O Menino Jesus da Cartolinha
Miranda do Douro estava cercada e a coisa não corria bem. As tropas tinham vindo do outro lado da fronteira, o cerco já durava dias, e dentro das muralhas contavam-se mais feridos do que homens capazes de segurar uma arma. A pedra aguentava, porque a pedra ali é boa e está bem posta, mas o ânimo tinha começado a ceder. Havia quem falasse baixinho, a um canto, em abrir as portas antes que fosse pior, e quem já não respondesse a nada.
Foi então que apareceu um rapaz. Teria oito ou nove anos, andava de um lado para o outro entre os defensores e ninguém o conhecia nem sabia de que casa era. Trazia uma espada demasiado grande para o tamanho dele e falava como quem tem o dobro da idade e mandou a vida inteira. Pôs os homens nos postos, mandou as mulheres subir pedra para o adarve, ajudou a levantar quem estava sentado no chão. A quem lhe perguntava o nome respondia com outra coisa qualquer, e a quem hesitava dizia que a cidade não se perdia enquanto houvesse gente nela.
O que aconteceu a seguir ninguém consegue explicar bem. Os mirandeses voltaram às muralhas com uma teimosia que não tinham na véspera, aguentaram um assalto, aguentaram o seguinte, e ao fim de algum tempo os sitiantes desmontaram o acampamento e foram-se embora pelo caminho por onde tinham vindo. A cidade tinha-se salvo com os homens que tinha, que eram poucos, e com um rapaz que ninguém sabia de onde era.
Quando quiseram agradecer-lhe, não o encontraram. Bateram a todas as portas, perguntaram nas aldeias em redor, contaram as crianças uma por uma, e não faltava nenhuma a ninguém. Ficaram sem resposta até que alguém entrou na igreja, olhou para a imagem do Menino Jesus e ficou muito quieto. Era aquela a cara que tinham visto em cima das muralhas.
Desde então os mirandeses tratam o Menino como se tratasse um filho da terra. Vestem-no com fatos feitos à medida, oferecidos pelos devotos e cosidos com o cuidado que se põe na roupa de cerimónia, com camisa, colete, laço ao pescoço e uma cartola pequena que lhe deu o nome pelo qual toda a gente o conhece. Tem guarda-roupa para várias ocasiões e muda de fato conforme a altura do ano. Quem entra na Sé e o vê ali, de cartola e sorriso, percebe depressa que aquilo não é uma imagem como as outras: é o rapaz que apareceu quando fez falta e nunca mais foi embora.
Sabes mais sobre isto?
Se conheces outra versão, se dizem de outra maneira na tua terra, ou se encontraste um erro, diz. É assim que isto melhora.