Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

Retrato

Almeida Garrett · Folhas Caídas

Ah!, despreza o meu retrato Que lhe eu queria aqui pôr! Tem medo que lhe desfeie O seu livro de primor? Pois saiba que por despique Eu sei também ser pintor: Co'esta pena por pincel, E a tinta do meu tinteiro, Vou fazer o seu retrato Aqui já de corpo inteiro. Vamos a isto. - Sentada Na cadeira moyen âge, O cabelo en[1] châtelaines, As mangas soltas. - É o traje. Em longas pregas negras Caia o veludo e arraste; De si com desdém régio Com o pezinho o afaste ... Nessa atitude! Está bem: Agora mais um jeitinho; A airosa cabeça a um lado E o lindo pé no banquinho. Aqui estão os contornos, são estes, Nem Daguerre lhos tira melhor. Este é o ar, esta a pose, eu lho juro, E o trajar que lhe fica melhor. Vamos agora ao difícil: Tirar feição por feição; Entendê-las, que é o ponto, E dar-lhe a justa expressão. Os olhos são cor da noite, Da noite em seu começar, Quando inda é jovem, incerta, E o dia vem de acabar; Têm uma luz que vai longe, Que faz gosto de queimar: É uma espécie de lume Que serve só de abrasar. Na boca há um sorriso amável. Amável é... mas queria Saber se é todo bondade Ou se meio é zombaria. Ninguém mo diz? O retrato Incompleto ficará, Que nestas duas feições Todo o ser, toda a alma está. Pois fiel como um espelho É tudo o que nele fiz, E o que lhe falta - que é muito, Também o espelho o não diz.

Grafia atualizada a partir da primeira edição. · Fonte

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