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Poema

Hontem pos-se a sol

Bernardim Ribeiro · Hontem pos-se a sol

Ontem pos-se a sol, e a noute cobriu de sombra esta terra. Agora é já outro dia, tudo toma, toma o sol; só foi a minha vontade para não tomar co tempo! Todalas coisas, per tempo, passam, como dia e noute; ua só, minha vontade, nam, que a dor comigo a aterra; nela cuido enquanto ha sol, nela em quanto não há dia. Mal quero per um só dia a todo outro dia e tempo, que a mim pôs-se-me o sol onde eu só temia a noute; tenho a mim sobre a terra, debaxo minha vontade. Dentro na minha vontade nam ha momento no dia que nam seja tudo terra; ora ponho a culpa ao tempo, ora a tomo a pôr à noute: no milhor, pôs-se-me o sol! Primeiro não haverá sol que eu descanse na vontade. Pôs-se-me hua escura noute sobre a lembrança de um dia, Inda mal porque houve tempo e porque tudo foi terra. Haver de ser tudo terra quanto ha debaxo de sol me descansa, porque o tempo me vingará da vontade: se nam que antes deste dia ha de passar tanta noute!

Grafia atualizada a partir da primeira edição. · Fonte

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