Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

Delenda Carthago!

Olavo Bilac · Panóplias

Fulge e dardeja o sol nos amplos horizontes Do céu da África. Ao largo, em plena luz, dos montes Destacam-se os perfis. Tremulamente ondeia, Vasto oceano de prata, a requeimada areia. O ar, pesado, sufoca. E, desfraldando ovantes Das bandeiras ao vento as pregas ondulantes, Desfilam as legiões do exército romano Diante do general Cipião Emiliano. Tal soldado sopesa a dava de madeira; Tal, que a custo sofreia a cólera guerreira, Maneja a bipenata e rude machadinha. Este, à ilharga pendente, a rútila bainha Leva do gládio. Aquele a poderosa maça Carrega, e às largas mãos a ensaia. A custo passa, Curvado sob o peso e de fadiga aflando, De guerreiros um grupo, os aríetes levando. Brilham em confusão cristados capacetes. Cavaleiros, contendo os ardidos ginetes, Solta a clâmide ao ombro, ao braço afivelado O côncavo broquel de cobre cinzelado, Brandem o pílum no ar. Ressona, a espaços, rouca, A bélica bucina. A tuba cava à boca Dos eneatores troa. Hordas de sagitários Vêem-se, de arco e carcás armados. O ouro e os vários Ornamentos de prata embutem-se, em tauxias De um correto lavor, nas armas luzidias Dos generais. E, ao sol, que, entre nuvens, cintila, Em torno de Cartago o exército desfila. Mas, passada a surpresa, às pressas, a cidade Aos escravos cedera armas e liberdade, E era toda rumor e agitação. Fundindo Todo o metal que havia, ou, céleres, brunindo Espadas e punhais, capacetes e lanças, Viam-se a trabalhar os homens e as crianças. Heróicas, abafando os soluços e as queixas, As mulheres, tecendo os fios das madeixas, Cortavam-nas. Cobrindo espáduas deslumbrantes, Cercando a carnação de seios palpitantes Como véus de veludo, e provocando beijos, Excitaram paixões e lúbricos desejos Essas tranças da cor das noites tormentosas... Quantos lábios, ardendo em sedes luxuriosas, As tocaram outrora entre febris abraços!.. Tranças que tanta vez - frágeis e doces laços! - Foram cadeias de ouro invencíveis, prendendo Almas e corações, - agora, distendendo Os arcos, despedindo as setas aguçadas, Iam levar a morte... - elas, que, perfumadas, Outrora tanta vez deram a vida e o alento Aos presos corações!... Triste, entretanto, lento, Ao pesado labor do dia sucedera O silêncio noturno. A treva se estendera: Adormecera tudo. E, no outro dia, quando Veio de novo o sol, e a aurora, rutilando, Encheu o firmamento e iluminou a terra, A luta começou.

Grafia atualizada a partir da primeira edição. · Fonte

Partilhar

Mais poemas de Olavo Bilac

Sabes mais sobre isto?

Se conheces outra versão, se dizem de outra maneira na tua terra, ou se encontraste um erro, diz. É assim que isto melhora.

Só publicamos depois de ler. Não guardamos o teu endereço de IP, só uma impressão digital dele para travar abuso.