Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

Ao longo de uma ribeira

Bernardim Ribeiro · (Ao longo da ribeira)

Ao longo da ribeira que vai polo pé da serra, onde me a mim fez a guerra grande tempo grande amor, me levou a minha dor. Já era a tarde do dia, e a água dela corria por antre um alto arvoredo onde, às vezes, ia quedo o rio, e às vezes, não. Entrada era do verão, quando começam as aves com seus cantares suaves fazer tudo gracioso. Ao rugido saudoso das águas cantavam elas: todalas minhas querelas se me puseram diante. Ali morrer quisera ante que vir por onde passei. Mas, como digo eu “passei”? Antes nunca hei de passar enquanto i houver pesar, que sempre o i há de haver. As águas, que de correr não cessavam um só momento, me trouxeram ao pensamento que assi eram minhas mágoas, donde sempre correm águas por estes olhos mesquinhos que têm abertos caminhos polo meio do meu rosto. E já não tenho outro gosto na grande desdita minha. O qu’eu cuidava que tinha foi-se-me assi, não sei como, donde eu certa crença tomo que pera me deixar veio. Mas tendo-me assi alheio de mim o que ali cuidava, da banda donde a água estava vi um homem todo cão, que lhe dava polo chão a barba e o cabelo. Ficando eu pasmado em vê-lo, olhando ele pera mim, falou-me, e disse assim: “Também vai esta água ao Tejo”. Nisto olhei, vi o meu desejo estar detrás, triste, só, todo coberto de dó, chorando sem dizer nada, a cara em sangue lavada, na boca posta ũa mão, como que a grande paixão força em calar-se fazia. O velho, que tudo via, vendo-me também chorar, começou assi a falar: “Eu mesmo são teu cuidado que noutra terra criado nesta primeiro nasci, e estoutro que está aqui por ti soubeste o que é. Por teu mal viste-o, porque nunca te ele esquecerá: a terra ao mar passará primeiro qu’a mágoa em ti Quando lhe eu aquisto ouve soltei suspiros ao choro. Ali caramente o foro meus olhos tristes pagaram do bem só que eles olharam que outro nunca mais tiver nem no tive, nem mo deram nem no espero tão-somente De só ver fui tão contente que pera mais esperar nunca me deram lugar olhos com que vos olhei, vivos, como desejei, como nunca vos vi ora. Mas nisto, acompanhando meus olhos tristes, olhando daquelas bandas d’além, olhei e não vi ninguém. Dei então a caminhar io abaixo, até o lugar onde cerca o monte mor que todos os derredor da banda do meio-dia. Ali minha fantasia, d’antre uns medonhos penedos donde aves que fazem medos de noite os dias vão ter, me saiu a receber com ũa mulher polo braço, que ao parecer, de cansaço, não se tinha já em si, dizendo-me: “Vês aqui a triste lembrança tua.” Minha vista então na sua pus, e dela toda a enchi: a prima coisa que vi e a derradeira também neste mundo e no que vem. Seus verdes olhos rasgados, de lágrimas carregados, ogo, em vendo-os, pareciam que algũas delas corriam contino polas suas faces que foram grão tempo pazes antre mim e meus cuidados. Louros cabelos ondados que um negro manto cobria, na tristeza parecia que lhe convinha morrer. Os seus olhos, de me ver, como furtados tirou; depois em cheio me olhou seus alvos peitos rasgando e, a fala espedaçando, em voz disse alta e dorida “Pois houve morte na vida pera que houve aí viver?” Calou-se, sem mais dizer. E, de mim, gemidos dando fui-me pera ela chorando pera [a] haver de consolar Nisto pôs-se o sol e o ar, e cerrou-se a noite escura. E disse “Mal à ventura e à vida, que não morri.” E muito longe dali ouvi, como d’alto outeiro, chamar “Bernardim Ribeiro e dizer “Olha onde estás!” Olhei diante e detrás e vi tudo escuridão. Cerrei meus olhos então e nunca os mais abri, e, depois que o ver perdi, nunca vi tamanho bem. Porém, inda mal, porém.

Grafia atualizada a partir da primeira edição. · Fonte

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