A Ponte de Lima e o Rio do Esquecimento
No verão em que as legiões chegaram ao vale do Lima, o exército parou na margem e recusou-se a avançar. Corria entre os soldados que aquela água calma e clara era o rio do esquecimento, o Letes de que falavam as histórias antigas, e que quem o atravessasse perdia de uma vez o nome, a cara dos filhos e o caminho de casa. Os povos daquelas terras não faziam nada para desmentir a fama, porque lhes convinha que o medo fizesse o trabalho que as lanças não conseguiam fazer.
Os centuriões gritaram, ameaçaram, prometeram recompensas, e não puseram um único homem dentro de água. Aquela gente tinha atravessado meia Península a combater sem hesitar diante de nada, e ali estava parada como gado à porta do matadouro, a olhar para a outra margem verde, tão perto e tão perigosa. Morrer numa batalha era coisa que sabiam fazer e para que tinham sido treinados. Morrer sem memória, apagados por dentro, sem saber quem tinham sido nem por quem tinham lutado, era outra conversa.
O general perdeu a paciência ao terceiro dia. Tirou o estandarte das mãos do porta-insígnias, entrou no rio sozinho e atravessou-o com a água pelo peito, sem olhar uma vez para trás. Do outro lado, subiu ao barranco, virou-se para a tropa, levantou a insígnia bem alto e começou a chamar os soldados um por um, pelo nome, a berrar por cima do barulho da corrente. Chamou o da primeira fila e chamou o rapaz que carregava a bagagem no fim da coluna, e não falhou um único.
Cada nome que dizia era uma prova em pé. Se a água lhe tivesse levado a memória, não saberia quem eram aqueles homens, nem de que aldeia vinham, nem quantas campanhas tinham feito ao lado dele. Envergonhados, foram entrando na água, primeiro os mais novos, depois os outros, até que a legião inteira passou para a margem de lá. Contam que nesse dia ninguém se esqueceu de nada, a não ser do medo que tinha tido de manhã.
O vale ficou com a estrada, a estrada ficou com a ponte, e à volta da ponte cresceu a vila que ainda hoje traz o rio no nome. Séculos mais tarde passavam por ali os peregrinos de Santiago, em fila, com o mesmo passo e a mesma pressa dos soldados. Quem lá chega numa manhã cedo, com o nevoeiro agarrado à água a engolir os arcos um a um, percebe muito bem porque é que homens de armas hesitaram diante daquilo. E há quem diga, meio a sério e meio a rir, que se ficarmos calados o tempo suficiente ainda se ouve alguém a chamar nomes na outra banda.
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