Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

A Tentação de Xenócrates

Olavo Bilac · Sarças de Fogo

I Nada turbava aquela vida austera: Calmo, traçada a túnica severa, Impassível, cruzando a passos lentos As aléias de plátanos, - dizia Das faculdades da alma e da teoria De Platão aos discípulos atentos. Ora o viam perder-se, concentrado, No labirinto escuso de intricado, Controverso e sofístico problema, Ora os pontos obscuros explicando Do Timeu, e seguro manejando A lâmina bigúmea do dilema. Muitas vezes, nas mãos pousando a fronte, Com o vago olhar perdido no horizonte, Em pertinaz meditação ficava. Assim, junto às sagradas oliveiras, Era imoto seu corpo horas inteiras, Mas longe dele o espírito pairava. Longe, acima do humano fervedouro, Sobre as nuvens radiantes, Sobre a planície das estrelas de ouro; Na alta esfera, no páramo profundo Onde não vão, errantes, Bramir as vozes das paixões do mundo: Aí, na eterna calma, Na eterna luz dos céus silenciosos, Voa, abrindo, sua alma As asas invisíveis, E interrogando os vultos majestosos Dos deuses impassíveis... E a noite desce, afuma o firmamento... Soa somente, a espaços, O prolongado sussurrar do vento... E expira, às luzes últimas do dia, Todo o rumor de passos Pelos ermos jardins da Academia. E, longe, luz mais pura Que a extinta luz daquele dia morto Xenócrates procura: - Imortal claridade, Que é proteção e amor, vida e conforto, Porque é a luz da verdade. II Ora Laís, a siciliana escrava Que Apeles seduzira, amada e bela Por esse tempo Atenas dominava... Nem o frio Demóstenes altivo Lhe foge o império: dos encantos dela Curva-se o próprio Diógenes cativo. Não é maior que a sua a encantadora Graça das formas nítidas e puras Da irresistível Diana caçadora; Há nos seus olhos um poder divino; Há venenos e pérfidas doçuras Na fita de seu lábio purpurino; Tem nos seios - dois pássaros que pulam Ao contacto de um beijo, - nos pequenos Pés, que as sandálias sôfregas osculam. Na coxa, no quadril, no torso airoso, Todo o primor da calipígia Vênus - Estátua viva e esplêndida do Gozo. Caem-lhe aos pés as pérolas e as flores, As dracmas de ouro, as almas e os presentes, Por uma noite de febris ardores. Heliastes e Eupátridas sagrados, Artistas e Oradores eloqüentes Leva ao carro de glória acorrentados... E os generais indômitos, vencidos, Vendo-a, sentem por baixo das couraças Os corações de súbito feridos. III Certa noite, ao clamor da festa, em gala, Ao som contínuo das lavradas taças Tinindo cheias na espaçosa sala, Vozeava o Ceramico, repleto De cortesãs e flores. As mais belas Das heteras de Samos e Mileto Eram todas na orgia. Estas bebiam, Nuas, à deusa Ceres. Longe, aquelas Em animados grupos discutiam. Pendentes no ar, em nuvens densas, vários Quentes incensos índicos queimando, Oscilavam de leve os incensários. Tíbios flautins finíssimos gritavam; E, as curvas harpas de ouro acompanhando, Crótalos claros de metal cantavam... O espúmeo Chipre as faces dos convivas Acendia. Soavam desvairados Febris acentos de canções lascivas. Via-se a um lado a pálida Frinéia, Provocando os olhares deslumbrados E os sensuais desejos da assembléia. Laís além falava: e, de seus lábios Suspensos, a beber-lhe a voz maviosa, Cercavam-na Filósofos e Sábios. Nisto, entre a turba, ouviu-se a zombeteira Voz de Aristipo: "És bela e poderosa, Laís! mas, por que sejas a primeira, A mais irresistível das