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Poema

As pêgas de Cintra

Almeida Garrett · As pêgas de Cintra

POR BEM, AS PÊGAS DE CINTRA. Gavião, gavião branco Vai ferido e vai voando; Mas não diz quem n'o feriu, Gavião, gavião branco! O gavião é calado, Vai ferido e vai voando; Assim fora a negra pêga Que hade sempre andar palrando. A pêga é negra e palreira, O que sabe vai contando... Muito palra, palra a pêga Que sempre hade estar palrando. Mas quer Deus que os chocalheiros Guardem ás vezes, falando, O segredo dos sisudos Que eles não guardam calando. Era uma pêga no paço Que el-rei tomara, caçando; Trazem-n'a as damas mimosa Com a estar sempre afagando. Nos paços era de Cintra Onde estava el-rei poisando; A rainha e suas damas No jardim andam folgando, Entre assucenas e rosas, Entre os goivos trebelhando; Umas regavam as flores, Outras as vão apanhando; E a minha pêga com elas Sempre, sempre palreando. Vinha el-rei atraz de todos Com Dona Mécia falando. Era a mais formosa dama Que andava n'aquele bando; No ombro de Dona Mécia, A pêga vinha poisando. E zelosa aprecia Que os andava espreitando... Colhera el-rei uma rosa, A dona Mécia a ia dando Com um requebro nos olhos Tão namorado e tão brando... Inda bem, minha rainha, Que adeante te vais andando! Pegou na rosa a donzela, Disfarçada a está cheirando... Senão quando a negra pêga Que lh'a tira e vai voando. Deu um grito Dona Mécia... E a rainha, voltando, Deu com olhos em ambos... Ambos se estão delatando. — ‘Foi por bem!’ lhe disse o rei, Seu acordo recobrando: — ‘Foi por bem!’ — ‘Por bem!’ repete A pêga em torno voando. — ‘Por bem, por bem!’ grasna a tonta, De má malicia cuidando Co'a chocalheira da lingua Andar o caso inredando. Mas quer Deus que os chocalheiros Guardem ás vezes falando O segredo dos sisudos Que eles não guardam calando. Riu-se a rainha da pêga, E ficou acreditando Que a inocência do caso N'ela se estava provando. Da pêga mexeriqueira, Do bem que fez, mal pensando, Nos reais paços de Cintra A memória está durando. E eis-aqui, senhora, a história Da pêga que aí vês palrando, Da rosa que tem no bico, Da letra que a está cercando. A pêga é negra palreira, O que sabe vai contando: Mas quer Deus que os chocalheiros Guardem segredo falando. O gavião, esse é outro; Vai ferido e vai voando; Mas não diz quem n'o feriu... Gavião, gavião branco!

Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte

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Frases tiradas deste poema

Estes versos andam a circular sozinhos. Aqui ficam com o poema inteiro por trás, e com a fonte à vista.

Gavião, gavião branco Vai ferido e vai voando; Mas não diz quem n'o feriu, Gavião, gavião branco!

As pêgas de Cintra, de Almeida GarrettVerificada

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Mas quer Deus que os chocalheiros Guardem ás vezes, falando, O segredo dos sisudos Que eles não guardam calando.

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O gavião, esse é outro; Vai ferido e vai voando; Mas não diz quem n'o feriu... Gavião, gavião branco!

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