Santa Iria e o Nome de Santarém
Iria era uma rapariga de Nabância, criada com esmero num mosteiro e prometida a Deus desde muito nova. Saía pouco, rezava muito e tinha uma beleza que foi o princípio de todos os seus problemas, porque numa terra pequena a beleza de quem não pode ser de ninguém é assunto de conversa em todas as casas. Uma vez por ano deixava-se ver na procissão, e foi numa dessas vezes que um jovem nobre chamado Britaldo a viu e ficou doente de amor, daquela doença antiga que punha os homens de cama a definhar.
A rapariga soube e mandou-lhe dizer que não podia ser sua nem de homem nenhum, porque já tinha dono e o dono era outro. Britaldo, que apesar de tudo era rapaz de bom fundo, aceitou a resposta, levantou-se da cama e prometeu deixá-la em paz enquanto ela mantivesse a promessa que tinha feito. O caso teria ficado por ali se não houvesse um terceiro, o monge Remígio, que a ensinava e que também a queria, e que ao ser recusado guardou a vergonha por dentro e deixou que ela azedasse.
A vingança de Remígio foi de uma maldade fria. Deu-lhe a beber uma mezinha que lhe inchou o corpo, de maneira a parecer, aos olhos de toda a gente, uma mulher grávida de alguns meses. Nabância inteira falou do assunto em três dias. Quando a notícia chegou a Britaldo, o que ele ouviu foi que tinha sido enganado, e a dor virou raiva sem passar por nenhum passo intermédio.
Mandou um homem de armas segui-la até à margem do rio, onde ela costumava ir rezar sozinha ao fim da tarde. O homem cumpriu a ordem, matou-a ali e atirou o corpo à água, e voltou para trás sem que ninguém o visse. Iria morreu sem se defender de uma acusação que era falsa e sem saber quem lhe tinha feito aquilo.
A água levou-a. Desceu de rio em rio até ao Tejo, e no Tejo continuou até parar diante da povoação que ficava no alto, sobre a lezíria. Dizem que ali as águas baixaram sozinhas e mostraram, no leito, um túmulo de pedra lavrada que ninguém tinha feito, com o corpo intacto lá dentro. O tio, que a procurava havia dias, percebeu tudo ao vê-lo, e a verdade da mezinha acabou por vir ao de cima como vem sempre, tarde e sem servir para nada. Não deixaram que se tocasse na sepultura e a água voltou a cobri-la. A vila, essa, passou a ser conhecida pelo nome da rapariga, e é esse nome, gasto por séculos e por bocas, que hoje se lê e se diz Santarém.
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