Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

No lumiar

Almeida Garrett · Folhas Caídas

Era um dia de Abril; a Primavera Mostrava apenas seu virgíneo seio Entre a folhagem tenra; não vencera, De todo, o Sol o misterioso enleio Da névoa rara e fina que estendera A manhã sobre as flores; o gorjeio Das aves inda tímido e infantil... Era um dia de Abril. E nós íamos lentos passeando De vergel em vergel, no descuidado Sossego d'alma que se está lembrando Das lutas do passado, Das vagas incertezas do porvir. E eu não cansava de admirar, de ouvir, Porque era grande, um grande homem deveras Aquele duque - ali maior ainda, Ali no seu Lumiar, entre as sinceras Belezas desse parque, entre essas flores, A qual mais bela e de mais longe vinda Esmaltar de mil cores Bosque, jardim, e as relvas tão mimosas, Tão suaves ao pé - muito há cansado De pisar alcatifas ambiciosas, De tropeçar no perigoso estrado Das vaidades da Terra. E o velho duque, o velho homem de Estado, Ao falar dessa guerra Distante - e das paixões da humanidade, Sorria malicioso Daquele sorrir fino sem maldade, Que tão seu era, que, entre desdenhoso E benévolo, a quanto lhe saía Dos lábios dava um cunho de nobreza, De razão superior. E então como ele a amava e lhe queria A esta pobre terra portuguesa! Velha tinha a razão, velha a experiência, Jovem só esse amor. Tão jovem, que inda cria, inda esperava, Inda tinha a fé viva da inocência!... Eu, na força da vida, Tristemente de mim me envergonhava. - Passeávamos assim, e em reflectida Meditação tranquila descuidados Íamos sós, já sem falar, descendo Por entre os velhos olmos tão copados, Quando sentimos para nós crescendo Rumor de vozes finas que zumbia Como enxame de abelhas entre as flores, E vimos, qual Diana entre os menores Astros do céu, a forma que se erguia, Sobre todas gentil, dessa estrangeira Que se esperava ali. Perfeita, inteira No velho amável renasceu a vida E a graça fácil. Cuidei ver o antigo O nobre Portugal que ressurgia No venerando amigo; E na formosa dama que sorria, O génio da subida, Rara e fina elegância que a nobreza, O gosto, o amor do Belo, o instinto da Arte Reúne e faz irmãos em toda a parte; Que afere a grandeza Pela medida só dos pensamentos, Do 'stilo de viver, dos sentimentos, Tudo o mais como fútil desprezando. Pensei que a saudar o velho ilustre Em seus últimos dias E a despedir-se, até Deus sabe quando, De nossas praias tristes e sombrias, Vinha esse génio... Tristes e sombrias, Que o sol lhe foge, lhe esmorece o lustre, E onde tudo que é alto vai baixando ... O triste, o que não tem já sol que o aqueça Sou eu talvez - que, à míngua de fé, sinto O cérebro gelar-me na cabeça Porque no coração o fogo é extinto. Ele não era assim, Ou sabia fingir melhor do que eu! - Como o nobre corcel que envelheceu Nas guerras, ao sentir o áureo telim E as armas sobre o dorso descarnado, Remoça o garbo, em juvenil meneio Franja de espuma o freio, E honra os brasões da casa em que foi nado. Nunca me há-de esquecer aquele dia! Nem os olhos, as falas, e a sincera Admiração da bela dama inglesa Por tudo quanto via; O fruto, a flor, o aroma, o sol que os gera, E esta vivaz, veemente natureza, Toda de fogo e luz, Que ama incessante, que de amar não cansa, E contínua produz Nos frutos o prazer, na flor a esp'rança. Ali as nações todas se juntaram, Ali as várias línguas se falaram; A Europa convidada Veio ao festim - não ao festim, ao preito. Vassalagem rendida foi prestada Ao talento, à beleza, A quanto n'alma infunde amor, respeito, Porque é deveras grande - que a grandeza Os homens não a dão; Põe-na por sua mão Naqueles que são seus, Nos que escolheu - só Deus. Oh!, minha pobre terra, que saudades Daquele dia! Como se me aperta O coração no peito coas vaidades, Coas misérias que aí vejo andar alerta, À solta apregoando-se! Na intriga, Na traição, na calúnia é forte a liga, É fraca em tudo o mais... Tu, sossegado Descansa no sepulcro; e cerra, cerra Bem os olhos, amigo venerado, Não vejas o que vai por nossa terra. Eu fecho os meus, para trazer mais viva Na memória a tua imagem E a dessa bela Inglesa que se esquiva De nós entre a folhagem Dos bosques de Parténope. Cansado, Fito nesta miragem Os olhos d'alma, enquanto que, arrastado, Vai o tardio pé Por este que inda é, Que cedo não será, bem cedo - em mal! O velho Portugal.

Grafia atualizada a partir da primeira edição. · Fonte

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