O Galo de Barcelos
Havia em Barcelos um roubo por explicar e uma vila inteira à procura de um culpado. Apareceu por essa altura um galego que ia a caminho de Santiago de Compostela, pediu pousada para uma noite e teve o azar de ser a única cara desconhecida naquelas ruas. Bastou isso. Prenderam-no logo de manhã, despejaram-lhe o alforge no chão diante de toda a gente, não lhe encontraram nada que pertencesse ao homem roubado, e mesmo assim deram o caso por arrumado.
O peregrino defendeu-se como pôde. Disse que era homem de promessa, que levava bordão e concha, que ia cumprir uma jura ao apóstolo e que nunca na vida tinha posto a mão no que não era seu. Ninguém quis saber. Acusar quem vai de passagem poupa o trabalho de procurar o ladrão entre vizinhos, e além disso um forasteiro não tem quem grite por ele na praça. O juiz assinou a sentença de morte antes do meio-dia e foi jantar a casa, com amigos à mesa e a consciência descansada.
Antes de o levarem para a forca, o condenado pediu uma última graça: falar com o juiz. Levaram-no, mais por curiosidade do que por respeito, e ele entrou na sala em plena ceia, com o cheiro do assado a encher tudo. No centro da mesa, ainda inteiro, estava um galo louro à espera de ser trinchado. O galego olhou para a ave, depois para os homens que comiam, e disse em voz alta, para que todos ouvissem: «Tão certo como eu ser inocente, esse galo há de levantar-se e cantar quando me estiverem a enforcar.» A sala riu-se com vontade. Por gozo, e não por dúvida, o juiz mandou pôr o prato de lado sem lhe tocar.
Chegou a hora. Puseram o laço ao pescoço do peregrino e a vila juntou-se à volta, como sempre se juntava para estas coisas. Foi então que, na casa do juiz, com a mesa ainda posta e as cadeiras vazias, o galo assado se levantou no prato e cantou, com a voz rouca de quem já tinha passado pelo forno. O juiz saltou da cadeira, atravessou as ruas a correr e chegou ao lugar da execução aos gritos, a mandar parar tudo.
Encontrou o homem pendurado e vivo. O nó, sem que ninguém soubesse explicar como, tinha ficado mal atado e segurava-o pelo queixo em vez de o matar. Soltaram-no ali mesmo, pediram-lhe desculpa da maneira atrapalhada com que se pedem desculpas nestes casos, e deixaram-no seguir viagem. Em Barcelos ninguém voltou a falar do roubo. Anos depois, o galego regressou por sua vontade e mandou levantar um cruzeiro de pedra em memória do que ali lhe tinha acontecido. O galo ficou. Ficou tão bem que se tornou a figura mais copiada da olaria portuguesa e acabou a representar o país inteiro em prateleiras de meio mundo.
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