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Poema

A Morte de Tapir

Olavo Bilac · Panóplias

Uma coluna de ouro e púrpuras ondeantes Subia o firmamento. Acesos véus, radiantes Rubras nuvens, do sol à viva luz, do poente Vinham, soltas, correr o espaço resplendente. Foi a essa hora, - às mãos o arco possante, à cinta Do leve enduape a tanga em várias cores tinta, A aiucara ao pescoço, o canitar à testa, - - Que Tapir penetrou o seio da floresta. Era de vê-lo assim, com o vulto enorme ao peso Dos anos acurvado, o olhar faiscando aceso, Firme o passo apesar da extrema idade, e forte. Ninguém, como ele, em face, altivo e hercúleo, a morte Tantas vezes fitou... Ninguém, como ele, o braço Erguendo, a lança aguda atirava no espaço. Quanta vez, do uapi ao rouco troar, ligeiro Como a corça, ao rugir do estrépito guerreiro O tacape brutal rodando no ar, terrível, Incólume, vibrando os golpes, - insensível Às preces, ao clamor dos gritos, surdo ao pranto Das vitimas, - passou, como um tufão, o espanto, O extermínio, o terror atras de si deixando! Quanta vez do inimigo o embate rechaçando Por si só, foi seu peito uma muralha erguida, Em que vinha bater e quebrar-se vencida De uma tribo contrária a onda medonha e bruta! Onde um pulso que, tal como seu pulso, à luta Costumado, um por um, ao chão arremessasse Dez combatentes? Onde um arco, que atirasse Mais célere, a zunir, a fina flecha ervada? Quanta vez, a vagar na floresta cerrada, Peito a peito lutou com as fulvas onças bravas, E as onças a seus pés tombaram, como escravas, Nadando em sangue quente, e, em roda, o eco infinite Despertando, ao morrer, com o derradeiro grito!.. Quanta vez! E hoje velho, hoje abatido!

Grafia atualizada a partir da primeira edição. · Fonte

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