mulheres, Cumpre domar Xenócrates! És bela... Poderás fasciná-lo se o quiseres! Doma-o, e serás rainha!" Ela sorria. E apostou que, submisso e vil, naquela Mesma noite a seus pés o prostraria. Apostou e partiu... IV Na alcova muda e quieta, Apenas se escutava Leve, a areia, a cair no vidro da ampulheta... Xenócrates velava. Mas que harmonia estranha, Que sussurro lá fora! Agita-se o arvoredo Que o límpido luar serenamente banha: Treme, fala em segredo... As estrelas, que o céu cobrem de lado a lado, A água ondeante dos lagos Fitam, nela espalhando o seu clarão dourado, Em timidos afagos. Solta um pássaro o canto. Há um cheiro de carne à beira dos caminhos... E acordam ao luar, como que por encanto, Estremecendo, os ninhos... Que indistinto rumor! Vibram na voz do vento Crebros, vivos arpejos. E vai da terra e vem do curvo firmamento Um murmurar de beijos. Com as asas de ouro, em roda Do céu, naquela noite úmida e clara, voa Alguém que a tudo acorda e a natureza toda De desejos povoa: É a Volúpia que passa e no ar desliza; passa, E os coraçóes inflama... Lá vai! E, sobre a terra, o amor, da curva taça Que traz às mãos, derrama. E entretanto, deixando A alva barba espalhar-se em rolos sobre o leito, Xenócrates medita, as magras mãos cruzando Sobre o escamado peito. Cisma. E tão aturada é a cisma em que flutua Sua alma, e que a regiões ignotas o transporta, - Que não sente Lais, que surge seminua Da muda alcova à porta. V É bela assim! Desprende a clâmide! Revolta, Ondeante, a cabeleira, aos níveos ombros solta, Cobre-lhe os seios nus e a curva dos quadris, Num louco turbilhão de áureos fios subtis. Que fogo em seu olhar! Vê-lo é a seus pés prostrada A alma ter suplicante, em lágrimas banhada, Em desejos acesa! Olhar divino! Olhar Que encadeia, e domina, e arrasta ao seu altar Os que morrem por ela, e ao céu pedem mais vida, Para tê-la por ela inda uma vez perdida! Mas Xenócrates cisma... É em vão que, a prumo, o sol Desse olhar abre a luz num radiante arrebol... Em vão! Vem tarde o sol! Jaz extinta a cratera, Não há vida, nem ar, nem luz, nem primavera: Gelo apenas! E, em gelo envolto, ergue o vulcão Os flancos, entre a névoa e a opaca cerração... Cisma o sábio. Que importa aquele corpo ardente Que o envolve, e enlaça, e prende, e aperta loucamente? Fosse cadáver frio o mundo ancião! talvez Mais sentisse o calor daquela ebúrnea tez!... Em vão Laís o abraça, e o nacarado lábio Chega-lhe ao lábio frio... Em vão! Medita o sábio, E nem sente o calor desse corpo que o atrai, Nem o aroma febril que dessa boca sai. E ela: "Vivo não és! Jurei domar um homem, Mas de beijos não sei que a pedra fria domem!" Xenócrates, então, do leito levantou O corpo, e o olhar no olhar da cortesã cravou: "Pode rugir a carne... Embora! Dela acima Paira o espírito ideal que a purifica e anima: Cobrem nuvens o espaço, e, acima do atro véu Das nuvens, brilha a estrela iluminando o céu!" Disse. E outra vez, deixando A alva barba espalhar-se em rolos sobre o leito, Quedou-se a meditar, as magras mãos cruzando Sobre o escamado peito.

Grafia atualizada a partir da primeira edição. · Fonte

Partilhar

Mais poemas de Olavo Bilac

Sabes mais sobre isto?

Se conheces outra versão, se dizem de outra maneira na tua terra, ou se encontraste um erro, diz. É assim que isto melhora.

Só publicamos depois de ler. Não guardamos o teu endereço de IP, só uma impressão digital dele para travar abuso.