O feiticismo dos poetas brasileiros
Olavo Bilac · Ultimas conferencias e discursos (1924)
O que eu adoro em ti não são teus olhos,
Teus lindos olhos cheios de mistério,
Por cujo brilho os homens deixariam
Da terra inteira o mais soberbo império;
O que eu adoro em ti não são teus labios
Onde perpetua juventude mora,
E encerram mais perfumes do que os valles
Por entre as pompas festivaes da aurora;
O que eu adoro em ti não é teu rosto,
Perante o qual o marmor descorara,
E ao contemplar a esplendida harmonia
Phidias, o mestre, o seu cinzel quebrara;
O que eu adoro em ti não é teu colo,
Mais belo que o da esposa israelita,
Torre de graças, encantado asylo,
Onde o igneo genio das paixões habita;
O que eu adoro em ti não são teus seios,
Alvas pombinhas que dormindo gemem,
E do indiscreto vôo de uma abelha
Cheias de medo em seu abrigo tremem;
O que eu adoro em ti — ouve! — é tua alma,
Pura como o sorrir de uma criança,
Alheia ao mundo, alheia aos preconceitos,
Rica de crenças, rica de esperanças...
Grafia atualizada a partir da primeira edição. · Fonte
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