A Moura Fátima e o Cavaleiro de Ourém
O cavaleiro tinha alcunha antes de ter história. A Gonçalo Hermigues chamavam-lhe Traga-Mouros, e o nome não era por delicadeza: era dos homens que faziam a guerra do sul ao serviço de Afonso Henriques, de emboscada em emboscada, num tempo em que a fronteira não era uma linha desenhada mas uma faixa de terra que mudava de dono conforme quem tinha dormido melhor.
Numa dessas correrias, o grupo dele caiu sobre um cortejo mouro que atravessava as serras. Ficou tudo por terra em pouco tempo, e entre os cativos vinha uma rapariga que se percebia logo não ser criada de ninguém: filha de um senhor de castelo, vestida como tal e com o desdém de quem nunca teve de pedir nada. Chamava-se Fátima. Gonçalo, que tinha atravessado meia vida a fazer o que fazia sem se comover com coisa nenhuma, comoveu-se ali.
Pediu ao rei, em vez do quinhão de despojos a que tinha direito, que lhe desse a rapariga. Afonso Henriques concordou, com uma condição de peso: que ela quisesse, e que se fizesse cristã. Ela pensou o tempo que teve de pensar, aceitou, e no batismo deram-lhe o nome de Oureana. Casaram-se, e o rei, que não era homem de ficar a dever favores, deu-lhes terras naquela zona de serra calcária, com pastos magros e horizontes largos.
Foram felizes o tempo que a vida deixou, que foi pouco. Oureana morreu nova, ao fim de poucos anos, e Gonçalo ficou com o mundo às avessas. Entregou o que tinha, deixou as armas de vez e foi meter-se em Alcobaça, entre monges, a rezar por ela e a viver o resto dos dias em silêncio. Antes disso pediu licença para levar o corpo dela para um alto perto dali, um sítio pequeno de que ela gostava, e ali a enterrou.
Com o tempo, o lugar onde ela ficou passou a ser conhecido pelo nome que ela tinha trazido de casa, Fátima. E as terras que foram dela ficaram com o nome de batismo, Oureana, que a fala foi encurtando e gastando até dar Ourém. Ficaram assim, a poucos quilómetros um do outro, os dois nomes da mesma mulher, cada um do lado da sua religião, e nenhum dos dois quis desaparecer.
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