza Pelo chão, desenrola-se, e, mais leve, Como uma vaga preguiçosa e lenta, Vem lhe beijar a pequenina ponta Do pequenino pé macio e branco. Sobe... cinge-lhe a perna longamente; Sobe... - e que volta sensual descreve Para abranger todo o quadril! - prossegue. Lambe-lhe o ventre, abraça-lhe a cintura, Morde-lhe os bicos túmidos dos seios, Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo Da axila, acende-lhe o coral da boca, E antes de se ir perder na escura noite, Na densa noite dos cabelos negros, Para confusa, a palpitar, diante Da luz mais bela dos seus grandes olhos. E aos mornos beijos, às carícias ternas Da luz, cerrando levemente os cílios, Satânia os lábios úmidos encurva, E da boca na púrpura sangrenta Abre um curto sorriso de volúpia... Corre-lhe à flor da pele um calefrio; Todo o seu sangue, alvoroçado, o curso Apressa; e os olhos, pela fenda estreita Das abaixadas pálpebras radiando, Turvos, quebrados, lânguidos, contemplam, Fitos no vácuo, uma visão querida... Talvez ante eles, cintilando ao vivo Fogo do ocaso, o mar se desenrole: Tingem-se as águas de um rubor de sangue, Uma canoa passa... Ao largo oscilam Mastros enormes, sacudindo as flâmulas... E, alva e sonora, a murmurar, a espuma Pelas areias se insinua, o limo Dos grosseiros cascalhos prateando... Talvez ante eles, rígidas e imóveis, Vicem, abrindo os leques, as palmeiras: Calma em tudo. Nem serpe sorrateira Silva, nem ave inquieta agita as asas. E a terra dorme num torpor, debaixo De um céu de bronze que a comprime e estreita... Talvez as noites tropicais se estendam Ante eles: infinito firmamento, Milhões de estrelas sobre as crespas águas De torrentes caudais, que, esbravejando, Entre altas serras surdamente rolam... Ou talvez, em países apartados, Fitem seus olhos uma cena antiga: Tarde de Outono. Uma tristeza imensa Por tudo. A um lado, à sombra deleitosa Das tamareiras, meio adormecido, Fuma um árabe. A fonte rumoreja Perto. À cabeça o cântaro repleto, Com as mãos morenas suspendendo a saia, Uma mulher afasta-se, cantando. E o árabe dorme numa densa nuvem De fumo... E o canto perde-se à distância... E a noite chega, tépida e estrelada... Certo, bem doce deve ser a cena Que os seus olhos extáticos ao longe, Turvos, quebrados, lânguidos, contemplam. Há pela alcova, entanto, um murmúrio De vozes. A princípio é um sopro escasso, Um sussurrar baixinho.. . Aumenta logo: É uma prece, um clamor, um coro imenso De ardentes vozes, de convulsos gritos. É a voz da Carne, é a voz da Mocidade, - Canto vivo de força e de beleza, Que sobe desse corpo iluminado... Dizem os braços: "- Quando o instante doce Há de chegar, em que, à pressão ansiosa Destes laços de músculos sadios, Um corpo amado vibrará de gozo? -" E os seios dizem: "- Que sedentos lábios, Que ávidos lábios sorverão o vinho Rubro, que temos nestas cheias taças? Para essa boca que esperamos, pulsa Nestas carnes o sangue, enche estas veias, E entesa e apruma estes rosados bicos... -" E a boca: "- Eu tenho nesta fina concha Pérolas níveas do mais alto preço, E corais mais brilhantes e mais puros Que a rubra selva que de um tino manto Cobre o fundo dos mares da Abissínia... Ardo e suspiro! Como o dia tarda Em que meus lábios possam ser beijados, Mais que beijados: possam ser mordidos -" ......................................................... ......................................................... Mas, quando, enfim, das regiões descendo Que, errante, em sonhos percorreu, Satânia Olha-se, e vê-se nua, e, estremecendo, Veste-se, e aos olhos ávidos do dia Vela os encantos, - essa voz declina Lenta, abafada, trêmula... Um barulho De linhos frescos, de brilhantes sedas Amarrotadas pelas mãos nervosas, Enche a alcova, derrama-se nos ares... E, sob as roupas que a sufocam, inda Por largo tempo, a soluçar, se escuta Num longo choro a entrecortada queixa Das deslumbrantes carnes escondidas...

Grafia atualizada a partir da primeira edição. · Fonte

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