A Lenda do Rio Sabor
Nas terras altas entre a serra e o Douro conta-se a história de dois jovens que não podiam ser vistos juntos. Ela era filha do senhor de um castelo do vale, criada entre criadas, missas e promessas de casamento com gente da sua condição. Ele guardava gado nas encostas de xisto, dormia ao relento metade do ano e chamava-se Sabor, nome que naquele tempo ainda não era de rio nenhum. Encontravam-se numa fonte a meio caminho, sempre ao fim da tarde, com o cuidado de quem sabe que uma língua solta basta para estragar uma vida.
O pai acabou por saber, como os pais sempre acabam por saber. Não gritou nem bateu, fez pior: mandou fechar a rapariga numa torre virada a nascente, com uma janela estreita como uma frincha, para que continuasse a ver o vale que já não podia percorrer. Aos criados deu ordem de a vigiarem à vez, de dia e de noite. Ao rapaz mandou recado seco, daqueles que se percebem à primeira, avisando que se tornasse a aparecer nas suas terras não voltaria a sair delas em pé.
Sabor esperou na fonte a noite inteira. Depois esperou a noite seguinte, e a outra, e a que veio a seguir a essa. Não comia, não falava com ninguém, não largava a pedra onde se sentava. Contam os do vale que às tantas já não se distinguia dele a água que corria ao lado, e que numa madrugada qualquer deixou de haver rapaz e passou a haver um fio de água, teimoso, à procura de caminho pela encosta abaixo. Foi assim, dizem, que o rio começou.
A água entrou pelo granito, abriu vale onde não havia vale, contornou penedos do tamanho de casas e não parou até chegar aos pés da torre. A rapariga, que da janela via aquilo aproximar-se, percebeu quem vinha e atirou-se para os braços da corrente. Há quem conte a história ao contrário e garanta que foi ela quem chorou até virar água e que o rio é dos dois, ou só dela. Em cada aldeia a versão muda um pouco, e em cada aldeia há velhos dispostos a discutir o assunto a sério.
O que ninguém discute é o feitio do Sabor: frio, apressado, sempre encaixado entre encostas, sem paciência nenhuma para se espalhar em planície como fazem os rios bem comportados. Corre assim, aos saltos e às voltas, até se entregar ao Douro. E as pessoas mais velhas dizem que é por causa disto, porque um rio que nasceu de uma espera nunca mais aprendeu a estar quieto.
Sabes mais sobre isto?
Se conheces outra versão, se dizem de outra maneira na tua terra, ou se encontraste um erro, diz. É assim que isto melhora.